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domingo, novembro 23, 2014

O pingo de solda

Na minha infância, o meu pai contava uma história que, na minha família, ficou conhecida como "o pingo de solda".

Uma senhora queixara-se à polícia de que dois trabalhadores, que tinham ido fazer um trabalho elétrico a sua casa, se tinham envolvido numa acesa disputa, com agressões e insultos mútuos, diante dos seus filhos muito jovens. A cena fora tão violenta e a linguagem tão desbragada e vernácula que a senhora entendeu por bem chamar a polícia. (Estamos a falar de outros tempos, em que estas coisas escandalizavam). E os operários foram levados para a esquadra.

Lá chegados, os visados estiveram muito longe de confirmar a versão da senhora. E um deles explicou, cândido: "As coisas não se passaram assim. O que ocorreu é que o meu colega, o Alberto, que estava no alto de uma escada que eu segurava, soldava uns fios. Inadvertidamente, sem a menor intenção, deixou escapar da máquina com que trabalhava um pingo de solda, incandescente, que me caiu no pescoço. Confesso que isso me incomodou um pouco! Daí que eu tivesse exclamado: "Ó Alberto! Vê lá se, para a outra vez, tens mais cuidado! Nada mais!" ".

O grau de plausibilidade da cena era mais do que evidente.

Lembrei-me disto ontem, ao ler no "Expresso" a justificação dada por Ricardo Salgado para o facto de ter recebido do empresário José Guilherme uma "oferta" de 14 milhões de euros (isso mesmo!). 

A história é interessante. Salgado revela ter dado a Guilherme "alguns conselhos pessoais sobre a evolução da economia em geral e dos mercados para onde pretendia alargar a sua atividade". Perante uma intenção de Guilherme de investir num determinado país, Salgado tê-lo-á dissuadido e aconselhado outro mercado, onde o empresário acabaria por ter "enorme sucesso". Guilherme, naquilo que Salgado descreve como uma "demonstração aliás muito caraterística do seu caráter grato e generoso", quis "manifestar o seu reconhecimento pela ajuda" prestada pelo banqueiro. E resolveu oferece-lhe a quantia de 14 milhões de euros, mas só após "reiterada insistência", a que Salgado se viu constrangido a vergar-se. Depois, como naturalmente pode acontecer nestas coisas de dinheiro, Salgado esqueceu-se da "prenda" numa conta no Panamá, não a declarando no IRS, mas isso é apenas um pormenor despiciendo.

Esta cena tem uma plausibilidade idêntica à da história do pingo de solda. A similitude é que quer os operários quer o banqueiro tiveram de prestar declarações à polícia. A diferença é que, se bem me lembro, na história do pingo de solda os operários acabavam presos.

Entrevista ao "Público"

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