quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Laurent Fabius


Laurent Fabius deixou a chefia da diplomacia francesa, passando a assumir a presidência do Conselho Constitucional, um órgão que, no ordenamento constitucional francês, não tem a relevância de um tribunal, mas onde, por exemplo, têm assento os ex-presidentes da República. É um fim de linha política "honorable" para uma das figuras mais proeminentes da família socialista francesa, que, a meu ver, fez um excelente lugar como ministro dos Negócios estrangeiros, consagrado com um papel decisivo na cimeira do clima e, embora num grau menos determinante, no acordo nuclear com o Irão. Num tempo em que a imagem internacional da França é de algum declínio, Fabius contribuiu para o disfarçar.

Fabius é aquilo que a direita costuma qualificar de "esquerda caviar". Oriundo de uma abastada família judaica, ligada ao negócio de antiguidades, emergiu, ainda jovem, pela mão de François Mitterrand, que o levou até ao cargo de primeiro-ministro. Atingido pelo escândalo da aquisição do sangue contaminado, que faria outras vítimas políticas noutros países, incluindo Portugal, fez uma travessia do deserto, durante a qual ficou famosa a sua oposição ao defunto "tratado constitucional" europeu, em cuja rejeição pela França teve um papel decisivo, o que os europeístas nunca lhe perdoaram.

Fabius terá sido dos últimos a acreditar em François Hollande como possível presidente socialista. É famosa a sua frase quando, num colóquio, foi perguntado sobre as hipóteses do atual presidente: "Hollande? On rêve!". No entanto, com a vitória de Hollande nas "primárias" socialistas, este viria a chamá-lo para o seu círculo próximo. Conheci-o pessoalmente, nesse período pré-eleitoral. Falámos mais do que uma vez, nesse tempo em que os diplomatas em posto em Paris procuravam sondar sobre o que seriam as intenções e orientações de um possível executivo socialista. Na minha perspetiva, cedo se revelou como uma das figuras de grande qualidade no círculo político do futuro presidente. A sua passagem à chefia do Quai d'Orsay só foi uma surpresa para quem estava desatento.

Diz-se que razões de saúde poderão ter determinado esta sua saída de cena. Era um "peso pesado" importante no governo, embora nunca fosse um "bem amado" no seu seio, bem como junto dos diplomatas. Alguma arrogância e sobranceria marcaram sempre o estilo de Fabius. Mas, repito, olhando do exterior, acho que foi um nome que dignificou internacionalmente a voz da França e, pelo menos aparentemente, foi leal a Hollande até ao fim.

6 comentários:

Joaquim de Freitas disse...

Senhor Embaixador: Laurent Fabius um socialista? Desde quando? Quando acabou o seu curso da ENA, (dito por ele mesmo), deitou uma vista de olhos sobre o mercado : à direita, a sua promoção tinha "fabricado" uma legião de candidatos aos ministérios. De Villepin e outros já estavam na fila... Olhando à esquerda, havia menos. Escolheu a esquerda . E encontrou Mitterrand.

Os "énarques", como sabe, são polivalentes! Adaptam-se a todos os regimes ..e a todas as funções. Aquele , que era já primeiro ministro e afrontou Chirac numa célebre confrontação eleitoral, que o tratou de "petit rocket" nunca entusiasmou os socialistas de gema!

Deixa uma função na qual, excepto para a reunião mundial para a defesa do planeta, que foi um sucesso, mas cujo resultado se verá só nalguns anos (o Congresso americano já mandou Obama às favas com o seu projecto!) ,e no caso nuclear do Irao, também positivo, mas no resto do campo internacional foi um desastre.

Fabius conduziu o exército dos libertadores em "papel" da Síria, que tinha já ajudado Sarkozy e BHL a "libertar" a Líbia, que os inimigos do governo sírio fossem na realidade a 95% fanáticos religiosos armados pela CIA e pelos regimes esclavagistas da Arábia Saudita e do Qatar, amigos dos governos franceses sucessivos.

Pouco lhes importa que o monstruoso "Estado Islâmico" que devasta o Iraque (destruído por Bush) e a Síria não possa notoriamente manter-se 24 horas sem a cumplicidade de Ankara ( que aterroriza os Curdos) , e que não possa evidentemente financiar-se sem o socorro das sociedades petroleiras que compram a saldo o petróleo roubado pelo E.I aos povos iraquiano e sírio.

