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quinta-feira, julho 27, 2017

Observemos, pois

Pode presumir-se como o projeto nasceu. A ideia terá sido criar um veículo comunicacional que, chegando às novas gerações através das plataformas que estas já privilegiavam, pudesse garantir a crescente passagem de uma mensagem conservadora, de aberto combate político à esquerda, num perfil economicamente liberal, que desse corpo, de uma forma bem profissional, àquilo que tinha sido um movimento de elite económico-"beata", complementado por nichos universitários dessa orientação, alguns blogues e até uma efémera revista intelectual atlantista ao estilo Reagan, do género marginal-chic, com toques nacionalistas, ideologicamente algo "retro". Tratava-se de federar uma nova direita "business-oriented", jovens saídos das universidades já formatados pelo "template" liberal, numa espécie de um novo 'Independente" no ecran, um pouco mais rigoroso e apresentável, mas que se pretendia não menos vigoroso. A área PSD/CDS era, "by default", o terreno político natural de assentamento do projeto e esse "casal" regenerador, eufórico aliado da "troika" que garantia a salvífica "suspensão" da democracia, era o seu aliado óbvio. Tornava-se importante que o veículo pudesse ter uma imagem bem apelativa e um discurso contemporâneo e ágil, o que implicava a constituição de uma redação jovem (e isso teve um preço, em erros frequentes, pela falta de experiência ou controlo, sempre difícil num modelo "24-sur-24"). Mas produto global, sejamos justos, não desiludiu. Na secção da Opinião, salvo alguns convidados "alien" que funcionaram como alibi de alguma diversidade nas espécies, o jornal rompia deliberadamente com a regra do pluralismo, pelo que "team" residente era da direita pura e dura, misto de figuras cáusticas e tremendistas, esforçados "genéricos" do Eça, e de alguns especialistas temáticos credibilizadores. O modelo do "El Confidencial" espanhol, mas menos concentrado na economia e sem a neutralidade informativa deste, terá estado sempre presente. O produto foi assim inovador, apelativo e, à época, uma coisa bem diferente surgiu entre nós. (Eu nunca o dispensei, desde o primeiro dia). Sempre houve por lá excelentes profissionais, alguns que, talvez sem o saberem, deixaram já há muito de ser jornalistas e que optaram por tomar aberto partido, outros que foram convertidos à comodidade do comentário grave e vedetizante. Olhando de fora, os entusiasmados promotores iniciais - de uma geração que hoje já começa a aproximar-se dos 60 - revelaram-se dispostos a investir na ideia algum dinheiro próprio, angariando publicidade junto do seu valioso "network" e de algumas empresas a que estavam ligados. Mas nem tudo correu bem neste domínio e nem o truque dos "clickbaits" serviu de engodo. Não sei para quando se estava a prever o "breakeven" (equilibrio financeiro), mas a aposta, em grande parte, sabe-se agora que falhou. As perdas não são imensas, mas tudo indica que, a prazo não muito longo, "vem aí comprador!". É que alguns desses investidores dão sinais de preocupação, parece haver cada vez mais recados para dentro do jornal, há opções editoriais e de modelo que se sabe serem abertamente contestadas. É mesmo capaz de gerar-se uma tensão entre quem pensa que o título se deve manter como principal barreira mediática de fogo contra a Geringonça, apostando no seu fim, por motivo exterior ou por implosão, continuando a fazer de ventríloquo de uma oposição que objetivamente está pelas portas da amargura, e outra correntr, mais pragmática, quiçá avessa a quixotescos "moinhos de vento" da luta partidária, que se mostra preparada para neutralizar um pouco o projeto, como saída possível para o problema existente. Em breve (aposto!) iremos ver como tudo isto acaba. (Estará este retrato certo? Até pode não estar! Mas isto que por aqui faço não pretende ser jornalismo, é só uma mera opinião pessoal, assumidamente "biased". Essa deveria, aliás, ser a nossa diferença.)

Entrevista ao "Público" e à Rádio Renascença

  Ver aqui:  https://vimeo.com/1159303777