quinta-feira, setembro 03, 2026

O prémio que Balladur não teve


Édouard Balladur morreu há dias, como aqui referi. Nos obituários, falou-se das várias distinções que recebeu ao longo da vida. Houve, porém, uma que não recebeu: o Prix des Ambassadeurs. E, nesse caso, tenho de confessar alguma responsabilidade. A “culpa” foi minha. Explico. 

Entre 2009 e 2013, quando estava em Paris, fiz parte do júri do Prix des Ambassadeurs, um prémio literário atribuído anualmente a uma obra de autor francês dedicada a temas de História política, francesa ou internacional. 

Era um júri peculiar. Não mais de vinte embaixadores, na prática uma dúzia ou pouco mais, todos francófonos, escolhidos entre a imensidão de representantes diplomáticos bilaterais acreditados em França e os delegados junto da UNESCO e da OCDE. Entrava-se por cooptação, à medida que alguém partia. Uma espécie de Academia Francesa, mas com diplomatas. 

A minha entrada, em abril de 2009, foi apadrinhada pelos meus colegas checo e polaco, respetivamente Pavel Fischer e Tomasz Orłowski, dois queridos amigos. 

Uma pequena comissão de membros da Academia Francesa fazia uma pré-seleção de cerca de uma dúzia de obras. Depois, cabia ao júri discutir os livros, nas reuniões realizadas no Cercle de l’Union Interalliée. 

Havia apresentações orais, relatórios escritos e, naturalmente, opiniões diversas. No fim, sobravam três livros para a votação secreta. 

Em 2010, um desses livros foi "Le pouvoir ne se partage pas", de Édouard Balladur. 

Coube-me, juntamente com o colega belga, que tinha o imponente nome de Baudouin de la Kethulle de Ryhove, fazer a apreciação da obra. 

Li o livro com atenção. Balladur escrevia bem. O seu francês é culto, elaborado, elegante. Mas não me pareceu que chegasse àquele ponto de excelência literária que, por si só, justificasse o prémio. 

O que mais me chamou a atenção foi outra coisa. 

Nos muitos diálogos que reproduz com François Mitterrand, é quase sempre Balladur quem fica com a última palavra. E, em mais de uma ocasião, percebe-se que a conversa parece escapar habilmente aos assuntos que poderiam ser menos favoráveis à imagem do primeiro-ministro. 

Sabendo-se hoje o que se sabe sobre Mitterrand, mesmo tendo em conta a sua crescente debilitação física, custava-me acreditar que aquele homem, com a sua conhecida inteligência política, se deixasse sistematicamente dominar nas conversas pelo primeiro-ministro. 

Havia no livro um aspeto curioso. Balladur revelava uma espécie de sedução contida pela figura de Mitterrand, ao mesmo tempo que descrevia a “perfídia” com que o presidente socialista ia alimentando a sua já então evidente ambição de lhe suceder, estimulando a rivalidade com Jacques Chirac. Rivalidade que acabaria, como se sabe, numa inimizade aberta. 

A minha impressão foi, por isso, que o livro tinha um problema: a memória do autor era demasiado seletiva. Não me parecia propriamente um livro sobre a relação com Mitterrand. Parecia-me um livro sobre Balladur, escrito um pouco à custa de Mitterrand. 

Os nossos dois relatórios foram bastante contrastantes e a sua apresentação provocou uma longa discussão. Eu entendia que, apesar dos méritos indiscutíveis da obra, ela não deveria chegar à "short list". O meu colega belga entendia precisamente o contrário. 

O presidente do júri, o embaixador congolês Henri Lopes, antiga figura política do seu país e, nessa altura, havia já doze anos embaixador em Paris, e o académico Alain Decaux, que tinha sucedido semanas antes ao histórico Maurice Druon, viram-se com alguma dificuldade para arbitrar o nosso cordial dissídio. 

A situação complicou-se quando, do lado da Academia, surgiu um apoio particularmente forte à obra, vindo de Éric Roussel, prestigiado biógrafo, que eu viria a saber ter sido precisamente quem fizera a pré-seleção do livro de Balladur. Os meus argumentos desagradaram a Roussel. E tivemos uma "accrochage" longa, embora elegante. Curiosamente, tenho aqui ao meu lado, num "pavé" de 700 páginas, uma biografia de Mitterrand escrita por Roussel em 2015.

Mais tarde, soube que estava praticamente tudo encaminhado para que Balladur recebesse o prémio. Eu estraguei a festa. 

"To make a long story short", levei a minha avante e, por falta de consenso entre os dois relatórios, o "Le pouvoir ne se partage pas" foi "non retenu". E Édouard Balladur não ganhou o Prix des Ambassadeurs. 

Confesso que fiquei, durante algum tempo, com uma dúvida incómoda: e se eu tivesse sido injusto?

Anos mais tarde, li uma outra memória de Balladur, desta vez sobre Georges Pompidou. E encontrei ali, com alguma surpresa, o mesmo procedimento: uma constante magnificação do seu próprio papel nas decisões e opções presidenciais, acompanhada pelo mesmo estilo muito culto, muito elaborado e sempre, curiosamente, apenas na soleira do brilhantismo. 

Fiquei então mais tranquilo. Talvez não tivesse sido assim tão injusto. 

Ainda hoje, contudo, acho que o livro de Balladur merece ser lido. Não tanto como peça literária, mas como um curioso tratado sobre a relação entre um primeiro-ministro e um presidente obrigados a conviver numa permanente tensão política, mais ou menos surda. É um livro sobre o poder — e, talvez sem que Balladur o pretendesse, também sobre a maneira como cada homem de poder gosta de contar a história do poder que exerceu. 

Fica aqui esta nota, agora e na hora da sua morte.

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