segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

O meu barbeiro

Já aqui falei, um dia, no meu barbeiro. Eu sei que agora se diz "cabeleireiro", mas o meu amigo Joaquim Pinto não leva seguramente a mal que eu me exprima assim. O Sr. Pinto é uma figura que tenho gosto em ter como amigo, há quase 30 anos, um homem de invejável qualidade humana, uma pessoa que revejo sempre com grande prazer.

A que propósito vem isto? É muito simples! Há dias, "traí-o" pela última vez. É que vivendo no estrangeiro, e para não correr o risco de andar com um "cabelame" imenso, não indo a Lisboa com grande regularidade, tive de recorrer, ao longo dos anos, a outros profissionais do ramo. Mesmo sendo frequentemente de qualidade, é como visitar um médico que nos não conhece e a quem temos de explicar tudo deste o início, sem o que nos arriscamos a ficar, por algumas semanas, com uma imagem diferente daquela a que nos habituámos.

Na Noruega, sei lá porquê, foi um islandês que me calhou na rifa, com o qual me entendia por gestos, porque quase não falava inglês. Em Luanda, recorria a um velho barbeiro português que "ia a casa", com uma malinha de madeira com os apetrechos, para as sessões que decorriam... na cozinha. Em Londres, tenho ideia de ter visitado um barbeiro também português, numa qualquer periferia, creio que a conselho do Rui Knopfli. Em Nova Iorque, quase não me deram tempo a que me crescesse o cabelo e, tenho a certeza, em Viena apenas vi "O Barbeiro de Sevilha" à distância, na ópera. No Brasil, a memória dos barbeiros que me saíram em sorte não é das mais positivas. Até o Sr. Pinto, que é institucionalmente corporativo, um dia não resistiu: "Ó senhor embaixador. Quem é que lhe cortou o cabelo da última vez? É que isto não ficou lá muito bem..." Aqui por Paris, passei da vedeta portuguesa do ramo, o Mário Lopes, vencedor de prémios, para o Pierre, profissional francês, geograficamente mais à mão.

Mas isso acabou. Há dias, fui ao Pierre pela última vez. E, já em janeiro, regressarei, e em definitivo, ao sr. Joaquim Pinto, no Apolo 70, passe a publicidade. É um sossego, poder voltar às mãos hábeis de quem sabe o que pretendo, sem que eu nada tenha de dizer. E, neste tempo de "cortes", muito bom seria que eles fossem tão previsíveis como são os do meu barbeiro, pronto!, cabeleireiro de homens.

PS - O Sr. Pinto tem um blogue, onde fala da sua profissão e da sua arte. Um dia dei-lhe uma sugestão para o nome do blogue, que ele não aceitou, mas que eu acharia bem adequada: "Pêlo sim, pêlo não"...

13 comentários:

Isabel Seixas disse...

Interessante é a ligação afetiva e de confiança que se mantém com o cabeleireiro quando é durante anos.

C.e.C disse...

Caro Embaixador, faltou-lhe o pormenor de informar que somos sempre do clube do nosso barbeiro. Eu pelo menos, e tendo em conta o favorecimento do meu, tento sempre não discutir com ele quando a navalha me passa pela garganta.

patricio branco disse...

