terça-feira, março 10, 2020
Caramulo
Foi na semana passada. Com o estado do tempo, o dia escolhido podia ter sido bem mais feliz, mas era o único que nos dava jeito, já que andávamos por ali. Depois de muito bem tratados no “Três Pipos”, em Tondela, subimos ao Caramulo, zona que uns amigos brasileiros não conheciam.
Do belo trajeto, acabariam, afinal, por ver muito pouco, porque caía um nevoeiro das arábias, embora eu desconfie que, nas arábias, não há nevoeiros tão “decentes” como aquele que por ali sofremos. O regresso seria mesmo épico: a “menina” da voz do Waze atirou-me, várias vezes, por estradas municipais sinistras, o que a fez ouvir “das boas”. Os qualificativos com que a apodei (as mais das vezes, diga-se, intimamente) justificavam, desta vez com forte razão, o qualificativo penal de “difamação agravada”!
Esta nota, porém, tem como objetivo essencial dar conta, a quem o não saiba, de que existe no Caramulo um excelente museu, com uma muito interessante coleção permanente de pintura, escultura, tapeçaria e outros objetos de arte, que justifica amplamente uma visita (como se diz nos guias verdes da Michelin, que “vaut le détour”). E com um pessoal dedicado e entusiasmado com a tarefa que ali lhe incumbe.
No mesmo edifício, existe ainda um museu do brinquedo (que será feito das peças do museu idêntico que, há poucos anos, ainda existia em Sintra?) e, até daqui a algumas semanas, por ali estará uma imensa e inesperada coleção de cartazes da Segunda Guerra Mundial - dos aliados, dos nazis e até dos japoneses.
E, claro!, por lá há também o único museu do automóvel do país. Mas o museu do Caramulo - e é isso que quero sublinhar - é muito mais do que o seu museu do automóvel, por que, normal e vulgarmente, é conhecido.
Nos tempos que correm, já não se vai ao Caramulo apanhar “bons ares” no sanatório para curar a “tísica”, a saudosa Pousada é uma triste ruína, mantém-se por lá um hotel que parece já ter tido bem melhores dias. Mas a paisagem do Caramulo (que, desta vez, nos “escapou”) é sempre belíssima e, repito, a terra tem um museu muito interessante.
“Vá para fora cá dentro!”, como antes proclamava o nosso Turismo. Eu faço isso sempre que posso!
(Deixo a fotografia de um cartaz que estava no museu do Caramulo. Com a “fachalhada” que por aí agora brota, talvez seja uma imagem oportuna!)
segunda-feira, março 09, 2020
Paulatinamente
Leio que o chefe Rui Paula ganhou o prémio do “Chef do Ano” (eles escrevem “chef”, eu escrevo “chefe”) do “Boa Cama Boa Mesa”. Não consegui estar presente na cerimónia, porque a ubiquidade continua a ser uma das qualidades que (ainda) me faltam - e digo isto com assumida modéstia.
Para o celebrar, decidi passar no “Cepa Torta”, em Alijó. O Rui já “largou” aquele negócio há uma década, como me explicou ontem o António, que ali nos serviu um almoço “de truz”. O “Cepa Torta” ficou em excelentes mãos!
Foi lá que o Rui Paula começou e foi onde o conheci, bem antes de ele ter rumado à Folgosa, onde fez o DOC. Depois foi para o Porto, com o DOP, e, finalmente, arribou à Boa Nova, onde, na Casa de Chá, ganhou as esporas estreladas da Guia Michelin. Ah! E, pelo meio, também teve a aventura pernambucana, no “Rui Paula” do Recife, e a escala breve no Terraço do Tivoli. Conheci tudo isso, claro, havendo coisas de que gosto mais e outras de que gostei menos. Mas, em geral, gosto muito do que ele cozinha.
É que, “all in all”, o meu amigo Rui Paula, que ainda arranja tempo para as televisões, é um chefe de mão cheia, com uma atenção única - repito, única - aos produtos locais.
Um dia, há muitos anos, fui convidado por um amigo para ir jantar ao DOC. O Rui Paula fazia por lá uma estranha refeição de águas, “sem vinhos”! Escrevi então um texto, que agora vou reproduzir aqui, e que o Rui me pediu para incluir num belo livro que teve uma prémio internacional em Paris, numa cerimónia na Comédie Française a que assisti. É que o mundo é muito pequeno!
