quinta-feira, 27 de julho de 2017

A Gôndola

No dia 6 de agosto, Lisboa perde a Gôndola, levada pela gadanha inexorável do imobiliário. Tenho pena? Tenho, claro, embora abram hoje em Lisboa, a cada dia, espaços magníficos que, salvo a inevitável nostalgia, compensam bem a perda deste restaurante.

A Gôndola era um espaço sazonal, a que só se aportava no bom tempo. Não passava pela cabeça de nenhum fabiano ir por lá no inverno. (Por ali perto, mais depressa se ia ao Polícia, ao Oh! Lacerda ou mesmo à Tia Matilde, noutros tempos à Sereia, mais recentemente ao Castro Elias).

Mas um almoço, no jardim da Gôndola, num dia glorioso de sol de primavera ou outono, podia ser uma experiência extraordinariamente agradável (similar ao belíssimo terraço, meu vizinho, da York House). Já em pleno verão, a caloraça, às vezes, podia ser imensa.

A minha memória não é o que foi, mas, pelas minhas contas, sei lá bem porquê, só me recordo de ter convidado amigas mulheres para ali almoçar comigo. Mas com muita mais gente por lá partilhei bastantes refeições, às vezes de trabalho, porque tinha uma boa distância entre as mesas para se poder conversar à vontade.

Agora que o restaurante está prestes a fechar, vou confessar um segredo: não me recordo de nenhuma refeição gastronomicamente memorável na Gôndola. Era uma comida simpática, recentemente com umas entradas mais ambiciosas, mas pouco mais do que isso. Mas agradava-me muito tomar um gin tónico na salinha de entrada e mantive sempre um particular carinho por aquele hábito antigo das criadas usarem avental branco, numa coreografia de sala idêntica à da Quinta, que existiu junto ao alto do elevador de Santa Justa.

6 comentários:

Anónimo disse...

O que incomoda, aqui, é a destruição de mais uma bonita casa, de mais um vestígio de uma Lisboa antiga destruída sem necessidade. Parece que o Montepio, apesar das dificuldades, precisa de uma nova sede.

Anónimo disse...

É isso! A comida não tinha nada de especial! Assim era, também, no Monte Carlo, no Monumental e outros sítios em Lisboa. A comida "boa" vai-se encontrando por outros sítios. Mas a nostalgia dos anos da década de 6o e 70 perdurará por toda a vida para os que ainda estão por cá. Era como que um tónico com os amigos, ainda que fosse depois de jantar...E por lá apareciam, disfarçados, um ou outro Pide...

Anónimo disse...

Incomoda muito. Ha muitos anos que nao vou a Gondola. mais um lindo predio, as mesas ao ar livre debaixo da glicinia, historia do dono-fundador vindo de Italia noutros tempos...

Lembro os Negronis com saudades.

Bom fim de semana com sol.

F. Crabtree

Luís dos Santos FerroUnknown disse...

Francisco, caríssimo,
Estou entre os nostálgicos !
Anos de refeições com amigas e amigos, cordialmente bem atendidos e bem tratados.
E, para o melómano, a felicidade de refeições pós-concertos Gulbenkian com inúmeros grandes artistas, jantantes após os concertos e habitualmente ainda 'quentes', nos comentários acerca das suas interpretações.
A generosidade da Direcção do Serviço de Musica, do estimado seu Director Luís Pereira Leal, ofereceu-me encontros de inesquecível riqueza humana e espiritual -- enquanto bem se jantava.
Ao acaso, nomes como Felicity Lott, Alfred Brendel, Martha Argerich, Sequeira Costa ou Nelson Freire, Th. Hampson, as formosas Karita Matila e Madalena Kozena ...
Ocorre fantasiar o que seria uma placa gravada registando a glória histórica da Gôndola neste passado incomparável!
Cordial abraço,
Luís dos Santos Ferro

Anónimo disse...

A última vez que lá fui... foi consigo, caro Francisco.

Antes disso... faço minhas as palavras do meu amigo Luís dos Santos Ferro.

Um abraço

JPGarcia

Pedro de Souza disse...


A ideia não é minha: mas a CGD não poderia ceder ao Montepio algumas salas na sua sede verdadeiramente faraónica? Sempre seria um "argent de poche". Ou a Santa casa lhes ceder um desses palácios assombrados de Lisboa? Há cada vez menos pátios e quintais em Lisboa, arrasados para construir estacionamentos! Lisboa tinha uma variedade de árvores inédita na Europa. E o cantar dos pássaros foi substituído pelos latidos dos cachorrinhos das madames. Ninguém desconfia que o verdadeiro luxo de uma cidade é o verde, é em Lisboa, por exemplo, o frondoso Jardim da Estrela, cujas abóbadas vegetais só podem ser comparadas com as dos Jerónimos. Andam todos deslumbrados com o ar condicionado, um veneno que um dia será interditado como o cigarro. E um dia trocarão a lua por um led.