sábado, 22 de dezembro de 2012

Este Natal

Este ano, não passarei o Natal em Vila Real. Na vida, isso aconteceu-me apenas duas vezes: quando vivia em Londres, já nem sei bem porquê, e, no ano passado, porque fiquei por aqui, por Paris, na ressaca de uma questão de saúde. 

Devo dizer que não sinto falta deste Natal, em Vila Real. Seria um Natal triste, depois de um tempo recente em que, por lá, perdi pessoas com cuja falta me não reconciliei. Aliás, nos últimos anos, pelas leis da vida ou da morte, chamem-lhe como quiserem, os Natais têm vindo a tornar-se momentos um pouco mais sofridos do que agradáveis.

Nem sempre foi assim. Até à minha adolescência, os meus Natais dividiam-se entre Viana do Castelo e Vila Real. E eram muito, mesmo muito agradáveis e alegres.

"Exilado" em Vila Real desde os anos 40, o meu pai rumava a Viana com a família, poucos dias antes do Natal, do mesmo modo que fazia nas "férias grandes" e na Páscoa. Invariavelmente, ano após ano. Não tinhamos carro. Íamos de comboio, em três etapas épicas. Primeiro de Vila Real à Régua, na velha linha do Corgo, bancos de "sumopau", com as faúlhas da fumarada das máquinas a entrarem-nos pelos olhos, se acaso espreitávamos pela janelas. Da Régua ao Porto, o comboio era melhor, embora mais monótono. Por um tempo, o Douro ia ali ao lado, mas nós, nessa época, nem olhávamos para ele. (Era uma viagem em que, no Verão, em algumas estações, mulheres vendiam regueifas e água em recipientes de barro: "Água e bilha, 15 tostões!", apregoavam).  A aproximação do Porto, anunciada por túneis sucessivos cuja travessia nunca, até hoje, me sossegou, induzia-me uma recorrente inquietação. É que via o meu pai, com a sua organização meticulosa, preocupado em conferir ao minuto os atrasos, que nessas alturas eram frequentes, por forma a tentar perceber se "dava tempo" para chegar a Campanhã ou mesmo a S. Bento ou se, pelo aperto dos horários, tínhamos de mudar para a linha do Minho em Ermesinde, num rebuliço de bagagens e gentes, com a certeza de ter de ir de pé até Viana, nesses períodos de inevitável enchente dos comboios. É curioso que, até hoje, o nome Ermesinde provoca em mim um "frisson" subliminar, ligado a essa angústia de infância. 

Passávamos quatro ou cinco dias em Viana, com a ceia da Consoada no casarão da minha avó materna, no largo Vasco da Gama, um ambiente que, para a vida, me ficou como sinónimo de férias. Lembro-me bem do presépio que, em cada ano, saía de um armário, do musgo que íamos buscar ao quintal, para colocar sobre um papel forte manchado, e de uma famosa "vaca" que o não era (mas esta é uma "private joke" familiar...). Com os meus primos, jogava pinhões ao rapa e inventávamos algumas maldades inocentes, para encher as noites em que os adultos se entretinham em conversas que só com os anos fomos conseguindo acompanhar. Eram serões muito agradáveis, com todos à volta da minha avó e nós, os mais novos, a traquinar pela imensa casa.

Na tarde de 25 de dezembro, depois da "roupa velha", comida impreterivelmente ao meio dia e meia (a minha avó era de horários sagrados), partíamos para o Porto, comigo já contentado com algumas prendas recebidas. Parte das quais, contudo, para meu silencioso desconsolo, eram sempre pacotes de meias (isso mesmo, meias!), uma oferta regular de duas tias, compradas no Eugénio Pinheiro, ali na Picota. Desse regresso de comboio, tenho para sempre na memória a imagem do meu pai a ler "O Comércio do Porto", nesse dia sempre com as páginas muito ilustradas, com coloridos motivos natalícios. E da minha mãe entretida com a então famosa "Eva" do Natal, uma revista que eu só via surgir nessa altura, com numeração para sorteio de uma moradia. Nunca nos "saiu", diga-se, porque toda a sorte que tivémos deu sempre muito trabalho.

