terça-feira, 23 de agosto de 2016

Histórias de Viana (7)


O Sales era bastante mais velho do que todos nós, embora mais de uns do que de outros. 

Em todas as cidades de província, por esse tempo, era vulgar haver umas figuras com uns anos mais, que acamaradavam com gente mais nova e com as quais se estabelecia uma relação marcada por algum respeito. A diferença connosco era muito clara: enquanto nós éramos estudantes, dependentes da ajuda dos nossos pais, essas pessoas tinham uma profissão estabelecida, muitas vezes eram casadas, usufruindo de alguma liberalidade das cônjuges para acompanhar rapaziada mais nova pelas noites, geralmente em fins de semana.

O Sales tinha uma casa de artigos funerários, creio que na rua da Capela das Malheiras, o que dava um toque ainda mais misterioso a esse nosso convívio. Um mito rezava que, numa noite, deixara dormir num caixão alguém com uma dificuldade pontual de acomodação. 

Num Verão ou dois das minhas férias em Viana, aí com 16 ou 17 anos, foi-me dado o privilégio de integrar um grupo a que, a partir de certa hora da noite, se juntava o Sales. Se a memória não me trai, era um homem na casa dos 40, magro, bem vestido, julgo que de bigodinho fino, bem falante e excelente companhia. Numa idade em que o desbragamento no léxico era a palavra de ordem de uma certa tendência para afirmação, o Sales induzia alguma seriedade ao nosso grupo, sendo que isso em nada era incompatível com a sua jovialidade e uma atitude divertida.

Uma noite, creio que no Bar Oceano ou no Viana Mar, veio à ideia de alguém, eventualmente suscitado por qualquer filme da época, enviar uma "mensagem ao mundo", uma tirada filosófica qualquer, que sobrevivesse no tempo e pudesse ser percebida por outros povos. Quando não há nada para fazer, a imaginação dita-nos iniciativas cujo caráter disparatado só se percebe muito mais tarde. No embalo da noite, com umas cervejas à mistura, o brilho da iniciativa surge-nos como incontestável.

Não sei se foi o Sales que teve a ideia, só me recordo que dela participou com entusiasmo. Dessa reflexão, cujo teor específico não recordo, resultou um texto, que hoje imagino "exemplar", com a tal "mensagem ao mundo", creio que de paz e concórdia, ou coisa parecida. No plano prático, o "papiro", redigido já não sei por quem, seria encapsulado e bem arrolhado numa garrafa. Esta seria lançada às águas do Lima, para que este a conduzisse ao Atlântico e, daí, para o mundos que a fortuna ditasse. A circunstância do texto ir em português nem por um segundo perturbou a iniciativa, seguramente ciente a universalidade do idioma de Camões.

Deitar a garrafa ao rio ali perto do Hotel Aliança ou de algumas ladeiras lodosas para deslizar barcos, na borda riberinha do jardim, não era um cenário que oferecesse uma dignidade mínima ao empreendimento. Creio que rapidamente se consensualizou a ideia de que a operação deveria ter lugar a meio da ponte de ferro, a ponte Eiffel, esse ímpar ícone vienense. 

E lá fomos nós, em bando noturno, de garrafa em punho, comandados pelo Sales, lançar a nossa "mensagem ao mundo", de cujo texto, por imperdoável incúria historiográfica, não cuidámos guardar cópia. Chegados a meio da ponte, depois de uma breve homilia laica e positivista, o Sales encarregou-se da nobre tarefa de projetar o recipiente, com gesto largo, sobre as águas do Lima. Não sem uma certa emoção, vimos a garrafa fazer o seu caminho, chapinhar um pouco na aterragem e, não obstante o breu misterioso das águas, flutuar, graças ao ar que envolvia a "mensagem ao mundo". Um luar vindo dos lados de Darque permitiu-nos um último olhar sobre o objeto deslizante no marulhar discreto do rio.

E foi então que, num segundo, a desilusão se instalou nas hostes. Afinal, ninguém tinha cuidado de pensar no ritmo das marés e, nessa noite, o mar Atlântico subia pelo rio acima. E a nossa garrafa, com a "mensagem" definitiva que o mundo por certo tanto apreciaria, que já imaginávamos nas costas americanas ou num percurso oceânico que não era de excluir que pudesse ir tão longe como as Caraíbas ou, com sorte, o Índico ou o Pacífico, afinal acabaria encalhada no lodo sem nobreza das Azenhas do Dom Prior, logo ali à Argaçosa ou, com sorte, pelo Pinheiro ou lá para o Barco do Porto.

Nem quero imaginar as imprecações suscitadas pelo infortúnio! Apenas recordo que, face ao inevitável, optámos por completar o trajeto da ponte, descer ao Cais Novo e ali, à vista difusa da Senhora das Areias, pouco antes dos "temíveis" acampamentos de ciganos, que as árvores escondiam no impensável trajeto a essa hora para o Cabedelo, aportámos à padaria para adquirir alguns pães, para o que a fábrica prudentemente proporcionava já venda de manteiga. E assim, desiludidos e enfarinhados regressámos à outra margem. Se o mundo tinha ficado mais pobre e ignaro sem a nossa mensagem, ao menos que o nosso estómago pudesse ser reconfortado com uns cacetes mornos, geradores de sede que, na noite vianense, e por essa hora, talvez já só pudesse ser saciado no Bar Astúrias.

Eram tão simples e prosaicos esses tempos...   

3 comentários:

Luís Lavoura disse...

Eu tinha mais ou menos a mesma idade (17 anos) quando o meu professor de Geometria Descritiva me ensinou que, quando um homem urina ao ar livre, deve ter sempre o cuidado em não se virar contra a direção do vento, caso contrário arrisca-se a apanhar com a urina nas pernas.
E também tinha a mesma idade quando andava de barco à vela no Tejo, em frente a Cacilhas, e aprendi que pretender subir o rio quando a maré está a descer pode ser muito, mas mesmo muito custoso, se é que é exequível (só com vento forte o é).
Enfim, lições que se apanham quando se tem essa idade e que nunca mais se esquecem.

Anónimo disse...

Gostei de ler as suas crónicas sobre Viana. Esta é o nº. 7. Cadê as nºs. 5 e 6?
Meus cumprimentos,

Portugalredecouvertes disse...


um dos mais lindos cenários que se pode ver, desde o monte de Santa
Luzia até ao mar!
quem permite que aquelas florestas ardam ?:(((