sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Carta de Inglaterra

Para um diplomata, o regresso a uma cidade onde viveu estimula um inevitável (e às vezes obsessivo) exercício de comparação das duas realidades temporais. No meu caso, sinto também um incontrolável tropismo para fazer juízos pessoais de valor sobre as permanências e as mudanças. Feitios...

Sucedeu-me agora com Londres, em dois dias que por lá passei.

Gostei de passear na calma de algumas ruas de Kightsbridge ou no bulício da Oxford Circus, de voltar a testar os sentidos no majestoso Food Hall do Harrods, de comprar chás bizarros no Fortnum & Mason, de me "atulhar" de livros na serenidade civilizada da Waterstone's de Picadilly, de apreciar as montras de fatos em Saville Row e das lojas de camisas em Jermyn Street. Não gostei de ver a Ryman, onde comprei as minhas primeiras "agendas-para-ano-e-meio", ter sido substituída por um loja de tecidos, de ver fechado para sempre o Oriel de Sloane Square, onde almoçava a lavar o olhar nas belezas londrinas, ao primeiro sol da primavera, de concluir que destruíram a casa de Park Lane onde Edgard P. Jacobs colocou o professor Mortimer a morar, no "A marca amarela". Gostei de ver a noite da City transformada numa festa que não existia no meu tempo, de sentir que o Peter Jones continua orgulhosamente impermeável à mudança, e que, poucos metros adiante, numa transversal a King's Road, a John Sandoe persiste com a mais criteriosa (e que só é anárquica para os não iniciados) escolha de livros de toda a cidade. Gostei de regressar à poeira de pub do Granadier, de ler que Taki segue politicamente incorreto e reacionário no insubstituível The Spectator, que o Evening Standard, apesar de gratuito, continua a dar razão a quantos acham imprescindível um jornal da tarde e de confirmar que, em matéria de rigor financeiro os motoristas de táxis londrinos batem bem a Standard & Poor's. E gostei, muito!, de rever amigas e amigos de sempre, essas âncoras, dispersas mas sempre sólidas, de uma vida de andarilho.

E, claro!, gostei de estar com mais de duas das quatro centenas de colegas "scholars" da Crabtree Foundation, no jantar anual de gala, que, desde 1954, sempre tem lugar na 4ª feira mais próxima do Valentine's Day, nessa perene instituição que se dedica ao culto da etérea memória de um homem que tem um passado cada vez mais cheio de futuro, que dá pelo nome de Joseph Crabtree. E, embora com o peso da especial responsabilidade que incumbe a um "foreigner" (não devemos ser mais de uma dezena, num mar de "bifes"), não direi que não tenha gostado da surpresa de ser entronizado como presidente anual da Crabtree Foundation, para 2011/2012. O Bartolomeu Cid dos Santos, por cuja mão entrei para este clube de culto, há quase duas décadas, deve estar a rir-se a bom rir...

17 comentários:

cunha ribeiro disse...

Como eu amo Paris, quando me falam de Lomdres...

Anónimo disse...

Ao ler este post, senti-me a passear em Londres e até degustei umas guloseimas no Harrods :)

Adoro Londres... mas Paris exerce um poder sobre mim que me leva a dizer que é a minha cidade favorita.

Bom fim-de-semana,

Isabel BP

Maria disse...

Senhor Embaixador,

Permita-me enviar-lhe as minhas sinceras congratulacoes pela Presidencia para 2011-2012 da "Crabtree Foundation". O Bartolomeu Cid dos Santos esta certamente a rir-se e a comentar entre os "Crabtree scholars" que lhe fazem cvompanhia; "Ate que enfim, ja nao era sem tempo". Imagino Brian Bennet,a "living memory" que em 2010 lhe foi fazer companhia abanar afirmativamente a cabeca enquanto fuma o seu cachimbo.

Maria Crabtree

Anónimo disse...

Pois por deformação profissional...

Alguém tem que o alertar para uma certa "Contenção de energias"


Embora as necessidades humanas básicas possam ser satisfeitas de forma individual e indivisível, Já o saudoso Maslow nos alertava para os perigos da ascensão microondas para o vértice sem tempo de apuramento, para não descurar as da base, convenhamos ...

Calma !Que sofreguidão e roda viva


Presumindo que o curriculum pode funcionar como guide line este personagem merece o registo por ordem anticronológica...Na descrição dos seus Feitos determinantes para se inferirem os anteriores...

3º Ainda há saldos? E a percentagem?
Receio bem que pelo flash da imagem nem tivesse tido tempo de ver,, também com essas matizes a fugir nem lhe deu a perceção do real real...

A propósito cá em Chaves já está tudo a 70%,alguns de nós...
Isabel Seixas

Anónimo disse...