A chegada à estação de S. Bento, com fumarada, apitos e uma barulheira que eu achava o máximo do cosmopolitismo, que depois me lembrava alguns filmes, era um momento desejado. Aguardavam-nos familiares muito próximos, com os quais, após uma ritual passagem para abraços em casa de outros, avançávamos para Vila Real. Ia-se por Santa Catarina, pelo Marquês e por Costa Cabral adiante, passando próximo de Ermesinde (outra vez!), rumo às temíveis curvas do Marão. A elas nos abalançávamos depois de um "reforço" em Amarante, no Zé da Calçada, com aquisição da doçaria na Lai-Lai, ao lado. Passada a Pousada e o ansiado Alto de Espinho, onde a curvaria amainava, as luzes de Vila Real, avistadas de Arrabães, prenunciavam já a outra noite de Natal que aí vinha, desta vez em casa dos meus avós maternos, numa bela e alegre noitada, com outros tios e outros primos. E com novas prendas, claro!

Eram dias felizes. Foram-se os avós, foram-se os pais, foram-se quase todos os tios. Restam os primos, "primos-irmãos", uma rede renovada em gerações, assente num tecido de muito forte amizade. Mesmo assim, este ano, não tenho vontade de passar o Natal em Vila Real.  

27 comentários:

Helena Sacadura Cabral disse...

Que belo texto e que comovedora homenagem a outros Natais!
Os meus ficaram lá atrás, com a minha mãe a comandar as tropas familiares, mesmo quando a Festa era na minha casa.
Com a morte dela, na noite de consoada, nunca mais houve natal.
Mas, confesso, o meu filho ateu é que me falta, nesta noite de 24 de Dezembro.

Anónimo disse...


"...perdi pessoas com cuja falta me não reconciliei...".

É isso mesmo .
Um abraço para si

RMG

Guerra disse...

Como eu partilho esse seu sentir.
O jogo não mais será o mesmo. Faltam cartas no baralho e logo as que me permitiam ganhar partidas.
Restam-me cartas muito valiosas, mas...
Boas Festas senhor Embaixador.
Cumprimentos cá da Bila.

Felipa M. disse...

O primeiro Natal sem a minha mãe, falecida mês e meio antes, serviu para eu tomar para mim o costume de comprar o bolo-rei estricalhado, o doce preferido dela. E que era e é o meu também. Só meu, mais ninguém na família aparecia. Mas é uma ligação que ficou e se renova a cada ano.

Feliz Natal, onde quer que o passe. O que importa é preservá-lo no coração.

Anónimo disse...

Senhor Embaixador,

Nem calcula o quanto me identiquei com este post... A diferença é que as minhas memórias passam pela linha da Beira Baixa quando ia de férias para os avós maternos e pela alegria de ver o Castelo de Almourol ao fim de umas horas de viagem (quando, actualmente, se chega lá num instante!).

O Natal deixou de ser vivido com a habitual alegria do reencontro pela ausência da maior parte dos familiares e de uns tantos vizinhos que eram como família.

Com o passar dos anos, "deixei" de lado o Natal raiano... mas sinto tanto a falta!!!

Isabel BP

Isabel Seixas disse...

Quando o Natal já é mais saudade...

O texto é tão bonito, quanto
extensivo a cada um, com algumas mudanças de cenário...

Potenciando os ganhos,a chama sensivel e cálida que aquece sempre as boas memórias,as pessoas que nos fizeram sentir que valemos a pena, continuamos a pôr lugares à mesa da nossa consoada...

Não pude deixar de sorrir com a particularidade dos presentes típicos para homem, Meias mesmo meias... Pelo menos aquecem...

patricio branco disse...

esta evocação do natal de infancia é um esplendido texto literário de memórias, é guardá-lo, é guardá-lo, será um bonito capitulo duma autobiografia ou conjunto de memórias, não é preciso eu dizer, claro, mas este texto vai voltar sob outra forma e noutra encadernação, afinal a infancia não desaparece, continua sempre presente pela vida fora e o natal é uma festa maravilhosa quando se é menino.

Anónimo disse...

Estes comentários fazem pensar que estamos a durar mais do que a vida! Animem-se!
Hoje a minha filha deu-me um helicóptero telecomandado! Eu tinha-lhe dito que não queria nada! E não! A princípio estranhei depois entranhei! Que tal voltarmos a ser crianças?

Anónimo disse...

Portugal é sempre saudade ou "Regresso Imaginado" como a minha Mãe escreveu um dia. Acho mesmo que me vou pôr em motion de Regresso Imaginado e regressar aqui com prazer ao fim-de-semama, à literatura, ao cinema português, à atmosfera sã de Lisboa ou do Algarve, sem notícias aborrecidas da televisão que desfocam a imagem de um País que é super-agradável. Mesmo com problemas que os há.

