domingo, 14 de agosto de 2016

Fidel

Julgo que por uma questão etária, a Revolução cubana nunca fez parte das mitologias políticas a que fui particularmente sensível. A mim, disse-me sempre muito mais, por exemplo, a guerrilha vietcong no Vietnam do que a aventura da Sierra Maestra. Mesmo as peregrinações posteriores de Guevara, do Congo à Bolívia, levei-as à conta de um voluntarismo romântico, simpático mas algo inconsequente.

Dito isto, é impossível, para alguém da minha geração, não ter tido alguma afetividade pelo movimento que conduziu ao derrube de Fulgêncio Baptista e pelo desafio orgulhoso aos Estados Unidos em que Cuba se erigiu, em especial num tempo em que Washington, à luz de uma cínica realpolitik motivada pela Guerra Fria, se tornou protetor de várias sinistras ditaduras, um pouco por toda a América Latina.

Li o que julguei necessário sobre Cuba e, um dia, passei por lá uns dias, bem fora das zonas turísticas. E, devo confessar, não gostei muito do que vi. Chocou-me a desesperança triste de alguma gente com quem falei. 

Já não vivo num mundo maniqueísta que me leve a justificar a flagrante ausência de liberdades e a vida miserável - repito, miserável - daquela gente como contraponto óbvio das pressões externas, nomeadamente com os malefícios do ridículo bloqueio americano. 

Por tudo isso, os 90 anos de Fidel, ontem completados, não suscitaram em mim qualquer particular emoção.

3 comentários:

Patrick disse...

Como minha tia, vivendo em pleno sertão nordestino, só veio ter acesso a um médico em caráter estável aos 85 anos, um cubano trazido ao Brasil pelo projeto Mais Médicos, eu só posso agradecer à revolução cubana. Qual o preço dela voltar a andar depois de quinze anos presa a uma cadeira?

Aliás, qual o preço de Angola não ser hoje uma bantustão de uma África do Sul racista e de Mandela ter sido um estadista e não apenas um prisioneiro a morrer de causas naturais numa prisão do apartheid?

Agradeço a Fidel Castro por sua parte nesse todo.

Anónimo disse...

Mas deviam: porque a tristeza - bem como a raiva -, também são emoções. A mim, entristece-me que o homem tenha nascido e tenho raiva que ainda esteja vivo.

Anónimo disse...

Pois a mim foi muito mais prejudicial terem existido politicos como Cavaco Silva, Sócrates, Passos Coelho, Portas, jorge Coelho, Armando Vara, Oliveira Costa, Dias Loueiro, entre muitos outros, esses sim prejudicaram-me imenso. Fidel não me pejudicou em nada. Logo odeio mais os primeiros do que a ele.