segunda-feira, janeiro 31, 2011

Lisa Santos Silva

Se acaso estiver ou passar por Paris, recomendo que não deixe de ver, no Centro Cultural Gulbenkian (51 avenue d'Iéna, a dois passos dos Champs Elysées), a exposição de Lisa Santos Siilva, uma pintora portuguesa que reside em Paris, intitulada "Are you ready Lola?".

Há por ali - a conferir - reminiscências assumidas de Velasquez, com uma "touche contemporaine déroutante", como dizia ontem o "Journal de Dimanche". Uma agradável surpresa, que vale bem a visita.

Em Paris

"Tim Tim no Tibete" muda-se para Paris. "À suivre" as suas próximas aventuras.

domingo, janeiro 30, 2011

31 de Janeiro

120 anos nos separam hoje da primeira revolta republicana em Portugal. O "31 de janeiro", para além de uma tentativa falhada de golpe militar contra a monarquia dos Bragança, foi igualmente um sobressalto cívico, traduzindo o mal-estar que atravessava o país por virtude do "ultimatum" britânico - que, sem fundamento que não fosse a ameaça da força, impedia Portugal de afirmar o direito soberano de ligar as suas colónias de Angola e Moçambique, depois de um notável esforço de exploração levado a cabo pelo nosso país, no sul do continente africano.

Entusiasmado pela recente implantação da República no Brasil, o movimento republicano português tentou, com alguma imprecisão organizativa, o derrube da monarquia. Não tendo alcançado o seu objetivo, foi sujeito a uma inédita vaga repressiva, o que viria a acentuar a sua radicalização. 

Seriam ainda precisos mais 19 anos para a República nascer em Portugal, em 5 de outubro de 1910.

Cairo

"Comovente", foi como alguém qualificou o cordão humano que  a televisão mostrava hoje de manhã a cercar o museu do Cairo, para defender essa preciosidade sem preço, onde se alberga uma memória que pertence à humanidade.

Os egípcios, orgulhosos da sua história, aprenderam as lições do Iraque, em 2003, onde a barbárie das turbas salteadoras do museu de Bagdad contou com a inculta displicência dos invasores americanos, que nada fizeram para evitar o saque e a pilhagem de peças insubstituíveis.

sábado, janeiro 29, 2011

O vison voador

O título deste post é retirado de uma peça de teatro em que entrava o Raul Solnado, que me lembro de ter visto no "Villaret"*. A história é, contudo, outra.

Era um velho mordomo, homem com muitos anos de casa, que por ela já vira passar imensos embaixadores ou, como ele dizia, que já havia "sofrido muitos embaixadores". Naquela noite, estava escandalizado. A ocasião social estava a ser demasiado "solta" para os hábitos da casa. O nível dos convidados era abaixo daquilo a que estava habituado. Talvez o facto do embaixador ser novo, sem experiência local, o tivesse induzido a franquear a entrada a "toda a espécie de gente". O acesso para o espetáculo musical, organizado na residência do embaixador, fazia-se quase sem controlo. O mordomo, bem ciente dos seus deveres, pusera, entretanto, a bom recato as pratas da casa e os bibelots mais frágeis, ou de dimensão à medida dos bolsos. 

A noite estava fria e a mescla de convidados fazia conviver, no hall de entrada, toda a espécie de casacos, desde os mais simples aos mais requintados. Não se esperava tanta gente, pelo que os cabides não chegavam e os abafos amontoavam-se sobre bancos corridos. "Uma vergonha!", pensava o nosso homem, saudoso de noites bem mais requintadas, porque, para nostalgias snobes, não há como os velhos mordomos.

