Os últimos anos revelaram que há um Portugal xenófobo, racista e intolerante que andava por aí escondido e que agora, ao ouvir vozes políticas a vocalizá-lo, saiu da toca e perdeu a vergonha. Não são apenas os grunhos da conversa de tasca ou dos táxis, a refilar contra a "pretalhada" e os "monhés". São gente formalmente educada, socialmente "bem", que, com o tempo, se foi sentindo autorizada a deixar as baias de uma decência mental que, pelos vistos, lhes pesava e a que tinham aderido de forma intimamente relutante. É fácil identificá-los, quando são mais sofisticados: usam a expressão "woke" — fórmula importada com que o conservadorismo trauliteiro pretende atacar regras igualitárias e não discriminatórias — e acham-se libertos para poder expelir todas as enormidades, porque o terreiro para isso está hoje politicamente legitimado. Votam no lado onde sabemos que sempre votaram — mas não necessariamente onde a caricatura e a sedução primária por uma certa criatura os poderia empurrar. É o regresso de um Portugal preconceituoso, que ingenuamente pensávamos que a democracia tinha educado e moderado. As televisões abrem-lhes as câmaras, as colunas promovem-nos a observadores pela escrita, nas redes sociais (com a IA a corrigir-lhes a grafia) encontram-se com a sua ululante gente. É possível resistir-lhes? Possível e necessário. Era só o que faltava que o país que ainda acredita na decência baixasse a cabeça.
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