domingo, setembro 13, 2026

Um regresso

Suponho que sou igual a toda a gente. Acho graça regressar aos lugares onde um dia trabalhei, de observar o que mudou e verificar se a nova realidade ainda guarda alguma coisa capaz de despertar o passado — essa coisa que a memória, sozinha, tantas vezes não consegue. Porque o faço? Por alguma nostalgia? Talvez, mas não necessariamente. Creio que é, sobretudo, por curiosidade.

Há dias, regressei à nossa embaixada em Luanda. Entrei pela primeira vez naquele edifício da atual Avenida de Portugal em 1982. No meu tempo, a avenida chamava-se Karl Marx e, antes disso, fora Luís de Camões — como se as próprias placas toponímicas tivessem dificuldade em decidir que Angola representavam, na sua oscilação ciclotímica de humores com Portugal. 

Naquele prédio trabalhei (muito e creio que bem) e vivi durante quase quatro anos. Angola estava então em guerra, e habitar um compound, com gerador para as frequentes falhas de luz e água, acabava por ser mais confortável do que a instalação (aliás praticamente impossível) em outro lugar qualquer. Mas era algo bastante insólito ter a sala de trabalho num andar e a residência quase logo por cima. 

(Ao escrever a última frase, dei-me conta de que não me pareceu nada estranha uma situação similar, em termos de duplex diplomático, embora com incomparável maior encanto imobiliário, que muitos anos mais tarde vivi como embaixador em Paris.)

Nesta visita à Angola de outro tempo, andei pelos corredores com a atenção de quem revisita um cenário antigo, quiçá à procura dos seus próprios fantasmas. E, o que é extraordinário!, ainda encontrei por ali gente conhecida. Quarenta anos depois! O tempo não guardou só memórias, também me trouxe surpresas.

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