Algumas horas e muitos copos depois, acabada a música e esgotadas as vitualhas, os convidados iam saindo, espaçados no tempo, com os mais resistentes a deixarem prolongar as conversas, espojados pelos sofás. O mordomo, já ultrapassado pelos acontecimentos, mantinha-se no hall, apenas atento à movimentação residual, desejoso que aquela noite terminasse, de uma vez por todas. Tal como a entrada, a saída fazia-se também sob um total descontrolo, com os visitantes a procurarem os seus casacos, revolvendo nas pilhas amontoadas. O mordomo, num  gesto de delicadeza, ajudava-os a vestirem-se, o que subliminarmente também traduzia a vontade de os ver pelas costas. 

Já passava da uma hora da manhã. A certo momento, ouviu-se uma exclamação: "O meu vison?! Onde está o meu vison?". Uma dama confrontava-se, alarmada, com a desaparição da sua dispendiosa pele. E, em recurso, voltou-se para o mordomo: "O senhor viu o meu vison?"

Impecável mas impotente, o nosso homem esclareceu, com o possível rigor, olhando o que restava da resma de casacos: "Por aqui, minha senhora, os visons já acabaram cerca da meia-noite!"

* A Dra. Helena Sacadura Cabral sustenta, num comentário, que não foi no "Villaret", mas sim no "Monumental". Esses 300 metros de distância fazem toda a diferença: entre eles ficavam o "Porão da Nau", o "Convés", a "Mourisca", o "Montecarlo" e o restaurante-bar "Monumental", por onde passava metade de alguma vida lisboeta de então.

O ocidente e a "rua árabe"

É difícil e arriscado procurar reduzir a modelos simplificados de explicação realidades que são muito complexas. O vento de instabilidade que afeta vários Estados árabes, para além das sementes de mútuo contágio, traduz realidades e relações de força muito diferentes. Mas não deixa de ter pontos comuns.

Com graduações e formatos institucionais diversos, todos esses regimes em crise são marcados por fortes sistemas de autoridade, às vezes sob a forma de uma figura predominante, noutros casos com uma preeminência das forças armadas, noutros ainda com uma combinação de ambos os fatores. Ora a História ensinou-nos - ensinou-nos? - que todos os formatos institucionais que não sejam regularmente legitimados de forma democrática têm, a prazo, uma necessária fragilidade. Essa fragilidade agrava-se se o sistema não conseguir proporcionar um desenvolvimento económico, com eficaz distribuição da riqueza e, como se viu claramente no caso tunisino, se não for capaz de corresponder aos anseios de uma classe média emergente, aculturada aos padrões ocidentais. De forma clara, o fim das barreiras de informação tem também um crescente e importante papel, até porque é na juventude que a ela tem acesso, muitas vezes sem emprego e sem perspetivas, que assenta muita da potencial "mão-de-obra" manifestante.

No caso do mundo árabe, estes fenómenos cruzam-se ainda com a presença do fator religioso, que tem uma relevância diferenciada em cada caso nacional mas que, onde e quando emerge com força, por via de proselitismo de influência ou mesmo por via democrática, coloca desafios de outra natureza. É que o Islão tem uma mundividência diferente de todas as outras grandes religiões, influenciando todas as áreas da vida quotidiana, a que a política não escapa. E, nas suas versões mais radicais, é incompatível com os modelos democráticos tradicionais.

Se a vida internacional não fosse uma coisa muito séria, quase poderíamos dizer que se torna hoje irónico ver o mundo ocidental a fazer figura de "barata tonta" face ao terramoto que abala o mundo islâmico: tanto se sente tentado a prolongar (sem o assumir abertamente) uma "realpolitik" que acaba por ser cúmplice de certas situações que (apenas retrospetivamente) acha intoleráveis, como aparece excitado (mas, lá no fundo, receoso com o que dai pode resultar, poque não dispõe de influência para condicionar o rumo das coisas) perante o aflorar desorganizado da vontade popular em certos Estados. 

Por uma vez, sejamos francos: o mundo desenvolvido euro-americano está - no mundo árabe, na África negra ou em certas zonas asiáticas - simplesmente a colher, não aquilo que plantou, mas o que deixou crescer, porque lhe dava jeito. E, claramente, não sabe hoje o que fazer.