Aqui fica o “Águas passadas no DOC”, um artigo (escrito há mais de uma dúzia de anos, ainda numa ortografia do antanho) um pouquito longo, reconheço:
“O entusiasmo com que partira a caminho do DOC foi de tal forma afectado pelo choque da informação recebida que abrandei a velocidade e quase parei o carro. Um jantar no DOC, sem vinho?!
Pois era essa a proposta, nem mais nem menos: uma refeição de degustação, só com águas e total ausência de alcoóis. Confesso que a hipótese de desistir chegou a passar-me pela cabeça e que só o facto de haver um compromisso fixado com antecedência, e não querendo ofender o autor do alvitre – um arquitecto de “primeira água” –, fez com que a minha relutância fosse atenuada.
A imagem que eu mantinha do DOC era muito positiva, pela boa memória de uma visita passada. Críticas lidas ao longo do ano haviam-me alimentado o desejo de regressar e rever a cozinha de Rui Paula, que me diziam estar cada vez mais imaginativa, com uma rara sustentação de qualidade. Mas, tenho de confessar, desse desejo também fazia parte integrante a possibilidade de acompanhar a comida com algum ou alguns dos excelentes Douros que integram a magnífica lista de vinhos que o restaurante sempre apresenta.
O DOC tem uma situação privilegiada, na margem esquerda do Rio Douro, a meio desse percurso mágico que é a sinuosa estrada entre a Régua e o Pinhão, bordejada de vinhas e nomes de quintas, algumas a fazerem-nos recordar rótulos de belas produções vinícolas. O local é magnífico, em dia ameno pode-se utilizar o deck exterior. Dentro, telas de plasma na sala permitem seguir os trabalhos na cozinha, um exercício de transparência que nos aumenta a confiança. Uma área para amenizar a espera foi entretanto criada, com um piano a sugerir interessantes potencialidades e a assegurar que nunca o espaço virá a ser perturbado por uma qualquer “musak” ambiental. E, sobre tudo isso, a certeza de podermos beneficiar de um cenário deslumbrante, no centro de uma paisagem de uma serenidade única.
Tudo bem, tudo isso era verdade, mas a minha perplexidade mantinha-se. A ideia continuava a ser verdadeiramente bizarra: um jantar degustação, sem vinhos, só com águas?! Não sou fundamentalista, não sou um ansioso de vinho, passo imensos dias sem provar uma gota de álcool. Mas no DOC, no coração do Douro, um jantar sem vinho soava-me como que ofensivo a esses “montes pintados” que Araújo Correia nos descreveu.
Foi num misto de perplexidade e curiosidade, com a primeira a superar em muito a segunda, que entrei no restaurante. Ainda lancei, sem sucesso, a ideia de, pelo menos, “abrir” com um gin tónico, como que a criar lastro etílico para sustentar o que aí viria. Fui logo desiludido por vozes suavemente reprovadoras, que me alertaram para os riscos de afectação da pureza gustativa, a qual deveria ser mantida numa espécie de virgindade profiláctica, indispensável ao acolhimento dos gozos que se seguiriam.
E, pronto, lá fomos para a mesa, uma dúzia de convivas, a maioria desconhecidos, uns aparentemente mais convictos das virtualidades do exercício que outros – comigo, francamente, bem ancorado no campo dos últimos.
Tudo começou por um período inicial de carência psicológica, em que um ou outro lá ia recordando a falta do vinho à mesa. A sólida constatação de que o único líquido permitido seria a água provocou então graçolas nervosas, com os mais imaginativos a aventarem o recurso limite a uma “aguardente” ou a uma “água-pé”.
É que, de facto, eram as águas as rainhas da noite. Águas diferentes, umas lisas outras gasosas, umas mais “planas” outras mais “profundas”, algumas algo “agressivas”. Tivemos até o privilégio de provar umas nórdicas de belo design, mais frescas umas que outras. Sempre águas, claro! Apenas uma água era portuguesa e, para mim, totalmente desconhecida.
