terça-feira, setembro 29, 2026

Brasil: a política externa na eleição presidencial


A atual campanha presidencial brasileira tem uma particularidade pouco habitual: pela primeira vez, desde o fim da Guerra Fria, a política externa assentou arraiais no palco do debate eleitoral.

A relação com os Estados Unidos, a importância da China e a postura brasileira no seio dos BRICS, os caminhos do Mercosul e os alinhamentos com outros regimes na América do Sul, o tema das terras raras, a relevância externa da criminalidade organizada ou a atitude do país perante os conflitos da Ucrânia e do Médio Oriente — tudo isso configura um cenário novo, a que não é indiferente a escolha que os brasileiros vierem a fazer para seu presidente.

Os anos de Jair Bolsonaro no Planalto já tinham testemunhado um abalo na postura tradicional do Brasil no quadro externo. Contudo, a polarização que o mundo hoje atravessa veio acelerar substancialmente o tropismo para um confronto de duas visões externas com imensas divergências.

Sempre se poderia dizer que se trata de uma consequência normal da alternância nos processos democráticos. Só que no Brasil as coisas não costumam ser bem assim. Desde a "política externa independente", formulada ainda em democracia, interrompida pelo golpe de 1964, até ao "pragmatismo responsável" que o próprio regime militar viria a recuperar, a diplomacia brasileira foi capaz de preservar um conjunto de linhas constantes, que se tornaram quase identitárias e constituíam um orgulhoso património da doutrina do Itamaraty — a sede da diplomacia do país. Uma "diplomacia ativa e altiva" tem sido a imagem de marca do Brasil.

Tudo pode alterar-se? O que se sabe é que, se acaso chegar ao poder, Flávio Bolsonaro deu a entender que nada ficará igual ao que tem sido. O Brasil não vai fugir à sobre-determinação imposta pela sua geopolítica e pela sua geoeconomia, mas o seu lugar no mundo pode, de facto, vir a mudar.


Lula: multilateralismo e soberania

A candidatura de Lula aposta na continuidade de uma política externa assente no reforço da autonomia estratégica, na defesa intransigente da soberania e por uma ordem internacional preferentemente multilateral, onde o país possa ganhar um espaço próprio para a sua afirmação.

Nesta perspetiva, o Brasil deve relacionar-se com as grandes potências sem se sujeitar à tutela de qualquer delas, preservando uma margem de manobra entre Washington, Pequim e os restantes centros de poder.

Os BRICS ocupam aqui um lugar especial. Lula foi um dos principais impulsionadores da projeção política do grupo durante os seus primeiros mandatos, parecendo menos crente nas virtualidades do G20, talvez pela consciência dos limites do modelo, sujeito à turbulência imprevisível dos EUA. 

Embora não tendo sido entusiasta do alargamento dos BRICS, ideia promovida pela China, não desistiu de fazer do grupo uma peça importante da sua diplomacia. A ideia é simples: ampliar os espaços institucionais de afirmação do chamado Sul Global, reduzindo a dependência de estruturas dominadas pelos Estados Unidos e pelas economias ocidentais concentradas no G7.

A experiência recente fornece-lhe, aliás, uma espécie de cartão de visita diplomático: a presidência brasileira do G20, a organização da cimeira do BRICS e a realização da COP30 deram ao país uma visibilidade internacional que Lula deverá procurar capitalizar.

Este esforço tem encontrado um interlocutor não apenas relutante ao compromisso, mas inclinado a não lhe facilitar a vida: Donald Trump. 

As relações com Washington tornaram-se, em 2026, uma das frentes mais delicadas da campanha. As brutais medidas alfandegárias impostas pelos Estados Unidos, o dissídio sobre o modelo de transferências financeiras Pix, a desconfiança sobre as ambições americanas quanto às terras raras do Brasil, o desagrado que a nova aproximação comercial entre o Mercosul e a Europa terá causado em Washington, bem como a classificação por Washington das organizações criminosas brasileiras como terroristas — foram fatores que introduziram na campanha brasileira uma dimensão externa que, há poucos anos, seria difícil imaginar.

