domingo, 31 de agosto de 2014

Nós e a guerra que anda por aí

O meu amigo JP Garcia "desafia-me" a escrever sobre o que se passa na Ucrânia. Que posso dizer que já não tenha aqui escrito, há semanas atrás? Nada do que está a passar-se me surpreende, desde a atitude russa à reação dita ocidental, com relevo para o esbracejar patético da Europa e o franzir de sobrolho do SG da NATO.

Se eu disser - como penso - que a UE está "a colher aquilo que plantou", ao ter apoiado o derrube de um presidente legitimamente eleito e ter estimulado uma "escolha" estratégica por Kiev que um mínimo de razoabilidade política assumiria sempre como inviável, sem cuidar minimamente do estatuto das minorias russas (como também faz dolosamente em alguns Estados bálticos), serei considerado um "agente ao serviço de Moscovo".

Se eu disser - como penso - que Putin mantém a tradicional estratégia de destabilização do "near abroad" ex- soviético, que passou já algumas "red lines" que justificam plenamente as sanções que a Rússia está a sofrer e que devem ser agravadas e que, com o seu comportamento dúplice, mostra que a Rússia deixou de ser um parceiro fiável e que é necessário rever rapidamente o conceito estratégico da NATO, para não deixar os acontecimentos correrem à vontade do seu autoritarismo, vou ser crismado de "agente do imperialismo americano".

Se eu disser  - como penso - que ainda não percebi bem o que pensa Portugal (na UE e na NATO) sobre tudo isto, salvo que me parece que segue uma linha de "Maria vai com as outras", mandando uns soldadinhos e um C-130 para que lhe não marquem falta, fugindo entre os pingos da chuva da política europeia e euroatlântica, esperando que não se lembrem muito de nós, são capazes de me chamar anti-patriótico e de estar a pôr em causa a nossa "tradicional política de alianças" - que é, as mais das vezes, uma mera coreografia seguidista, sem opinião nem rumo próprio, rogando aos céus que não nos peçam para fazer muito.

Nestas condições, para que vale a pena eu estar aqui a "chover no molhado"?

10 comentários:

domingos disse...

Eu bem queria ser otimista, mas as circunstâncias não concedem grande margem para tanto. Percebo a ótica de um realista cínico como Vladimir Putin: as célebres "sanções" só o fazem sorrir; acredita que a NATO nunca o afrontará diretamente; conhece suficientemente bem a Ucrânia para saber da sua instabilidade política; tem consciência de que os países em desenvolvimento apreciam, no seu mais íntimo, a forma como enfrenta o mundo ocidental o que só lhe reforça o prestígio e alarga a influência. Face a isto tudo, que pode um país como Portugal fazer neste momento? Na melhor das hipóteses, jogar a longo prazo num exercício de cariz pedagógico com os seus pares do espaço CPLP cujos efeitos, não obstante, demorarão a fazer-se sentir.

Anónimo disse...

Nem mais nem menos. Obrigado Francisco.
Agora faltam o Iraque e a Síria para ter prontos os trabalhos de férias.
Um abraço
JPGarcia

ignatz disse...

ganda resposta 1X2, até pode fazer múltiplas das triplas, acerta sempre porque disse nada. tá enganado, o sg da nato não franziu o olho, rasmussen declarou guerra ao dizer que queria enviar tropas. espero que alguém tenha o bom senso de recolher este galo da índia na capoeira para não fazer asneiras. a única coisa que não precisamos neste momento é uma guerra na europa. quanto a sanções e boicotes, somos mais afectados pelo que não vendemos que os russos pelo que não compram e o que mais há são países que vão furar o boicote, a começar pelo aliado alemão que precisa de gás.

João Forjaz Vieira disse...

Mas precisamente a estratégia de "Maria vai com as outras" e a de rezar para que não nos peçam muito é que é a estratégia certa! Ou Portugal é uma grande potência no centro do mundo e das decisões? É preciso enxergar-nos com dignidade!
João Vieira

Anónimo disse...

destabilização?

Anónimo disse...

Sr. Embaixador, não tente "levar a carta a Garcia", tentando substanciar os seus excelentes textos (como o do Zé Macário) com política, seja mundial, europeia ou caseira. Está tudo dito. Eles sabem bem o que se deve fazer. Não o fazem porque teriam todos de ir à sua vidinha.
Tenho a certeza que o Zé Macário tirava o retrato a todos como fazia naquele tempo. Mandava-os dizer 33. Eles ficam todos satisfeitos por serem retratados por um fotógrafo de tão elevado gabarito. Só que o Zé não punha rolo na máquina. Ia lá gastar dinheiro com tais figurinhas.
antónio pa

Portugalredecouvertes disse...

não é bem o que se mostra nos filmes
mas pela história que por enquanto podemos estudar, Portugal teve um papel positivo com resultados mais duradouros quando seguiu diretivas de amizade entre os povos, de acolhimento de refugiados, de assimilação de pessoas no pequeno triângulo ou em outros locais mais ou menos distantes

Anónimo disse...

Terá razão o João Forjaz Vieira; que seja então do interesse de Portugal ser "Maria vai com as outras". Não meta é a palavra "dignidade" nisso. Isso é outra coisa, precisamente o oposto.

Fernando Correia de Oliveira disse...

Senhor Embaixador: penso mais como pensa na primeira parte da equação do que nas duas subsequentes, e não estou a soldo de Moscovo. Semeiam-se ventos, colhem-se tempestades. Como tem vindo a ser hábito no Ocidente, com a intervenção no Iraque e derrube de Saddam, por exemplo, ou o apoio às forças anti-Assad na Síria. À ditadura, sucede-se primeiro o caos e, depois, o Califado...

patricio branco disse...

portugal não pensa nada, é simples. prefere nem ter opinião própria, é mais cómodo.