Pouco lhes importa porque para o governo francês, cada vez mais vassalo do Tio Sam e da NATO em detrimento do povo francês, de retomar o controlo da Síria, colónia francesa colocada sob mandato francês em 1918, em colusão com a rica burguesia libanesa, de isolar a Rússia e o Irão, e isso sem receio de apoiar uma oposição síria ligada a Al-Qaida.

Indo mesmo a propor a Obama de bombardear Damasco. Recorda-se de certeza? So que Obama nao é louco. Os Russos estao em Lataquié!

Senhor Embaixador: Mas como é possível que um "socialista" como Laurent Fabius, que apoia em Kiev um regime infestado de neonazis, poderia resistir à tentação de apoiar fanáticos cujos homólogos afegãos - os sangrentos Talibã ajudaram noutros tempos o Ocidente, ajudado ela social democracia europeia, a derrubar o regime laico no poder em Cabul, aliado à URSS?

O resultado de tudo isso, é que milhões de Sírios, Líbios, Iraquianos, morrem nos campos de refugiados, que muitos arriscam a morte na travessia do Mediterrâneo e que a sua chegada na Europa nas piores condições possíveis, só sirva para alimentar por toda a parte, e para começar, em França, a xenofobia da extrema direita e não só, sob as "surenchères" do indecente Sarkozy.

Mesmo no momento da despedida, ontem na Assembleia Nacional, Fabius confirmou a cegueira que o atingiu, opondo-se à Rússia, que me parece ser hoje, e de longe, a força mais determinada a combater os monstros do estado Islâmico, os bandos de Al-Qaïda e do "Front Al nostra"! , que combatem Assad, que não é um anjo, mas dirigia a Síria, estado laico onde existe uma certa mistura de religiões e raças, que visitei várias vezes, que conserva o seu petróleo.

A verdadeira solidariedade com os infelizes migrantes não é de chorar lágrimas de crocodilo, ao mesmo tempo que os patrões alemães vêm com apetite esta mão de obra barata, que fala inglês, formada, e que seria uma "chance" interessante para as nossas economias empanadas pela euro-austeridade.

Anónimo disse...

"(...)diplomatas em posto em Paris (...)", cito-o. "Em posto"?! Desculpe lá, mas não seria preferível redigir com o portuguesíssimo "em funções"?

Anónimo disse...

E Fabius chefiou, como PM, a delegaçāo francesa que assinou nos Jerónimos o tratado de adesāo de Portugal à CEE, nos idos de 1985.

JPGarcia

Joaquim de Freitas disse...

Si vous me permettez, Monsieur l'Ambassadeur: Ontem, na Assembleia Nacional, algo de caricato : logo após o discurso de "Adieu" de Fabius, durante o qual ela atacou uma vez mais a Rússia pelo seu apoio a Assad, alguns deputados da DIREITA pediram com insistência que a França lance uma campanha na UE visando o levantamento do embargo aplicado à Rússia, e porquê? Porque a Rússia era um dos mais importantes clientes agrícolas da França, que a Agricultura francesa vai mal, e que os agricultores franceses bloqueiam desde há duas semanas as ruas , estradas e auto estradas de França e de Navarra. E os aeroportos parisienses! Claro que é também uma maneira de apanhar "à contre-pied" a politica estrangeira de Hollande!

Este embargo contra a Rússia tinha sido aplicado por causa do problema Ucraniano, como sabe! Gozo muito quando vejo que é a direita francesa, que pede de recomeçar o nosso "business" com os Russos, os Bolcheviques, rapidamente, para aliviar a situação dos nossos agricultores que não suportam a concorrência dos espanhóis e dos alemães! Porque os Russos, não somente já não comem as criancinhas ao pequeno almoço, mas ainda por cima ajudam os agricultores franceses a pôr alguma coisa no prato deles para comer. Pauvre monde!

Luís Lavoura disse...

Oriundo de uma abastada família judaica

Segundo a wikipedia, tanto o pai como a mãe eram católicos, embora oriundos de famílias judaicas. Não me parece portanto totalmente correto dizer que ele era de uma família judaica.

Luís Lavoura disse...

Joaquim de Freitas, excelente comentário. Gostei.