sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Portugal das pequeninas

Não vale a pena esconder que, em alguns setores portugueses, a palavra “negócios”, que figura no título deste jornal, tem ainda hoje uma carga, se não negativa, pelo menos desencadeadora de alguma suspeição. Numa certa cultura nacional, não tão minoritária quanto isso, ganhar dinheiro, obter lucros e acumular riqueza arrasta atrás de si a imagem de um comportamento ferido de alguma ilegitimidade. Interessará menos escavar nas razões profundas dessa atitude – históricas, políticas e culturais – e muito mais tentar perceber em que medida isso tem implicações no futuro do país.

Convirá começar por notar que, em particular, a expressão “grandes empresas” surge fortemente diabolizada por esse preconceito. Em certos setores, uma profunda aversão ao “negócio” é absolvida, contudo, pelo endeusamento das “pequenas e médias empresas”, vistas estas como a parte “aceitável” do mundo empresarial.

As PME funcionam, no imaginário coletivo, como o “comércio de bairro” na sua popular luta de classes contra as “grandes superfícies”. Este raciocínio tem uma debilidade: esquece deliberadamente que uma PME só o é porque não conseguiu atingir o legítimo objetivo de ser “grande”. Ninguém cultiva masoquistamente uma espécie de nanismo empresarial.

Dito isto, e como é óbvio, as PME são, nos dias de hoje, responsáveis por uma fatia muito substancial do emprego, do volume da exportação e, por essa via, uma alavanca essencial do tecido económico do país. E o Estado tudo deve fazer para as apoiar, para lhes dar condições para crescerem, para se afirmarem no plano externo – onde estão as oportunidades que o escasso mercado interno nunca será capaz de lhes proporcionar. Diria mesmo mais: a prioridade das prioridades, em matéria de promoção do tecido empresarial deve ser, sem a menor das dúvidas, o mundo das PME.

O conceito, aliás, esconde coisas muito diversas: a esmagadora maioria das PME são micro-empresas, as mais das vezes de raiz familiar, fortemente sensíveis às ondas de crise. Grande parte delas atravessa hoje dias muito difíceis, por falta de capitais próprios, contando-se entre as principais vítimas da debilidade da banca sedeada em Portugal. Também por aqui deve passar a atuação do Estado e, perante o cenário desolador da maioria da banca privada – grande parte da qual hoje muito refratária ao crédito às PME -, seria desejável que a orientação futura da política de crédito da Caixa Geral de Depósitos pudesse vir a colmatar esse défice.

Este “Portugal das pequeninas” empresas em que vivemos, sendo uma realidade nos dias de hoje, não augura, contudo, nada de bom para o futuro. Goste-se ou não, e com todos os efeitos perversos que teve, a globalização veio para ficar. A alternativa, aliás, seria uma reversão protecionista, trágica para uma economia aberta como a nossa. E, nesse quadro global, se queremos um país competitivo, o nosso tecido empresarial tem de evoluir, de ganhar escala, de conseguir afirmar-se externamente – lá onde estão os grandes investidores, onde há acesso ao crédito e onde há espaços e mercados para crescer. É o que têm feito algumas grandes empresas nacionais.

Se pretendemos ser no futuro um país próspero, temos que ter mais e melhores grandes empresas a atuar “lá fora”. Recordo-me do governo de António Guterres, de que tive o gosto de fazer parte, ter impulsionado esses ganhos empresariais de escala. Nos dias de hoje, algumas grandes empresas nacionais, a maioria das quais com muito escasso apoio do Estado, continua a batalhar nos mercados externos. Que o país ainda as não sinta orgulhosamente como “bandeiras”, como acontece em todo o mundo desenvolvido, é algo em absoluto incompreensível.

(Artigo que hoje publico no "Jornal de Negócios")

9 comentários:

Anónimo disse...

Mas.... depois de Abril de 1974 ser-se acumulador de riqueza era crime ou não? Ou será hoje como as greves? Antes os fura greves podiam ser fuzilados. Hoje já nem sei quem faz greves ou não. Enfim.....Há quem esqueça outros tempos por vergonha?

Anónimo disse...

É deveras supreendente o autor considerar esse facto "incompreensível." Presumo que tenha tido um lapso de memória e já não se lembre da triste realidade de muitos (grande maioria..?) dos gestores de "topo" das nossas ex campeãs nacionais. PT's, Bes, etc... Hoje não será lugar comum afirmar que existe uma grande maioria que chega a essa "topo" pelas razões erradas...ou pelo reverso do que deveria ser. Não chatear muito, pouca criatividade, e compadrios alicerçados numa mediocridade em que os resultados pouco importam.

Não, hoje percebe-se que o mérito está em muitos dos gestores de PME's que soube sobreviver e alavancar-se em tempos dificies...na sua grande maioria com pouco ou nenhum apoio do estado.

Quem não percebeu isto, ainda não percebeu nada de um passado recente..

Luís Lavoura disse...

uma PME só o é porque não conseguiu atingir o legítimo objetivo de ser “grande”

Nem sempre. Um dono de um restaurante ou de um cabeleireiro não tem o objetivo de ser "grande". Uma clínica de fisioterapia não tem o objetivo de se multiplicar por 100. Boa parte dos empresários sabe que a sua empresa é e será sempre pequena, e não se lamenta por isso.