Isabel Seixas disse...

Ora então...
Pronto...

Através do helicóptero telecomendado

Sonhos e Paraísos

açúcar 500 gramas
Canela qb
manteiga 50gr.
miolo de amendoa 125 gr
ovos 12 gemas e 2 claras
pão ralado 4 colheres de sopa

Leva-se o açúcar ao lume com metade do seu peso em água a fazer ponto de espadana, retira-se do lume e junta-se o miolo de amêndoa picadinha,o pão ralado, a manteiga e a canela.
Leva-se novamente a cozer em lume brando um "cibinho".
Batem-se as gemas bem batidas adicionam-se as claras em castelo juntam-se à massa envolvendo com cuidado.

Deita-se a massa em forminhas muito untadas de manteiga, e vão a cozer ao forno a 180º durante 20 minutos.

Desenformam-se, passam-se por açucar pilé e pôem-se dentro de forminhas de papel frisado.

José Mira disse...

Lindo, Senhor embaixador. Para mim Natal é simbolo de tristeza por ja não ter muitos entes queridos... Como diz, é a lei da vida...ou da morte!

Jose Martins disse...

Senhor embaixador,
Boa Ceia de Consoada e um 2013 com coragem para o enfrentar.
Seu admirador
José Martins

Portugalenphotos disse...

Bom domingo Sr.Embaixador
gostei muito do seu texto.
às vezes penso será que os nossos filhos terão recordações emocionantes dos natais que lhes proporcionamos!a corrida é às prendas dos supermercados para grande parte...

no entanto essa viagem épica faz-me lembrar leituras das viagens "complicadas" do Algarve a Lisboa do antigamente! a certa altura aconselhavam mesmo a fazer um testamento antes da partida!

Anónimo disse...

Um belo Post! Um magnífico Post de Natal. Gostei de ler. É bom recordar. Memórias de infância que nos ficam, para sempre. Também tenho as minhas, com avós, tios, tias, primos, pais, irmãos, etc, num ambiente, que alternava, todos os anos, de uma região para outra (uma por aí perto de vila Real).
Hoje, muitos daqueles que participavam naqueles Natais igualmente desapareceram, alguns, recentemente. Mas chegaram “reforços”, em sobrinhos e netos. O Natal é, para mim, sobretudo, uma festa de família. Tão alegre quanto possível. Mas, onde se recordam memórias, que guardamos sempre. Com saudade. E afecto. E se vivem novos afectos.
Biscaia

Anónimo disse...

A emigração fez-me « festejar » o meu primeiro natal sem os meus pais logo aos dezoito anos. Depois todos os outros natais que se seguiram foram sempre sem aquela presença e sem o rapa-tira-deixa-põe e o jogo do pinhão que meu pai sabia jogar com os filhos e esconder os pinhões no meio dos seus grossos dedos para fazer ganhar par ou pernão quando e quem ele queria.
Maldita emigração que roubou tão cedo tantas emoções a tantos jovens!
Porque é que o seu texto me levou à meninice? Não sei. Já lá vão tantos e tantos anos. Será de certo por ser comovente como diz Helena Sacadura Cabral a quem quero dar um abraço e dizer-lhe que o seu filho “ateu”, que só tive o prazer de cumprimentar duas ou três vezes, se mantém presente e vivo na nossa memória. Hoje, amanhã e sempre.
José Barros.

Anónimo disse...

Pois é.. os Natais familiares que de há unmas dezenas de anos a esta parte podem ser campos de batalha entre famílias recompostas. Ao que se chegou com o progreeso. Mas... eu não sei

Dalma disse...

Sr. Embaixador, ao ler a sua descrição da viagem da Régua ao Porto, vi-me transportada para 40 e tal anos atrás quando vinda da Universidade o fazia três vezes por ano! As regueifas, a água... e depois o percurso de carro quando o nosso pai nos aliviava e ia buscar ao Porto, as curvas do Marão e a paragem na Lai-lai de Amarante. Que bolos deliciosos!
Mas o chegar de férias a casa não nos deixava sentir esses "incómodos"!

gherkin disse...

Como é bom recordar! E fazê-lo tão viva e emocionalmente! Parece que o companhamos nessa épica experiência!
FELIZ NATAL, Não em Vila Real, mas onde quer que seja. Votos extensivos a todos que partilham destas mais que "Duas ou três coisas".