Muitos parabens.O Senhor Embaixador bem merece esta suma distincao.Bom trabalho.

Margarida disse...

Maravilhosa, inesquecível, Londres.

E que bela 'viagem', esta...

Anónimo disse...

viva sr. Embaixador,

Parabéns p'la entronização!
Quando trabalhei em Ribeira de Pena
dizia-se por lá em tom mto orgulhoso:só Rib.Pena,Paris e Londres....
Eu gosto cada vez mais da pacatez da BILA trocando as famosas coffe houses pela Gomes,a Waterstone's pela liv.Branco e...
gosto de ler os seus "posts"!

Helena Oneto disse...

Adorei este postal ilustrado de Londres! Alias devo confessar que estava à espera que ele chegasse um dia destes... chegou com optimas noticias!
Congratulations Sir por ter sido, among others famous “scholars”, eleito para um cargo do mais alto prestigio! Bartolomeu Cid dos Santos, deve estar orgulhosissimo de ver o seu jovenal amigo presidir a Crabtree Fondation. Nos também!

Para relembrar os bons anos que là vivi, voltei em Maio do ano passado a Londres. Revisitei os meus “quartiers”, que não são tão glamourous como os seus, mas adorei ver, 30 anos depois, as casas onde vivi em Holland Park e South Kensington, e os Pubs de Fulham, Portobello e King’s Road onde passava horas a namorar ao son do meu Jazz de então. Nessa altura, a City era um deserto à noite e so ia a Picadilly para tomar uma bica no unico café italiano de Londres. A minha loja favorita, onde gastava a minha “semanada”, era a Miss Selfridge e no Harrod’s limitava-me a “lécher les vitrines”. As primaveras são lindas em Londres! Voltei cheia de saudades. Adoro Londres!
Que linda expressão: “lavar o olhar nas belezas londrinas, ao primeiro sol da primavera”. Também poeta, Caro Embaixador?

Francisco Seixas da Costa disse...

Ó diabo!, cara Helena. O pelouro da poesia diplomática portuguesa em Paris não me pertence e está muito bem entregue. Lá vou ter de cuidar mais a minha escrita, para evitar confusões...

Anónimo disse...

Então e que livros comprou por lá, Embaixador?

CSC

Santiago Macias disse...

Jolly good! Imagino que na Crabtree Foundation ainda se use a expressão, menos frequente nos nossos dias.

Helena Oneto disse...

Dear Sir,
Estou certa que Tim Tim não levara a mal ter um “pair” excelente escritor (alguém ainda tem duvidas? esta carta confirma-o) e poeta ocasional -a fortiori- presidente da célebre Crabtree Foundation...

Aproveito esta bela ocasião para rectificar uma data no meu anterior comentario: o ano passado fez 40 anos (ja?!) e não 30 que iniciei a minha bela aventura Londrina. Desculpe-me, não o fiz com intenção de "me rajeunir", o erro deve-se à emoção que esta carta me causou!:)

Helena Sacadura Cabral disse...

Ó Senhor Embaixador estou com a nossa Helena O. e maravilhada com a belíssima expressão que usou.
Um dia, um político da nossa praça filiado no PS, disse-me em tom de elogio " você, Dra Helena, é colírio para os meus olhos". Nunca mais esqueci a frase até hoje.
Mas depois do seu “lavar o olhar nas belezas londrinas, ao primeiro sol da primavera”, fiquei traumatizada. É que não há comparação possível! :((
Meu caro Cunha Ribeiro, no meu roteiro sentimental - todos, afinal, temos um - , eu diria exactamente a sua frase!

Anónimo disse...

Que evocativo..não deixou passar a Hatchards, espero.. é a que mais falta me faz..
Long live the Spectator.. qualquer dia o Taki deixa de escrever e será uma pena.. o Toby Young tem graça também..
Ana deMorais

Anónimo disse...

Como ex-comensal do Club não posso deixar de me congratular com mais este importante passo na biografia sempre em criação do Venerando e Venerado Mestre ao ter como primum inter pares deste ano o Insigne e Criativo scholar que é Vossa Excelencia.
Ex.visinho

António Castanheira Mendonça disse...

Excelente retrato da cidade feito por alguém que já a viveu. Leve descrição de recortes perimétricos. Independentemente da agitação que notou em East, este bairro da cidade tem-se transformado à imagem da juventude que o frequenta. E esta juventude não é de todo 'bifa' mas um espelho do cosmopolismo que a cidade cultiva.

Bom fim de semana.

Julia Macias-Valet disse...

Caro embaixador, o correio chegou atrasado aqui pelas minhas bandas. Sera que ainda lhe posso enviar os parabéns ?

PS E na qualidade de presidente...que tal "iniciar" o "filosofo sem gravata" ?...ou sera que nao é boa idéia depois do vexame do ano passado !? : ))