O cenário foi uma estação dos Correios em Guimarães, há algumas semanas.
Apresentei ao balcão um envelope com um livro. O destinatário tinha morada na própria cidade de Guimarães. Como remetente, indiquei a minha morada de Lisboa.
A funcionária, muito atenciosa, olhou para o envelope:
— Enganou-se. Pôs o destinatário no lugar do remetente.
— Não, minha senhora. O destinatário mora mesmo aqui em Guimarães. Eu é que vivo em Lisboa.
Ela voltou a olhar para o envelope, agora com uma expressão que misturava perplexidade e piedade.
— Ah… mas que estranho. Está em Guimarães a enviar para alguém de Guimarães… e o remetente é de Lisboa.
Fez uma pausa, como se esperasse que eu reconhecesse a gravidade do delito geográfico, como se, estando na cidade, a lógica imperativa devesse ser as coisas serem entregues por mão própria. Depois suspirou, minimamente conformada:
— Mas, pronto! Já está explicado.
Vi o envelope ser atirado para a vala comum das encomendas e tive um pressentimento. Escondi-o de mim mesmo.
As semanas passaram e o livro continuava por entregar. Podia ter-se perdido. Podia ter-se atrasado. Não coloquei a hipótese, que seria prestigiante para a obra, de que alguém o tivesse desviado para ler.
Regressei ontem a Lisboa. E lá estava o livro, são e salvo, na minha caixa do correio.
Aparentemente a estranheza da senhora de Guimarães terá sido partilhada pela cadeia de distribuição. A ideia de alguém, morador em Lisboa, estar fisicamente no Norte e andar a distribuir coisas por ali revelou-se demasiado perturbadora. O sistema, pelos vistos, entra em colapso se o remetente não enviar as coisas a partir do sítio onde mora. Utentes mexediços desorientam o sistema.
Hoje o livro voltou a ser enviado.
Resta-me esperar que esta viajada obra chegue finalmente a Guimarães — de onde nunca devia ter saído. É que, pelos vistos, para os Correios, o caminho mais curto entre dois pontos na mesma cidade passa obrigatoriamente por Lisboa.

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