Neste contexto, Lula respondeu com a linguagem que melhor conhece: soberania, reciprocidade e multilateralismo. E, perante a pressão americana, procurou transformar a própria divergência com Trump numa questão de defesa da autonomia estratégica brasileira.


Bolsonaro: Washington cada vez mais perto

Flávio Bolsonaro pretende aproximar o Brasil dos Estados Unidos de Donald Trump e reconstruir as relações diplomáticas deterioradas com Israel e com a Argentina, atitude que sabe ser do agrado de Washington.

O seu programa oficial, curiosamente, é menos ideológico do que alguns dos seus discursos. Nele fala numa diplomacia "guiada pelo profissionalismo e pelo pragmatismo" e afirma que o Brasil deve negociar com todos, da China à União Europeia, dos Estados Unidos aos mercados asiáticos. No fundo, esta afirmada neutralidade diplomática tem como alvo o viés que considera marcar a política externa tradicionalmente desenvolvida pelo Itamaraty em privilégio das relações Sul-Sul.

Na aproximação estratégica que preconiza com os Estados Unidos, Bolsonaro inclui a possibilidade de um acordo de comércio livre e de uma cooperação mais estreita em matéria de segurança e de utilização de terras raras. Também tem posto em causa a permanência do Brasil nos BRICS, instituição que considera excessivamente orientada contra os Estados Unidos.

A relação com Israel ocupa igualmente um espaço simbólico — uma vez mais com o óbvio objetivo de agradar a Washington. Defende o restabelecimento das relações diplomáticas ao nível de embaixadores, atualmente suspensas, e a transferência da embaixada brasileira para Jerusalém — à revelia de resoluções do Conselho de Segurança, que a diplomacia brasileira sempre respeitou.

Flávio Bolsonaro pediu que os Estados Unidos exercessem pressão diplomática sobre o Brasil para assegurar eleições "livres e justas". E apoiou a decisão de Washington de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas — posição que contrasta frontalmente com a de Lula.

Esta aproximação a Trump tem, contudo, um limite evidente: a China. É o principal parceiro comercial do Brasil e dificilmente qualquer governo brasileiro, por mais próximo que esteja de Washington, pode voltar-lhe as costas sem consequências catastróficas para vários setores económicos importantes. É por isso significativo que o próprio programa de Bolsonaro insista na necessidade de manter relações com a China e com outros mercados menos do agrado de Washington. Há quem avente a hipótese de um seu possível governo tentar fazer a "quadratura do círculo": uma aproximação política e em matéria de segurança aos Estados Unidos sem romper os laços económicos com a China.

Devemos estar atentos, ainda, à questão das taxas alfandegárias. Não pode excluir-se que Trump, para favorecer o seu aliado brasileiro, venha a sinalizar um "waiver" nessas tarifas em caso de vitória de Bolsonaro — basta lembrar o gesto financeiro que teve para com Milei, nas eleições argentinas.


Síntese: o divisor de águas diplomático

Há uma questão ampla, talvez a mais difícil de todas: até onde poderá o Brasil conservar a tradicional capacidade de falar com todos, num mundo em que as grandes potências parecem exigir, cada vez mais, que os outros escolham de que lado estão?

Neste quadro, uma vitória de Lula significaria, em princípio, a continuação de uma política de autonomia estratégica, aposta no multilateralismo e aproximação privilegiada ao Sul Global, com a China e os BRICS como elementos importantes da equação — e uma relação necessariamente difícil com a administração Trump.

Uma vitória de Flávio Bolsonaro apontaria para uma aproximação mais estreita a Washington e a Israel, uma eventual revisão do papel do Brasil nos BRICS e uma diplomacia mais orientada para os interesses económicos imediatos — sem que isso eliminasse, pela força das coisas, a relação com a China.

Em ambos os casos, o Brasil continuará a ter uma característica que é também uma vantagem diplomática: é demasiado grande para se alinhar inteiramente com alguém e demasiado importante para poder ficar à margem. A diferença estará, na fase da vida internacional que atravessamos, na distância a que decidirá ficar de Washington — e no preço que estiver disposto a pagar por isso.

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