domingo, 15 de março de 2009

O esquema

O António era um conquistador “nato” ou, como ele dizia, com graça e referindo-se às suas tendências esquerdistas, menos “Nato” e mais “Pacto de Varsóvia”.

Conheci-o em Paris, nos anos 60, onde estudava sociologia e levava uma bela vida, hospedado da cidade universitária, com um cheque mensal enviado pelo pai, um militar da Marinha que a Revolução havia de alcandorar na hierarquia. Vestia-se sempre impecavelmente, tinha um MGB GT que era a inveja de muitos, abancava com nocturna regularidade na barra do Gambrinus, onde espalhava a sua imensa simpatia e charme.

É claro que o facto de ser casado lhe limitava, naturalmente, o espaço de manobra para as aventuras, pelo que necessitava de montar alguns estratagemas para as levar a cabo. O que quase sempre conseguia.

Naquele mês de Março de 1974, ambos estávamos a prestar serviço como oficiais milicianos na EPAM (Escola Prática de Administração Militar), na Alameda das Linhas de Torres, no Lumiar. Um dia, o António pediu a minha ajuda para uma “operação”: telefonar à mulher dele, a meio da manhã, informando-a de que, inesperadamente, tinha ocorrido uma emergência e que ele fora enviado, com outros colegas, para um “exercício militar”, pelo que estaria incomunicável durante 48 horas. Devia acrescentar que era apenas um treino, pelo que não havia qualquer razão para ela se preocupar. Na lógica de uma velha (ainda que contestável, eu sei!) solidariedade masculina, prontifiquei-me a fazer a chamada telefónica.

O plano do António era arrancar cedo para a Ericeira, acompanhado de uma bela pequena, impante no seu MGB. Havia já assegurado, antecipadamente, uma folga no serviço, para que tudo corresse sem falhas. No seu caminho para a Ericeira, passou na Alameda das Linhas de Torres e do que se lembrou? De ir atestar o depósito de gasolina na unidade militar, onde o preço era muito mais barato. Esse era um dos privilégios que ninguém deixava de utilizar.

À chegada à EPAM, um complexo situado onde hoje é uma universidade, o António estranhou ao ver que os grandes portões de entrada estavam fechados, contrariamente ao que era habitual. Buzinou, aparecendo pela guarita a cabeça do sargento-de-guarda, o qual, reconhecendo-o, deixou entrar o MGB.

Só que a vida tem destas surpresas: estávamos precisamente no dia 16 de Março, as tropas fiéis ao general Spínola tinham-se amotinado na noite anterior nas Caldas da Rainha e a EPAM, como todas as unidades militares, estava, desde há horas, de rigorosa prevenção. Como era de regra nestes casos, todos os militares ficavam obrigatoriamente retidos em serviço.

O António já não foi autorizado a abandonar a unidade, recordo-me da sua fúria e do imenso gozo com que alguns de nós, conhecedores do “esquema” que acabara de se esboroar, vimos a pobre e bela amiga do António a ter de sair da EPAM, a pé, com um saco na mão, em busca de um táxi ou de um autocarro.

Por mim, livrei-me de ter de dizer uma mentira à mulher do António. Ele tinha agora um álibi imbatível.

7 comentários:

Helena Sacadura Cabral disse...

O que prova que o "crime" não compensa. Ou, como também digo, Nossa Senhora não é de vinganças...mas castiga pelas mansas!

Anónimo disse...

Sempre achei que há casamentos que mantêm e perpetuam a quimica com a partilha e ingerência fugaz de um terceiro elemento, normalmente com a conivência dissimulada e cómoda da Mulher " a meu Ver de uma sabedoria incalculavel" por razões óbvias, a distinção clara e dissociação do essencial do supérfluo.

Agora quando a concepção do esquema é da Mulher é muito mais ...Bem muito Mais no mínimo aparentemente menos frequente.Alguns Senhores não aguentam a reciprocidade, eu sei que é cultural...E que lhes gera mau estar

Tenho consciência que o processo só é afrodisiaco se uma das partes não souber, que para os homens é de suma importância a concretização, nas Mulheres eventualmente basta o recurso à fantasia. A terceira pessoa é um estimulante, nem sempre inócuo, ás vezes o barómetro da sustentabilidade da relação.

De qualquer forma ao Ex mo Sr. António com todo o respeito "Foi-Lhe Muito Bem Feita"
Isabel Seixas

Anónimo disse...

História patusca, sem dúvida.
Mas o que me permitiria retirar daqui é a tal questão da “solidariedade masculina”. É um facto. Para o bem, ou para o mal, ela existe e “pratica-se” (quase) sempre que solicitada. Enfim, “velhos hábitos” masculinos, enraizados - que nos distinguem das mulheres. Não me consta ser apanágio delas, mas, quem sabe, se calhar estou enganado.
Mas pelos visto, no caso vertente, “Deus estava atento” e pregou uma partida ao propenso “pecador”. Azares da vida, como diria o meu avô!
P.R

Gil disse...

Wrong, PR.
Este tipo de "solidariedade" é amplamente praticado pela outra metade do Mundo.
Mas as mulheres são, de uma maneira geral, mais discretas: contam menos.

Rui M Santos disse...

Na verdade,tenho a convicção de que, com a emancipação da mulher, essa "solidadriedade" sofreu substancial aumento enter as mulheres.
Mas isto é apenas a minha convicção...
Enfim, o 16 de Março e o 25 de Abril, pregaram partidas a muita gente....

Anónimo disse...

Em resposta a Gil: E fazem elas muito bem!
Hoje em dia, na era do telemóvel nem é preciso mentir: coloca-se o aparelho em: “estou em reunião”, ou, por exemplo, no caso vertente, já que era por um período de 48 horas, “estou num Seminário, quando terminar ligo”.
A caritativa mentira, graças à tecnologia de hoje, é evitável.
Isto, naturalmente, aplica-se para ambos os sexos.
P.R

manelserra disse...

Anônimo, por favor, sem telemóveis era muito melhor! Antes do 25 de Abril, por e simplesmente desaparecia-se por 48 ou 72 horas. E ninguém telefonava para a polícia ou para os hospitais, era o que faltava !