domingo, 21 de fevereiro de 2016

Livros da Resistência (1)

"Horizontes Fechados", de Raul Rego

Nos próximos tempos, vou notar por aqui, de quando em vez, alguns livros que, para a minha geração política, tiveram importância ou marcaram um tempo. Serão notas muito breves, contextualizando esse textos e os seus autores. Não seguirão qualquer ordem cronológica, resultando quase do acaso da passagem pelas minhas estantes.

Hoje, vou falar de "Horizontes Fechados / Páginas de Política", um livro de Raul Rego, uma edição do autor, de 1969, distribuído pela Editorial Inquérito. Publicado creio que em setembro, tenho anotado que comprei o meu exemplar em Lisboa, em 22.11.69, pouco tempo depois das "eleições" de outubro desse ano.   

Raul Rego (1913-2002) era, à época, uma das figuras mais destacadas do jornalismo político em Portugal. Escrevia então no "Diário de Lisboa" e, na clandestinidade, estava ligado à corrente socialista da oposição democrática.

Vivia-se um tempo de encerramento de toda e qualquer esperança política. Tendo assumido a chefia do governo em setembro de 1968, rapidamente Marcelo Caetano deixou claro que eram apenas semânticas as mudanças que pretendia introduzir na política portuguesa: os presos políticos, a repressão e a guerra colonial continuavam a ser a marca continuada do regime.

O livro, que teve um certo impacto (surgiu depois dos "Escritos Políticos" de Mário Soares, mas a sua ligação à atualidade era bem maior), tinha como evidente objetivo denunciar a hipocrisia do "marcelismo", a contradição cada vez mais evidente entre a "primavera" alardeada pelo regime e a realidade efetiva das coisas.

A meu ver, o texto mais interessante é a comunicação feita por Raul Rego ao II Congresso Republicano de Aveiro, dedicado à censura à imprensa e as suas perversidades mais recentes. Um outro capítulo curioso analisa o caso do bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, que Salazar tinha banido do país e com quem Rego se encontrou em Espanha. Mas são também de agradável leitura perfis sobre várias figuras da República e da intelectualidade democrática, bem como um conjunto de excelentes e irónicas notas sobre o quotidiano da "situação".

Como não podia deixar de ser, a edição foi logo colocada "fora de circulação" e apreendida pela polícia nas livrarias. Lembro-me de ter conseguido o meu exemplar através de um contacto na Livraria Barata, na avenida de Roma.

4 comentários:

Anónimo disse...

Já aqui tenho vindo, mas hoje vim por indicação de um amigo. Se R.R. fosse vivo seria com enorme desgosto e irritação (só?) que veria o que se passa no jornalismo.
Também frequentei a Barata: o Sr. Barata e o Jorge. Ainda hoje a frequento semanalmente, pela boa oferta que tem de revistas.
Bom dia!
MR

Anónimo disse...

Livrarias "Barata", "Ler" e outras mais... bastava uma referência com o patrão ou com um empregado amigo e aí se conseguia a "obra" apreendida pela pide. Maus tempos, mas também bons tempos, pois eramos jovens!...

Joaquim de Freitas disse...

A direita não tem, hoje, nenhuma dificuldade a provar que a política da esquerda não difere ou mesmo é pior que a política da direita. Basta ver qual é hoje o partido mais votado de França. Os problemas essenciais, digamos existenciais, postos às gentes do mundo trabalhador e mesmo à pequena burguesia, não foram solucionados pela esquerda no poder em certos países.
A razão é que ambas as correntes ideológicas estão submetidas à lei dos mercados e à UE, que com a sua espada de Damoclés da moeda e do estrangulamento económico à moda grega nos aterroriza.

O nosso mundo é vasto e complexo, o profano diria mesmo que ele é complicado. Uma quantidade de ângulos de ataque oferecem-se a nós para denunciar este sistema de dominação do homem pelo homem. Numerosas são as consequências, certos combatem-nas, dedicando-lhes muita energia, mas em vão. Porque, Senhor Embaixador, não se extingue um incêndio sem circunscrever o foco, e não se pode impedir a recidiva sem se atacar à sua causa: o pirómano.

As fendas na couraça do Homem, o abismo no qual ele se afunda inexoravelmente estão à vista: o gosto pelo poder ou a servidão ...e a sua inclinação à corrupção.

Assim, servimos o poder duma burguesia que adquiriu no decurso dos dois últimos séculos as ferramentas necessárias à nossa submissão: os aparelhos políticos e o poder militar, os circuitos mediáticos e a sua cultura de massa, alimentados pelo seu poder económico exponencial.

Não somente eles controlam e organizam os nossos quotidianos, mas ainda para mais resgatam-nos suficientemente para amordaçar toda veleidade de liberdade.

Então cremo-nos mestres do nosso destino. Festejamos desde que detemos um pouco de poder sobre alguém doutro.

Fomos sempre vítimas da sua inextinguível vontade de dominação, agora somos os seus cúmplices, tão grande é o seu poder, completamente ilegítimo, mas que é devido ao nosso cobarde consentimento

A hierarquia define todos os poderes, excepto o do povo. Ela é mesmo o seu pior inimigo.

Elegemos os representantes de partidos políticos às mais altas funções do Estado. Estado que é suposto incarnar o interesse geral na sua diversidade. Ora os partidos políticos são por definição aparelhos constituídos de gente que tem os mesmos interesses, a mesma visão ou a mesma cultura, com o objectivo de assegurar a sua renda, depois de impor as suas vistas, até estender o poder da sua doutrina à sociedade inteira.

Aqui o povo está já vencido, a democracia aniquilada.

Para mais, os partidos políticos associam-se a potências do dinheiro para aceder ao poder, e uma vez sobre o trono,como agradecimento, submetem-se invariavelmente aos seus mecenas.

Na realidade, os nossos políticos são então os branqueadores de dinheiro extorquido pela oligarquia bancária. Promovem a moral mais favorável aos seus interesses, cantam em coro, da esquerda à direita, de direita à esquerda, quando não são os bobos de corte sábios e eloquentes, que a apregoam baixando as calças nos canapés dos nossos médias bem calibrados. Até dá para chegar a Presidente da Republica.

Um mundo generoso e um império cúpido, feito de consumidores passivos, lobotomisados por um conforto precário que só tem um valor perecível, deixando o poder a outros, Rothschild, Goldman Sachs, pouco importa, que têm já demais e que querem ainda mais... Isto é , a complementaridade perfeita para fazer uma Ditadura do Dinheiro.

Existem homens de qualidade, de convicções e de moral à esquerda. Mas não conseguem nadar contra a corrente. E a corrente leva-os para o largo , onde se perdem.

Anónimo disse...

Parabéns por colocar livros. Desde miudo que gosto imenso, sobretudo os que valem a pena.