terça-feira, 2 de junho de 2015

A grande oportunidade

O encontro havia sido marcado através de um cuidado boca-a-boca, sem o uso de telefones. Não podiam correr o mínimo risco. A revolução estava na rua há menos de um mês. Os "agentes da DGS" tinham sido detidos, avançava o "saneamento" dos envolvidos com o regime caído naquela data "fatídica" de abril de 1974. Os "inimigos da Pátria" andavam à solta pelo país, tinham atravessado a fronteira sem limitações, outros haviam sido libertados de Caxias e Peniche, estavam mesmo a ser vistos como "heróis". O "esforço patriótico pela defesa do Ultramar" revelara-se, enfim, em vão, com os "movimentos terroristas" cada vez mais senhores da situação em África. O marcelismo, como eles sempre haviam pensado, havia sido o "coveiro do Estado Novo".

Era um grupo de radicais de direita, que combatera politicamente Marcelo Caetano e mantivera bem acesa a "chama do exemplo de Salazar", que se havia juntado nesse fim de tarde, em casa de um deles, lamentando o estado de um Portugal que viam reduzido ao "retângulo" europeu, eles que haviam feito toda a sua vida animados pela "gesta do Império". A alguns, começavam a chegar rumores da sua iminente prisão. Haviam-se exposto em publicações "nacional-revolucionárias" e o "sinistro" MFA, "manipulado pelos comunas" não deixaria de tirar desforço. Uns eram mais conhecidos, outros eram figuras cinzentas dessa odiada "extrema-direita", que estava agora na primeira linha da diabolização que a imprensa e a televisão acicatavam hora após hora. Alguns haviam integrado o "Jovem Portugal", outros haviam saído dessa escola "nacionalista" que foi a coimbrã "Cidadela", outros ainda haviam escrito laudas no "Agora" e, depois, na "Política", passando em certos casos pelo "Resistência" e folhas congéneres.

Trocaram informações, avaliaram riscos, estudaram hipóteses. Para alguns, a saída do país era a única solução. Outros alimentavam a ideia de dar corpo a formações políticas conservadoras, de que viriam a ser exemplos o "Partido do Progresso", o Movimento Federalista Português" ou o "Partido Liberal". A hipótese de integrar o CDS tentava alguns mais moderados, enquanto os mais radicais consideravam já ajudar Manuel Múrias no lançamento do "Bandarra". Outros testavam o caminho para o Brasil ou para Madrid. Nenhum estava, contudo, minimamente otimista.

O ambiente estava assim longe de ser festivo, tudo parecia correr mal, e essa foi a razão porque o espanto invadiu todas a caras quando, de uma cadeira do canto da sala, uma voz se ergueu com uma frase surpreendente e enigmática:

- Havia aqui uma grande oportunidade!

"Uma grande oportunidade"?! As denúncias caíam sobre eles, nos seus empregos a sua situação e das suas famílias estava a tornar-se, dia-a-dia, mais complicada, os que eram docentes haviam deixado de poder entrar nas universidades, lá em casa as "criadas" passaram, de repente, a surgir como intrusas e potenciais denunciantes, os "homens" das quintas de família mostravam-se crescentemente arrogantes, alguns "amigos" haviam-se prudentemente afastado. Os militares que lhes eram próximos tinham sido postos de lado, dos responsáveis da "polícia política" nem era bom falar e a própria "nomenklatura" do marcelismo, que tão irresponsável se havia mostrado para travar a revolta da "soldadesca", estava, também ela, agora em apuros. E era nesse contexto que aquele companheiro de luta falava de "oportunidade"?!

Todos se voltaram para ele. E ele explicou. Não tinham regressado ao país todos os "traidores" que, ao longo dos anos, de Moscovo à Argélia, de Paris à Suécia, de Roma a Londres, se haviam refugiado no estrangeiro, alguns "bombistas", outros desertores e "subversivos", que estavam bem identificados e que, de súbito, acharam que já podiam passear-se com toda a desenvoltura pelo Rossio?

Os outros concordaram, mas não conseguiam perceber onde ele queria chegar. E ele completou a explicação:

- Não estão cá todos os que o regime andou, durante décadas, a tentar agarrar? Quando eu falo de  "oportunidade" é para significar que, se ainda fosse possível, "dar uma volta a isto" e retomar o controlo do país, tinhamos, agora e pela primeira vez, todos esses traidores por aqui, metiamo-los "na grelha" e o país podia, enfim, ver-se livre para sempre desse bando de comunas e de gentalha da mesma laia. Por muito tempo, não nos iriam incomodar! Não era uma grande oportunidade?!

Esta é uma história verdadeira. Ouvi-a de um participante dessa reunião de maio de 1974, em que este terá sido o único momento divertido.

8 comentários:

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Caríssimo Chico

Por favor apanha um táxi "daqueles" e ouvirás a mesma baboseira a muitos dos motoristas. Nos autocarros, metro e eléctricos também ouvirás discursos semelhantes. Creio que o sabes, ou antes, tenho a certeza de que sabes... Nós, os portugueses, temos uma memória mesmo uma memória muito curta.

Ontem num táxi que nos (à Raquel e a mim) ao "Sabores de Goa" - bendito restaurante - o motorista disse No tempo do doutor Salazar é que isto estava bem. Havia ordem e respeito!

"E com o perdão da Senhora, «só levava no trombil quem mijasse fora do buraco!«" Nem comentei, paguei a conta e desci. Isso sim, eram "oportunidades"...

Abç do Pernoca Marota

Anónimo disse...

O penúltimo parágrafo, qual cereja em cima do bolo, é um espanto.De suspense em suspense, o sr. embaixador podia escrever um romance cujo desfecho só se esclarecesse mesmo no penúltimo ou no último parágrafos.

opjj disse...

Dr. Seixas da Costa, não partilho toda essa visão de factos. Tb estive preso e tb fui combatente.Estive na fronteira Moçambique-Tanzânia e parece-me que a guerra só estava perdida na Guiné.Que a política podia ter seguido outro rumo, talvez.Mas por outro lado acho que os naturais nunca aceitariam partilhar (intromissões). Basta ver que a África é só gerida por ditaduras ferozes.(Excepções, raras).
Cumps.

CORREIA DA SILVA disse...

Se a história é verdadeira, o protagonista da mesma é fictício, ou fica o mistério sobre a identidade do autor da "celebérrima" frase ?????

Anónimo disse...

A velhice do padre eterno.

Antonio Cristovao disse...

Deve ter sido esse o racicinio dos egipcios amigos de Israel, quando deixaram o Morsi e seita expandir-se em pleno

Anónimo disse...

Pelos visto caiu na peta...

septuagenário disse...

Este post é maravilhosos, dá para todos os lados.

É nitidamente a imagem da cabeça perdida que tinha sido encontrada em 1933 e posta no sítio.