Há dias, numa rede social, um jornalista brasileiro aconselhava os leitores a observarem com prudência as informações que transmitia na própria mensagem que escrevia. É que, no Brasil e nos tempos que correm, lembrava ele, a realidade poderia, minutos depois, infirmar tudo.
Essa modéstia impõe-se com particular força depois do sismo político-judicial que há dias abalou Brasília.
Alexandre de Moraes, o juiz vedeta do Supremo Tribunal Federal (STF), “herói” do combate judicial que condenou a tentativa de golpe de Estado de 2023, viu-se no centro de uma controvérsia com o seu colega André Mendonça.
Este tornou público mensagens extraídas do telemóvel de Daniel Vorcaro, antigo proprietário do Banco Master, que está sob investigação por suspeitas de fraude financeira. O documento revela contactos entre o banqueiro e Moraes, bem como negociações com o escritório de advogados da mulher do juiz.
Mendonça, por sua vez, viu a legalidade da sua iniciativa contestada pelo procurador-geral da República. Moraes também pediu a abertura de uma investigação de Mendonça. O plenário do STF analisa agora o caso, sendo já claro que, como instituição, a sua autoridade sairá muito diminuída deste conflito, seja qual for o seu desfecho.
Para o que aqui interessa, é por ora imponderável se este episódio terá, ou não, impacto nas eleições presidenciais que estão em curso no Brasil. Recordo que a primeira volta terá lugar a 4 de outubro e a segunda a 25 do mesmo mês. Se tal vier a acontecer, o mais provável é que o efeito seja em desfavor de Lula, na medida em que o sentimento público o associa mais a Moraes.
Mas não há, neste momento, uma base segura para antecipar a dimensão desse eventual efeito, muito menos para afirmar que ele será suficiente para determinar o resultado eleitoral — tanto mais que, na segunda volta, o sentido dos anteriores votos nos candidatos não eleitos é apenas especulável.
Há umas semanas, o quadro político-eleitoral parecia assim desenhado: depois de muito tempo em que a estrela do seu terceiro mandato tinha declinado, por razões ligadas à ineficácia da ação do governo, colocando em dúvida a plausibilidade de uma reeleição, a reação de Lula à agressão tarifária de Trump parecia ter contribuído para uma recuperação da sua posição eleitoral.
O Brasil, curiosamente, sendo um país que gosta muito de si mesmo, não é propenso a pulsões nacionalistas emocionadas. Não é uma Argentina. Contudo, Trump tem a rara virtude de convocar, contra si e contra as suas políticas, ondas de agregação de um natural bom senso. A arbitrariedade americana e a resposta de Lula — que costuma saber reagir verbalmente nos terrenos externos — poderão ter tido um efeito positivo na sua apreciação eleitoral.
Porém, nem tudo corria bem a Lula. As suspeitas e controvérsias que envolviam o seu filho e outras figuras próximas do governo eram fatores negativos na sua contabilidade eleitoral. Não era, contudo, claro em que medida a sensibilidade ética contaria, desta vez, de forma decisiva, tanto mais que as responsabilidades criminais das pessoas em causa ainda não podiam ser dadas como estabelecidas.
No outro lado do espetro político — e, no Brasil, cada vez mais, só existem dois campos — a figura opositora, Flávio Bolsonaro, filho do antigo presidente, tinha-se deixado envolver numa ambígua relação com a administração americana. Eduardo, irmão de Flávio, encontra-se nos Estados Unidos e defendeu publicamente a pressão americana sobre o Governo brasileiro.
A certo passo, ficava a sensação de que Flávio Bolsonaro, numa lógica de “quanto pior, melhor”, favorecia o pacote de tarifas alfandegárias, para com elas poder culpar Lula. Quanto ao impacto eleitoral, a verdade é que a sua apreciação parecia declinar e, com o passar dos dias, essa tendência tornava-se quase inelutável.
Flávio Bolsonaro tinha também sobre si fortes e muito mediatizadas suspeitas de ter recebido, para fins políticos, verbas do mesmo Daniel Vorcaro que agora está no centro da controvérsia que abala o Supremo.
Vale a pena recordar que, num Brasil polarizado, duas faixas importantes do eleitorado tendem a estar fidelizadas aos dois grandes campos políticos, enquanto uma parcela considerável, da ordem dos 40%, permanece mais disponível para outras escolhas.
Não é uma fotografia estatística rigorosa, mas uma forma de dizer que os verdadeiros “donos” da eleição são, em larga medida, os restantes eleitores. E essa fatia, onde se inserem os potenciais apoiantes dos outros candidatos, não se move necessariamente pela lógica europeia de esquerda-direita. É sensível a motivações diversas, entre as quais o papel crescente das igrejas evangélicas.
É nesse espaço eleitoral, menos previsível e mais permeável às circunstâncias, que se jogam muitas vezes as eleições no Brasil. Este dualismo político, com as suas variáveis no âmbito da corrupção, fazia o seu caminho quando o tal sismo de forte intensidade na escala política emergiu no Supremo Tribunal Federal, com força e dados inesperados.
São todas estas interrogações, a precariedade de quaisquer juízos que se possam fazer, que levaram o jornalista de que falei no início do texto a aconselhar prudência aos seus leitores. Que eu também recomendo aos meus. É que, como está dito na frase tão gasta de Tom Jobim, “o Brasil não é para principiantes”. A complexidade do país só nos recomenda modéstia.
(Artigo no site da CNN Portugal, onde pontualmente irei regressar para comentário, durante a eleição presidencial brasileira)

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