"Maxime"

O "Maxime", ali na praça da Alegria, é um ícone da noite lisboeta. De cabaret de luxo nos anos 40, foi passando, entretanto, por fases mais ou menos faustosas. Na sua juventude, parte da minha geração também andou por lá, brevemente, na viragem das décadas 60/70, embora o "Bolero" (depois o "Jamaica"), no Martim Moniz, fosse então o destino de eleição. Senti que o "Maxime" ia perdendo o brilho de outros tempos. Constante, apenas se mantinha o seu típico barbeiro, à entrada.

Há uns anos, a Lena e o Bo Backstrom, dois bons amigos de há décadas, decidiram "pegar" no "Maxime" e transformá-lo num espaço de bar e espetáculos, com um toque de modernidade, aberto a públicos mais jovens, recrutando artistas que iam de revelações a consagrados, alguns esquecidos pelo tempo, com certo "kitsch retro" pelo meio (recordo-me de, no Brasil, e a seu pedido, ter andado em busca de Nelson Ned). Por alguns anos, as coisas terão corrido relativamente bem, embora com muito esforço.

As crises, porém, também são cruéis para as noites. A aventura desta fase do "Maxime" acaba precisamente hoje, com um último espetáculo e uma última festa, que se anuncia "de arromba". 

Para a Lena e para o Bo, que investiram muito de si neste projeto, aqui deixo um forte abraço de solidariedade e de ânimo. Eu sei que, para eles, deixou já de existir a praça da Alegria.

Reflexão poética

No passado sábado, estive a pontos de cometer aquilo que seria uma imperdoável imprudência blogosférica. Aproveitando o dia de reflexão, e por sugestão de uma minha sobrinha, preparei um post que, no derradeiro minuto, percebi que poderia dar azo a más interpretações.

Era o seguinte o seu texto:

"Dizem-me que a "Poesia Incompleta", a única livraria existente em Portugal dedicada exclusivamente à poesia, está a passar por dificuldades para sobreviver.

Para os leitores (e eleitores) lisboetas que hoje entraram em reflexão - e esta eleição presidencial é, sem a menor sombra de dúvida, aquela que mais reflexão justifica, a montante do voto, em mais de 35 anos de democracia - dou um conselho: porque não dão hoje uma oportunidade à poesia e se deslocam à rua Cecílio de Sousa, n° 11, ali perto do Principe Real? Ler poesia, nestes tempos que não rimam com nada (Alcipe diria que todos os dias), é um ato de inteligência, uma justificada bofetada na indiferença." 

Julgo que não vale a pena explicar a "gaffe" que teria sido, na véspera daquela eleição, colocar um post com este conteúdo. Agora, já posso fazê-lo.

sexta-feira, janeiro 28, 2011

Provérbio árabe

"O que não disseste pertence-te. O que disseste pertence aos teus inimigos".

quinta-feira, janeiro 27, 2011

Alistair Darling

Com um pequeno e heterogéneo grupo, almocei com Alistair Darling, que foi ministro das Finanças de Gordon Brown. Havia-o conhecido pessoalmente em Londres, ainda no "shadow cabinet", em 1996. 

Com a saída do governo, onde esteve consecutivamente entre 1997 e 2010, Darling ganhou uma liberdade de análise que se torna especialmente interessante para interlocutores internacionais.

Nesta conversa, o ex-ministro deu uma visão muito crítica do processo decisório europeu, em especial da sua capacidade de reação perante as crises. Do mesmo modo, foi bastante cético quanto à vontade prevalecente no seio do G20 para levar à prática muito daquilo que, no anterior momento de "pânico", havia aparecido como base consensual operativa. O facto de a administração Obama estar agora "de mãos atadas" pelos legisladores americanos e de não ser clara, algumas vezes, a linha seguida por Pequim, são fatores que tornam as decisões possíveis no seio do G20, num futuro imediato, muito imprevisíveis. E chamou a atenção para o facto de a City londrina, apreciando e até agradecendo uma regulamentação à escala global que possa prevenir crises, não estar disposta a aceitar "coletes de forças" regulatórios que possam pôr em causa a sua eficácia. E, em especial, a sua preeminência no mercado financeiro internacional, depreende-se. Acho que os amigos franceses que estavam na mesa terão tomado as suas notas.