Luís Lavoura disse...

seria desejável que a orientação futura da política de crédito da Caixa Geral de Depósitos pudesse vir a colmatar esse défice

De forma nenhuma! A CGD é um banco e não deve arriscar o dinheiro dos depositantes em asneiras! Já bem basta o dinheiro que já perdeu no passado!

Os capitais próprios têm que ser incentivados através, primeiro que tudo, do desencorajamento fiscal dos empréstimos. Hoje em dia os juros de empréstimos abatem aos lucros de uma empresa perante o fisco, e isso incentiva as empresas a funcionarem com base em empréstimos em vez de funcionarem com base em capitais próprios. Isso deve acabar. O fisco tem que deixar de encorajar o financiamento através de dívida.

Depois tem que se incentivar a criação de capital de risco (financiado por privados) e a emissão de obrigações (empréstimos diretamente a privados, e não a bancos).

Luís Lavoura disse...

algumas grandes empresas nacionais, a maioria das quais com muito escasso apoio do Estado, continua a batalhar nos mercados externos

Sim, mas uma boa parte dessas empresas não emprega, nesses mercados externos, portugueses. Nem repartria os lucros. É o caso, por exemplo, da Jerónimo Martins. Ou da GALP. São empresas que de portuguesas pouco têm: os seus acionistas e os seus trabalhadores são em grande parte estrangeiros.

Joaquim de Freitas disse...

Sem política de pesquisa fundamental de envergadura, sem capitães de indústria ambiciosos, sem outra visão que a copia ou mesmo o roubo de tecnologia como se fez no passado, Portugal não tem hipótese de criar “bandeiras” extraordinárias nos sectores onde se produzem mais valias fundamentais.

As bandeiras dos Supermercados, com a condição de poder expatriar alguns dividendos para o país, e que a contabilidade seja “patriótica”, pagando impostos em Portugal, é uma via.

Conheci sempre a industria portuguesa mais interessada nos produtos a fraco valor acrescentado, como o têxtil, e o calçado, para os quais tinha uma vantagem, o trabalho pouco qualificado e barato.

Para entrar no mundo dos países desenvolvidos, e conseguir criar um catalogo de produtos bem mais sofisticados para a exportação, e evidentemente competitivos, Portugal precisa de homens muito mais ambiciosos e uma finança bem mais interessada no “risco” que nos “negócios” protegidos.
Aceitar sociedades estrangeiras no seu solo, é uma boa ideia, com a condição de as utilizar para construir ulteriormente, uma capacidade industrial multissectorial, privilegiando o interesse nacional em todos os instantes e em todas as circunstâncias.

A teoria liberal clássica, a das vantagens comparativas, ensina que um país que vai desenvolver os sectores e os produtos para os quais está mais bem armado, seja graças ao seu subsolo, ao seu clima e aos seus custos do trabalho, nunca irá bem longe.

Um exemplo que conheci muito bem: Saint Gobain Pont à Mousson, que foi meu accionista, explorava no Brasil as minas de amianto. O mineral era depois enviado para França onde as placas e outros produtos utilizando esta fibra eram fabricados. 97% da mais valia ficava em França. Os Brasileiros, envenenavam-se com o amianto, mas recuperavam quase nada.
Construir uma fábrica de electrodomésticos em Oeiras, (Fagor) criou empregos, mas pouco deixou como mais valia para Portugal.

Recordo as grandes firmas francesas de vestuários de marca, que criaram alguns empregos no Norte, mas foram embora quando encontraram mão-de-obra mais barata na Tunísia ou no Vietname. E assim foi em Vila do Conde com a electrónica.

Acima de tudo, Portugal precisa de homens políticos visionários, capazes de atrair os investimentos estrangeiros, mas também, de estabelecer planos de desenvolvimento da capacidade intelectual portuguesa. E de não deixar partir a juventude formada para o estrangeiro.

Anónimo disse...

Senhor Embaixador,

o governo de António Guterres de que V. Ex.ª "teve a honra de fazer parte" ficará na história como aquele que iniciou, por ausência de vontade e falta de desígnio nacional, a venda ao desbarato das empresas portuguesas ao estrangeiro, à Espanha em particular. O processo está agora quase consumado, faltará ainda qualquer coisa, mas a economia "portuguesa" é hoje pouco mais do que uma excrescência da economia espanhola - e é visto como tal lá fora, com tudo o que isso significará no futuro. Belo serviço...!

A. Costa Santos

Reaça disse...

António Guterres tem que escrever um dia em livro a explicação da sua fuga da política nacional «forever».

Será um grande estudo muito útil para os portugueses compreenderem o que é uma democracia à portuguesa.

Se Guterres escrever um dia essa explicação, será o «maior português» em qualquer eleição que se venha a fazer.

Se não der essa aula...!

Anónimo disse...

Como bem diz o Senhor Professor Luís Lavoura, grande parte das PME não quer ser mais que isso. São milhares os restaurantes e cafés de bairro, cabeleireiros, e lojinhas que constituem o grosso dos emoregos nacionais. Sem elas, não havia gente empregada em Portugal, é por isso que há quem - bem - as queira valorizar. Às grandes deslocalizam e deixam o pessoal agarrado. Fazem muita falta, mas para empregar em massa estão aí às outras.