quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Anedotas

- Por que é que não escreves um livro de memórias?, perguntei hoje a um amigo, durante um almoço em que nos contou alguns episódios, bem divertidos e interessantes, da sua vida diplomática.

- Porque são simples anedotas, respondeu.

A palavra portuguesa "anedota" concentra dois conceitos que, em língua inglesa, são distintos: "anedoct" e "joke". Enquanto que este último é uma "piada", uma "graça" para gargalhar, o primeiro aproxima-se mais daquilo que por aqui "pratico", isto é, a historieta que descreve uma situação ocorrida, em geral divertida ou espirituosa, mas não necessariamente hilariante. Deve ter sido esta a perspetiva do meu colega.

Em qualquer das suas aceções, o conceito, contudo, não deixa de ser desqualificador. Publicar anedotas, ou melhor, resumir uma vida a um percurso de episódios mais ou menos divertidos, é um passo discutível, concedo. Há uns anos, li um livro divertidíssimo de um diplomata estrangeiro que, de tão obsessivamente recheado de historietas, em geral titulada por outros, quase fazia esquecer o seu próprio percurso pessoal.

Fiquei a pensar que, lá no fundo, essa será porventura a principal mas não assumida razão pela qual nunca perdi umas horas a recolher deste blogue algumas das largas centenas de historietas que por aqui tenho vindo a deixar registadas, desde há mais de sete anos, transformando-as num livro, como às vezes me sugerem. É porque detestaria que a imagem de uma profissão a que dediquei quatro décadas da minha vida pudesse ser marcada no imaginário de quem me viesse a ler, em letra de forma, pelo tom deliberadamente "light" que por aqui utilizo. 

Esta é uma decisão definitiva? Sei lá! Não disse que era uma decisão irrevogável...

3 comentários:

Anónimo disse...

Se os textos estão aqui no blog não é necessário nenhum livro. Mas deve haver quem não leia aqui

Teo Dias disse...

do meu lado francófono, permito-me acrescentar, caro Senhor Embaixador, que as anedotas "francesas" são coisas sem piada mas que algures não são para serem divulgadas de imediato ou para serem escondidos certos detalhes. a escrita de uma biografia terá ser sempre a frio. mesmo o chocolate meunier terá que ser apreciado a uma temperatura que não seja muito alta pois pode perder todo o seu sabor ... entre o Corgo e o Sabor balançam as minhas memórias -também com resquícios de noisette ou de noisiel. mas isso serão somente contadas (as memórias) verbalmente a alguns cumplíces de andanças.

Francisco Baptista disse...

Boa tarde,

A verdade Sr. Embaixador é que, mesmo não tendo necessidade de provar nada a ninguém, chegou a altura de travar e vencer o seu "agon". Seria uma perda, se a sua originalidade ficasse confinada ao blog.

Sinceros cumprimentos,