Falando da profissão, como corta bem o cabelo o sr anibal, professor de corte e habitual de concursos de corte e penteado em portugal e internacionais. uma maravilha, tem uma pequena barbearia ali para a zona da viriato e fontes pereira de melo, sim, antes tinha como 2º o sobrinho que com ele aprendeu a arte e o acompanhava aos concursos, agora o simpático jovem resolveu seguir carreira própria e abriu salão unisexo para os lados de sintra, mas o sr anibal, mestre e artista, por ali continua sempre habil e cortês. a bola, o correio da manhã e o dn fazem parte da literatura existente para entreter os fregueses que esperam.
o sr pinto cheguei a usá lo quando tinha loja ou salão tambem no gemini, um centro comercial que começou por ser bom, bonito, de qualidade burguesa, tamanho pequeno mas que tinha tudo, livraria, papelaria, cinema, supermercado (há uns anos a asae mandou o fechar), 2 irmãos que tinham cada um sua loja de roupa e percebiam de fatos, casacos, gravatas, etc, e claro, o pinto cabeleireiro, havia uma ajudante que não usava pente durante o corte e no penteado, só as mãos, os dedos faziam de dentes do pente, lá fui algumas vezes quando por ali vivia, um dia no natal, 23 de dezembro, estavam a despachar à pressa os clientes, eram muitos, no fim do cabelo lembrei-me de dizer para aparar a barba, o sr pinto ou outro, não sei, fez um gesto de surpresa, contrariado, pode ficar para outro dia? bem não voltei, entretanto comprei uma maquina electrica magnifica para a barba, resolvo o problema em casa, e comecei as idas ao sr anibal e sobrinho, tanto fazia, os 2 são mestres no corte. foi-me indicado num salão de cabeleireiro em frente à igreja de s. sebastião da pedreira, queria cortar o cabelo, entrei e disse, lamentaram simpaticamente que era só para mulheres, perguntei à cabeleireira e não há por aqui um cabeleireiro que me aconselhe e ela disse sim o sr anibal, muito competente, pode ir que gostará, fui, satisfeitissimo fiquei e cliente quando estou em lisboa.
mas agora e nos últimos anos é quase sempre no sensual look que corto, sim, look mesmo, os 2 ós da palavra inglesa têm pupilas e pestaninhas, bom exemplo de palavra que imita a forma do objecto que representa, há outra que sempre me divertiu, LocomoTiva, as letras desenham o veiculo a vapor que agora já não se usa nos caminhos de ferro, os ós as rodas, o L a frente com a chaminé, etc. com imaginação podemos acrescentar-lhe alguma outra palavra atrelada e faz um pequeno comboio. Pois eu falava do/a sensual look, onde agora vou, quem corta é uma jovem senhora, esteve emigrada em inglaterra e sabe de cortes, é boa profissional, este salão é unisexo, gosto de ali cortar, alem de que é em frente de casa pratico portanto e saio sempre bem, a gosto, o preço adequado para os tempos que correm.
Barbeiros pois, esse personagem mítico, tem o seu simbolismo nas nossas vidas, é utilizado em filmes, incluindo de gangsters ou comédias, na ópera, no teatro, quem não viu a pelicula não colorida o barbeiro dos irmão cohen vá pf ver, recomendo, ou a opereta sweeney todd the barber of fleet street, que não era nenhum barbeiro aconselhável.
um dia na r. de s. bento aconteceu-me uma boa quando ia a passar em frente da porta duma barbearia, mas isso é historia que fica para outra vez ou já não interessa, também em mafra me aconteceu outra numa barbearia na praça do convento quartel.
Mas o barbeiro que recordarei sempre com enorme simpatia é o sr joão filipe, vendia também livros, ali comprei varios, ainda guardo alguns, era numa vila de província, era homem educadissimo, paciente para com os caprichos dos clientes que bem conhecia, mestre a cortar, a loja era também livraria como disse e o João filipe tocava ainda viola na perfeição.
pois que o sr joaquim pinto continue a fazer bom trabalho e sirva bem o cliente fsc que volta em janeiro. mário soares tambem é ou era seu cliente, foi o próprio politico que o disse há anos.
o nome sugerido ao cabeleireiro pinto para o seu blogue pêlo sim, pêlo não era realmente magnifico, um achado, mas ele lá tinha a sua ideia!!

Guilherme Sanches disse...

Com a vista geometricamente educada, certo dia questionava o sr Sousa, barbeiro dos meus tempos de jovem, sobre o rigor do corte que me fazia.
- sabe que o cabelo não precisa de estar bem cortado, precisa é de parecer que está bem cortado!
Tantas vezes me lembro desta sabedoria, ao ver quem se preocupa em fazer-nos crer que está bem o que apenas parece que não está mal.
Um abraço

Anónimo disse...