"Cunhas"

As "fashion weeks" parisienses são uma ocasião tradicional para as representações diplomáticas serem bombardeadas com pedidos para obtenção de lugares nas filas prestigiadas, reservadas aos "voyeurs" nacionais (neste caso, mais às "voyeuses") da moda, desejos de emparelhar nas fotos da imprensa "rosa" com as vedetas de serviço.

Vários colegas meus me têm referido o tormento por que passam, todos os anos, para conseguir acomodar as sazonais solicitações do seu "social set".

No que nos toca, para além da óbvia ajuda a profissionais lusos do "métier" providenciada pela AICEP, esses pedidos não são aceites. Os tempos gloriosos da "cunha" diplomática já lá vão, há muito...

A banda dos seis narizes*

O diário "Libération" ("Libé", para os franceses) habituou-nos, de há muito, a imaginativas surpresas no seu "layout".

Hoje, para celebrar o festival de banda desenhada de Angoulême, todas as imagens do jornal assumem a forma de desenhos, como esta que representa as manifestações no Cairo.

*O título deste post recupera o nome de uma livraria que existe em Bruxelas - "La bande des Six Nez" -, especializada, como não podia deixar de ser, em "bande déssinée"

quarta-feira, janeiro 26, 2011

Manuela de Melo

Acabo de ler que a deputada Manuela de Melo deixou a vida política. Por uma qualquer coincidência, bem rara, creio que nunca a encontrei, ao tempo, já longínquo, em que andei por essa mesma vida. Mas isso não me impede de me recordar muito bem dela, para além da imagem que os portugueses conservam como uma das caras nortenhas da RTP.

Manuela de Melo era a nossa grande vedeta no Teatro Universitário do Porto (TUP), nos anos 66/68. Com Jorge Ferreira, Manuela constituía o par romântico da peça "Ana Kleiber", de Alfonso Sastre, que, sob direção de Correia Alves, o TUP levou à cena nesse tempo. Eu tinha um curto papel, a abrir e a fechar o espetáculo, no qual fazia de jornalista que entrevistava o autor, este representado por Francisco Vasconcelos, que hoje o mundo literário conhece como Francisco Vale, diretor da "Relógio de Água". Durante o resto do espetáculo, ajudava na sonoplastia, tendo-me cabido descobrir, nos arquivos do Rádio Clube Português, do Porto, onde então colaborava, a música que servia de fundo a toda a peça, a magnífica "Lili Marleen", na voz de Marlène Dietrich. A nossa "Ana Kleiber" andou pelo país e recordo-me, em especial, da nossa presença na abertura do festival do CITAC, em Coimbra. Com a representação da Manuela a garantir-nos um imenso sucesso.

Esses sim, belos tempos!

BBC em português

Acaba de saber-se que o "BBC World Service" vai deixar de transmitir os seus programas em português para África, no âmbito de uma profunda reforma motivada por cortes orçamentais. Creio que muitas pessoas desconhecem que o "BBC World Service" era suportado por verbas do "Foreign Office", o MNE britânico, que agora decidiu deixar de financiá-lo. Não é claro, por ora, se isso não afetará, em absoluto, o uso da língua portuguesa nos serviços da BBC.

