quarta-feira, setembro 02, 2026

Um diplomata de carreira


— Não te estou a ver a ir de camioneta para Lisboa.

Os que me conhecem bem — e conhecem, sobretudo, o meu doutorado comodismo — não quiseram acreditar quando lhes confessei a intenção de descer de Vila Real daquela forma. "Enfim, sempre será uma oportunidade de ver um diplomata de carreira" — foi o mais elegante dos comentários que colhi.

E lá vim. Má escolha de frota: a Flixbus servia-me no horário, mas pecava por uma frugalidade demasiado espartana para o meu gosto. Já viajei em salas de espera com cadeiras mais acolhedoras.

A viagem arrastou-se por quase cinco horas — um exagero —, valendo-me, contudo, o consolo de ter aproveitado para adiantar bastante na nova biografia de D. João VI — e esse, coitado, gastou 68 dias para regressar do Rio. Também deu para dormitar, embora em posições que a fisioterapia desaconselha, e para ter de escutar, com deliberada desatenção, as conversas telefónicas da vizinhança à minha volta. Ainda bem tinha tido a prudência de garantir que o lugar ao meu lado permaneceria vago em toda a viagem.

Fiquei cliente? Nem por isso. Mas, ponderando bem, já suportei viagens de avião bem mais incómodas. Para a semana, tenho de ir a Angola. E, sinceramente, não me importava de chegar a Luanda tão cansado como cheguei a Lisboa.

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