Helena Sacadura Cabral disse...

Bem haja caro José Barros.
O Miguel faz falta à família e a muitos que gostavam dele.
Apesar de ter os netos comigo, que Deus me perdoe, as saudades da sua ternura para comigo, são imensas e insubstituíveis!

Um Jeito Manso disse...

Embaixador,

Com os que se vão, vai também a inocência que insistimos em guardar dentro de nós, vão-se as lembranças de quando tínhamos a vida pela frente. Ficamos, pois, mais despidos, mais desprotegidos.

Senti as suas palavras tal como senti as palavras de alguns dos seus leitores e, em especial, as palavras da Helena, com tantas saudades do seu Miguel com sorriso de menino.

Há lugares que vão ficando vazios.

Mas a vida vai também trazendo novos sorrisos, vai mostrando novos caminhos.

Por isso, como atrás dos tempos vêm tempos, o que lhe desejo é que as perdas vão sendo perdoadas e que, apesar de tudo, este Natal seja um feliz Natal.

J.Barreto disse...

Pois, para mim, Vila Real definitivamente não rima com Natal. Nunca lá passei a consoada nem o dia 25. No dia 24 à tarde, as nove pessoas da minha família rumavam infalivelmente para a Régua, onde viviam a avó e as tias paternas. Foi sempre assim na minha infância e adolescência, integralmente vividas em Vila Real até a vida me catapultar definitivamente para longe. Por isso não consigo acreditar que haja Natal na minha cidade natal. Alguém que mo prove, se puder.
Bonne Noël à Paris
Um abraço ZB

Anónimo disse...

Felizmente é a lei da vida, uns se vão outros ainda ficam.
Para mim Natal é bom!
A época inspira alegria, por aqui é verão dias claros ensolarados tem o perfume do Natal.
Os que ficaram tenham animo de comemorar com alegria essa data, deixe para depois as nostalgias.
Um Santo e FELIZ NATAL a todos.
Do Brasil.

Isabel Seixas disse...

Este Natal
Mesmo na dimensão nostalgia sugerida,
vou extrair, seiva, como especiaria
do refúgio da alegria aqui escondida

Vou rememorar trilhos que encontrei por Aqui,
sabores nutritivos, destilados para Nós
Ó essências,ó abrigos da Nossa voz em Ti...

Não vou sair dos carris, sequer procurar cadilhos
Nem deixar, daqui, a carruagem se afaste
farei jus, aos teus, nossos, subtis caminhos,
acordo tácito, lealdades que traçaste...

Este Natal é o nosso atual Presente,
comunguemos dele verdades da nossa vida,
abençoemos, essa saudade que se sente,
temos futuro, aqui, liberdade construida...

Bom Natal

Helena Oneto disse...

Adorei "Este Natal" tão diferente dos meus natais de pequenina e que nos dão tanto prazer em recordar!

Isabel Seixas disse...


NATAL É QUANDO UM HOMEM QUISER

Tu que dormes a noite na calçada de relento
Numa cama de chuva com lençóis feitos de vento
Tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento
És meu irmão amigo
És meu irmão

E tu que dormes só no pesadelo do ciúme
Numa cama de raiva com lençóis feitros de lume
E sofres o Natal da solidão sem um queixume
És meu irmão amigo
És meu irmão

Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da mulher

Tu que inventas ternura e brinquedos para dar
Tu que inventas bonecas e combóios de luar
E mentes ao teu filho por não os poderes comprar
És meu irmão amigo
És meu irmão

E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei
Fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei
Pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei
És meu irmão amigo
És meu irmão

Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da mulher

Poema de José Carlos Ary dos Santos

Unknown disse...

Que belo texto, Sr Embaixador! Fez-me recordar os bons natais da minha infancia, tão alegres,tanto carinho numa ilha abençoada por Deus, S Tomé e Principe. Fiquei emocionada e deixo-lhe uma mensagem de uma santomense - Dêçu zuda bô tudo kua que bô mêçê.Deus o ajude em tudo o que merece.

Anónimo disse...

Lindo! Li. Voltei a reler hoje. Ha que agradecer a capacidade que os nossos pais tiveram para festejarem os natais assim. Eles ja tinham tido as suas percas, as suas mortes... e, fizeram a Festa por nos. Bem haja, Senhor Embaixador!