Leio este texto como uma manifestação de regozijo por readquirir de novo os serviços do seu barbeiro de predileção e não aquele regozijo de regresso à terra...
Pois eu desejo-lhe um bom regresso! Não porque tenha motivos para isso, porque desejava mais continuar a vê-lo por cá mas, vistas as circunstâncias, naturais e aceitáveis, desejo-lhe um bom regresso. Bem sei que o Sr. Embaixador nunca saiu de Portugal, porque todos sabemos que as Embaixadas são Portugal, e este “regresso” pode não ser vivido como tal e tão-somente como a possibilidade de, em fim, não precisar mais de mudar de barbeiro. Mas mesmo assim é um regresso. Talvez não às origens, a Trás-os-Montes ou a Viana do Castelo, mas é um regresso a Portugal.
Agora para trás ficam os outros “barbeiros” mas leva consigo “Himalaiadas” de recordações e a riqueza adquirida das “viagens” assim como o enriquecimento adquirido do olhar Portugal “de fora estando dentro”, aquele enriquecimento que só pode ser observado de um angulo de visão suficientemente distanciado... E este seu “angulo” de observação, de certo, vai faltar-nos aqui em Paris.
Bom regresso Embaixador, bom regresso.
Ah; esta noção de regresso! Esta palavra enganosamente repetida mil vezes! Esse regresso que para milhões de portugueses não é possível! Ah, como a palavra “Milhões” aqui parece exagerada e não o é... Bom regresso Embaixador. Nós, os mais de cinco milhões da “diáspora” jamais poderemos afagar tal sentimento. Bom regresso Embaixador.

Anónimo disse...

Vi que o texto agora enviado a desejar um bom regresso ao Sr. Embaixadoe nao levava assinatura e vai anónimo. Anonimo pode ser, mas prefiro assinar: José Barros, meu verdadeiro nome.

Anónimo disse...

Atrevo-me a dizer que é das mais belas crónicas de costumes que tenho lido. Oxalá não seja porque me vá faltando "alguma" memória (de outras muito boas também), mas sim pela beleza afectiva exprimida em poucas linhas entre coordenadas geográficas diferentes, correspondentes às andanças de um embaixador português por esse mundo fora, aonde ao menos o cabelo cresce sem fazer grandes danos nas contas públicas e privadas... Lindo!

Catinga disse...

Conta-se na minha família que o Sidónio Pais costumava ir ao salão de um antepassado meu. Parece que era ali na transição entre os Restauradores e o Rossio.

Como não podia deixar de ser (para ficar melhor na história), ter-lhe-á confessado que "andava com um mau pressentimento".

Nesse mesmo dia (ou no seguinte)... Pum!

Helena Sacadura Cabral disse...

Senhor Embaixador
O poder do Senhor Pinto é enorme:recebe na sua cadeira as personagens políticas mais opostas...
Costumo perguntar cá em casa:"quem é que estava antes de ti?!".

Helena Sacadura Cabral disse...

Caro Patrício Branco
O seu comentário é delicioso.
Ainda hei-de fazer um post, lá na minha casa, sobre as cabeleireiras, fonte inesgotável de saber político e outras histórias correlacionadas, que, de modo inevitável, passam sempre pela cama de alguém...que não a nossa!

Anónimo disse...

Pois é! A certa altura deixei que uma mulher me cortasse o cabelo, nunca mais quis outra coisa!
Claro que a minha parte do diálogo passa por pouco mais de: bom dia, boa tarde, sim, não, talvez… Por vezes nem sei bem se estão a falar comigo!

Anónimo disse...

Senhor Embaixador, com a clientela que o Senhor Pinto tem o blog devia chamar-se "P'los Cabelos!" !

Maria Helena

Adriano Ribeiro disse...

Senhor embaixador
Crónica transcrita hoje no blogue Bancada Directa
Cumprimentos
Adriano Rui Ribeiro