O "serviço português" da BBC tem uma história importante, desde a sua criação, em 1939. Lembro-me de o meu pai contar como, durante a 2ª Guerra mundial, a voz, em "ondas curtas", de Fernando Pessa trazia aos democratas portugueses as notícias dos Aliados, quebrando o bloqueio informativo imposto pela censura salazarista. Mais tarde, no estertor da ditadura, recordo-me de, eu próprio, ouvir com regularidade a BBC, em português, com novidades da nossa política doméstica que o marcelismo procurava ocultar. Para além de Pessa, outros nomes que viriam a ser bem conhecidos na rádio portuguesa passaram pelo prestigiante "serviço português" da BBC. Lembro-me - e cito de cor - de Francisco Mata, Joaquim Letria, António Cartaxo, Hernâni Santos, Gilberto Ferraz, António Borga, Luís Amorim de Sousa, José Júdice, Fernando de Sousa, João Paulo Dinis e José Rodrigues dos Santos.

Interessa registar, como nota histórica, o papel desempenhado pelo "serviço português" da BBC como via de informação dos guerrilheiros de Timor-Leste, lembrado no seu blogue por essa figura incontornável nos "media" portugueses em Londres, que é o meu amigo Gilberto Ferraz.

Confesso que sinto com alguma tristeza este fim do "serviço português", deixando aqui um abraço ao Manuel Santana, que o dirigiu por bons anos. Tenho esperança que este exemplo negativo não venha a frutificar em terras francesas, onde o serviço em língua portuguesa da Radio France Internationale também já sofreu lamentáveis cortes e limitações.

Em tempo: o "Jornal de Notícias" faz referência a este assunto com esta "pérola": "Mas para Teresa Lima, responsável pela secção portuguesa na BBC, onde está há 12 anos, a notícia não é totalmente inesperada. "O serviço já teve para ser cortado várias vezes", explicou, em declarações à agência Lusa.". Já "teve"? Será "sotaque" de Lisboa? Ou mau ouvido? E ninguém "edita" isto no jornal?

Comércio internacional

Leio hoje esta notícia, no sempre atento Portugal Digital:

"Técnicos do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (do Brasil) examinam alternativas, como a imposição de barreiras tarifárias para conter importações consideradas prejudiciais para alguns setores da produção nacional
(...)O objetivo é recuperar a balança comercial positiva em relação a maior parte dos parceiros econômicos do Brasil.
(...)A lista de produtos sujeitos a essas restrições ainda não foi concluída, mas a ideia é priorizar as mercadorias que têm similares produzidos no Brasil ou que têm condições de serem fabricados no país".

Este é um sinal bem claro de que o protecionismo, essa pandemia cíclica da economia internacional, está de regresso. Veremos, no caso específico do Brasil, em que medida isso terá implicações no quadro da retoma de negociações do acordo económico entre o Mercosul e a União Europeia (UE).

Há dias, em conversa com uma figura que, há pouco, deixou um lugar no governo francês na área económica externa, perguntei que esperanças podiam ainda colocar-se na conclusão do "ciclo de Doha", da Organização Mundial de Comércio (OMC), tido como o "ciclo do desenvolvimento" e, por muitos anos, apresentado como um fator potenciador do crescimento das economias à escala global. A minha interlocutora olhou para mim com surpresa, comentando que, nos dias que correm, apenas era legítimo falar do "antigo ciclo de Doha"...

A minha pergunta não era inocente, bem pelo contrário. O meu objetivo era abrir espaço para a questão seguinte: se, perante a constatação desse impasse, haveria ou não que repensar o curso de "phasing-out" da Política Agrícola Comum (PAC), que havia sido desenhado em Novembro de 2002, ainda a montante da definição das últimas "perspetivas financeiras" (quadro financeiro plurianual, 2007-2013), cujo termo deveria coincidir com a entrada em vigor do (então julgado possível) acordo dentro da OMC. 

O sorriso da minha interlocutora revelou que isso era "música" para os seus ouvidos. "Claro que a PAC é para continuar e, se possível, reforçar. É uma política estruturante da UE e, cada vez mais, temos de ter em atenção a segurança alimentar da Europa", disse-me.

