Os jornais em papel estão a desaparecer. A partir da hora de almoço, os quiosques fecham. Alguns jornais ainda sobrevivem em estações de serviço, mas são cada vez mais raros. As raspadinhas ganharam à imprensa. E eu próprio já muito pouco papel compro.
Como obsessivo leitor de imprensa que sempre fui desde jovem, quando, em 2013, regressei a Lisboa, combinei com a dona Zulmira, que tinha um quiosque perto de minha casa, para me guardar uma pilha de jornais: eram quatro diários e uns seis semanários, entre jornais e revistas, algumas estrangeiras. A conta era grande, mas pagava-se sozinha — escrevia então colunas remuneradas para alguns desses jornais e precisava de muita informação económica para trabalhar noutras fontes de rendimento.
Quando ia para fora de Lisboa, saber o endereço e os horários de tabacarias abertas era a minha primeira preocupação: conhecia balcões de Monção a Vila Real de Santo António. Quantos conhecem a "Hermínios" na Covilhã ou a "Sarita" em Portalegre? Nas férias maiores, na tarde do dia da chegada à praia, lá ia eu com a lista atualizada dos jornais e revistas, a ser entregue às meninas do “Onda Azul”, onde fui um bom e estimado cliente.
Fui. Saltemos para 2026. Durante a semana, já não compro nenhum jornal diário em papel. Leio quatro jornais portugueses e meia dúzia de jornais estrangeiros — tudo online. Duas revistas e o “Expresso” (tenho, além disso, uma assinatura online, imaginem!) são o escasso papel que agora trago de uma bomba de gasolina ali para a Estrela.
Entretanto, porque há muitos outros como eu, a dona Zulmira fechou o seu quiosque, que hoje é um bar com comidinhas, onde ainda não entrei: não me apetece que a presença de um senhor idoso, a falar português, perturbe o convívio cosmopolita dos jovens que enchem as mesas na rua. Aliás, um ambiente com boa onda, de onde só emergem conversas em “estrangeiro”.
Outros tempos. Não há que ter saudades, por muito nostálgicos que sejamos tentados a ser. Como entretanto também deixei (em absoluto, palavra de honra!) de ver noticiários nas televisões portuguesas, desde as primeiras horas da pandemia, quase toda a informação de que hoje me alimento passa por aqui, pelo iPad em que escrevo o que estão a ler e que me acompanha para toda a parte. Estou incomparavelmente melhor informado do que estava há 13 anos, diversifiquei imenso as fontes onde me abasteço de notícias e de alguma muito selecionada opinião. Na realidade, era a noite e agora é o dia.
Será um admirável mundo novo, como dizia o outro? É apenas um mundo que cada vez mais acelera o futuro — e o futuro, gostemos ou não e seja ele o que vier a ser, é onde vamos passar o resto dos nossos dias. Que, aliás, já foram mais. Por isso, carpe diem.

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