Tomei a devida nota, com a autoridade de representante de um país que é "contribuinte líquido" da PAC, isto é, de um Estado que paga mais para essa política do que dela recebe... 

terça-feira, janeiro 25, 2011

Côte d'Ivoire

No meu tempo (pelo menos), o francês e inglês eram as duas línguas de trabalho utilizadas na Convenção de Lomé (hoje chamada de Cotonou), o acordo político, económico e social entre os membros das (então) Comunidades Europeias e as mais de seis dezenas (à época) de países da África, Caraíbas e Pacífico - os chamados países ACP -, a maioria dos quais antigas colónias europeias.

Durante uma reunião da Convenção de Lomé, nos anos 80, em Bruxelas, assisti a uma cena curiosa.

O embaixador britânico estava no meio de uma intervenção quando, subitamente, foi interrompido por um delegado africano, que se levantou e pediu a palavra. Os co-presidentes, do lado europeu e do lado ACP, ficaram, por segundos, sem saber o que fazer. Neste tipo de reuniões, as intervenções oriundas de cada grupo não assumem um caráter nacional, correspondendo a uma espécie de representação temática, distribuída pelos representantes de certos  Estados (na altura, do lado europeu, creio que falavam apenas os membros da chamada troika - o Estado que detinha a presidência, o que o havia antecedido na função e o que lhe sucederia no semestre seguinte). 

O delegado africano - que logo anunciou, alto-e-bom-som, que era o embaixador da "Côte d'Ivoire"- , aproveitando a hesitação, acabou por levar a sua avante e lá tomou a palavra, em francês:

- Quero lavrar o meu protesto solene quanto à forma como o senhor embaixador se refere ao meu país. Deve saber que ele não se chama "Ivory Coast", chama-se "Côte d'Ivoire". Esse é o nome oficial, que deve ser respeitado por todos. Os nomes dos Estados não se traduzem.

Protesto registado, o homem sentou-se, com a "honra" visivelmente vingada. O colega europeu que representava o executivo de sua majestade engoliu em seco e deve ter optado por passar a referir-se ao "governo de Abidjan" (felizmente, na altura, só havia um...). E a reunião lá prosseguiu. 

Não vem para o caso saber se o embaixador africano tinha ou não razão, no seu ponto formal. O futuro, pelo menos, não lha daria, porque o nome do seu país, em inglês, circula por aí. Mas o incidente, pelo seu ineditismo, ficou-me na memória. Agora que a "Côte d'Ivoire" anda, por muito más razões, na boca do mundo, talvez valha a pena lembrar que, entre nós, ela nunca deixou de chamar-se Costa do Marfim...

Cultura portuguesa em França

Assim começa um "take" da Lusa, hoje:

"Em 2012, Joana Vasconcelos será a primeira artista plástica europeia convidada para instalar o seu trabalho no Palácio de Versalhes. Neste início de 2011, António Lobo Antunes é alvo de uma homenagem inédita em França, com 50 espectáculos dedicados à sua obra até Junho. Gonçalo M. Tavares recebeu, em Novembro passado, o Prémio do Melhor Romance Estrangeiro pela tradução francesa de Aprender a Rezar na Era da Técnica. A Mãe, de Rodrigo Leão, foi escolhido para a lista de álbuns do ano pela revista Les Inrockuptibles. Mistérios de Lisboa, de Raoul Ruiz, adaptando Camilo Castelo Branco, foi um dos filmes mais aplaudidos de 2010.

O que se passa de novo em França com a cultura portuguesa?
"

No momento em que Fátima Ramos, conselheira cultural em França, acaba o seu trabalho de alguns anos na Embaixada, e sem prejuízo da capacidade de afirmação autónoma de alguns criadores, é de justiça notar que uma parte da resposta também passa por ela.

"Ortographia"

Pois é, desculpem lá, mas acaba de sair no "Diário da República", de hoje, a Resolução do Conselho de Ministros que determina a aplicação do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa no sistema educativo no ano lectivo de 2011-2012 e, a partir de 1 de Janeiro de 2012, ao Governo e a todos os serviços, organismos e entidades na dependência do Governo, bem como à publicação do Diário da República.

Alguns não gostarão. Foi o que provavelmente sucedeu aos nossos antepassados, quando deixaram de escrever "pharmácia" e "assumpto". Como me disse um dia Evanildo Bechara, o negociador brasileiro deste Acordo, os entendimentos ortográficos (e já não "ortográphicos"), verdadeiramente, são feitos para as gerações seguintes.

segunda-feira, janeiro 24, 2011

Ainda Lobo Antunes

"Triste, eu?!", ripostou Lobo Antunes, a um jornalista que, na manhã de ontem, o interrogou na Embaixada, por ocasião da apresentação de um projeto teatral que lhe é dedicado inteiramente neste semestre, de que já aqui falei, bem como do seu novo livro, em francês, "Mon nom est légion". A pergunta referia-se ao tom geral da sua obra, mas o romancista decidiu tomá-la à letra e falou da "má disposição" que, às vezes, emerge em membros da sua família.

O escritor está, por estes dias, em França. Na conferência de imprensa, fez uma digressão divertida e "solta" em torno da sua relação com este país, dos amigos que aqui sempre teve, demonstrando reconhecimento por quem aprecia e acarinha a sua obra.

Duas notas humanas.

A primeira sobre Jean Daniel. Lobo Antunes revelou que, um dia, o jornalista lhe escreveu, mostrando o desejo de o conhecer. Ora essa era uma admiração facilmente correspondida, já que o escritor, enquanto militar, era leitor atento do "Nouvel Observateur", que lhe chegava à frente de combate, sabe-se lá por que meios.

Tocante foi também o modo como António Lobo Antunes falou do seu novo tradutor, Dominique Nédellec. "Quando o conheci, olhei para ele e não acreditava: pensei que era o Art Garfunkel...". O escritor falou da arte da tradução, que vê como a versão "a preto e branco de um quadro a cores", onde se projeta um trabalho da maior delicadeza. E foi, igualmente, bastante interessante ouvir a perspetiva culta do próprio tradutor, a falar da sua imersão na obra do autor, "assustado" inicialmente pela imensa responsabilidade e, finalmente, agradado com o agrado evidente do criador do texto.

Um belo momento, com António Lobo Antunes, em Paris, ontem.

Os portugueses deles

Um dos grandes mistérios que, desde há muitos anos, me atravessa é o critério seguido pela imprensa estrangeira para selecionar as personalidades portuguesas cujas citações usa nos seus artigos sobre o nosso país. Quero crer que tal escolha assente em nomes mais sonantes, em conhecimentos antigos ou, para quantos querem ir um pouco mais longe e não sabem por onde ir, nos amigos de amigos.

Para além das figuras institucionais - figuras políticas, de todos os quadrantes -, que sempre dizem exatamente aquilo que se espera que digam, há no nosso país uma mão-cheia de personalidades que, com maior ou menor regularidade, aparecem referenciadas nos escassos artigos que o Portugal  político suscita. Os períodos eleitorais são as ocasiões de ouro para o brilho internacional desses especialistas em nós mesmos. E, desta vez, claro!, isso não deixou de ocorrer.

Como o jornalismo de oportunidade precisa de um "lead" caricatural, porque não é de bom tom, sobre um país informativamente longínquo, não fazer assentar o texto numa única linha opinativa, tida por representativa do "mainstream", as vozes escutadas entre aspas ecoam quase sempre, embora cada uma à sua estimável maneira, o tom geral com que o artigo pretende mostrar o Portugal por onde o jornalista passou umas horas. E, em regra, pouco mais.

Feiras & vaidades

Há dois anos, quando publiquei “Antes que me Esqueça”, sugeriram-me que, na feira do livro seguinte, lá estivesse umas horas, num dia a defi...