Durante o repasto, as águas sucediam-se, em copos diferentes, cada uma a acompanhar as (creio!) oito propostas gastronómicas, que não estavam sequer listadas à partida. Um simpático “expert” – reputado conhecedor de vinhos, imaginem! – procurava ajudar-nos a identificar, não apenas a singularidade de cada uma das águas experimentadas (sobre cujas qualidades comparadas alguns dos convivas já ousavam, a medo, “mandar bitaites”), mas igualmente a razão pela qual essa mesma água fora seleccionada para acompanhar tal prato, em função do seu potencial para combinar, por contraste ou complemento, o produto cozinhado.
E foi então que se foi passando essa coisa extraordinária que foi o facto de, sem disso termos real consciência, a ausência do vinho ter deixado praticamente de constituir tema da conversa, muito menos de qualquer angústia. A refeição, regada a águas, ia-se impondo naturalmente, perante o deslumbre dos sentidos, a variedade das escolhas propostas, a riqueza das combinações que nos eram oferecidas.
Duas evidências ficaram claras, na minha perspectiva.
A primeira foi o facto da ausência do vinho nos ter tornado, a todos, muito mais atentos aos sabores do que nos ia sendo apresentado, não nos “distraindo” da essência dos paladares, obrigando a que nos concentrássemos, de forma mais profunda, em cada componente do que nos era sugerido. Por mim, pude constatar que o vinho, em toda a sua imorredoura glória de factor criativo e de qualificador global do gosto, pode ter o “defeito” colateral de nos afastar do esforço de procura de construção/desconstrução do que estamos a saborear, da especificidade de um molho, da ténue diferença gustativa de um vegetal, da “nuance”, quase imperceptível, de um produto sujeito a um tratamento muito sofisticado. Digo isto porque, talvez pela primeira vez desde há muito, consegui descortinar e isolar, combinando-os depois muito melhor, os componentes que o Chefe ia indicando como constituintes das propostas gastronómicas que surgiam.
Quererei dizer, com isto, bem no coração deste nosso Douro, que o vinho passou a ser algo dispensável? Longe disso: o vinho é, cada vez mais, o grande “sublinhador” criativo dos paladares, o provocador de efeitos que se acrescentam aos alimentos e deles consegue extrair novos e decisivos matizes. E tem, além disso, uma importante carga eufórica, que excita as almas e alegra os tempos, particularmente se for de qualidade e se tomado com conta, peso e medida – e, claro, se as garrafas forem abertas com antecedência adequada e se servido à temperatura requerida.
Mas esta interessante experiência teve a virtualidade de nos mostrar que, numa refeição, há mais vida para além do vinho, se bem que a vida e a refeição sejam sempre muito boas com ele à frente.
Uma segunda constatação também se impõe: a virtualidade desta prova, sem o recurso ao complemento do vinho, só teve o sucesso que teve pelo facto de ter sido apoiada na qualidade excepcional de todos os pratos apresentados, que a ausência do álcool permitiu que ganhassem autonomia própria, deixando-os “brilhar” por si mesmos. E foi a circunstância dessa qualidade nunca ter decaído ao longo do jantar, de prato para prato, que conseguiu garantir um apego contínuo e sustentado do nosso paladar àquilo que íamos degustando, sem fazer ressaltar a “saudade” do travo adjectivo do vinho. Com uma refeição banal, por melhores que fossem as águas, tudo não teria passado de uma grande “seca”… E eu, tenho de admitir, fui menos capaz do que outros companheiros desta agradável jornada de ser sensível a algumas características específicas que eram atribuídas e identificadas em cada uma das águas provadas.
Dito isto, vamos ao principal: Rui Paula provou-me definitivamente, nesta memorável noite, que é hoje um dos chefes portugueses com maior criatividade, que consegue aliar a sofisticação de uma cozinha contemporânea de grande nível e excelente apresentação com algumas notas de rodapé gustativo, em que faz orgulhosa questão de trazer-nos à lembrança sabores regionais, na maioria dos casos tipicamente nortenhos, umas vezes de forma subliminar, outras de modo plenamente assumido. Rui Paula consegue assim demonstrar-nos – e entendo que outros deveriam aprender com isso – que o cosmopolitismo sofisticado de uma cozinha não é incompatível com o recurso a citações sensoriais ligadas às raízes geográficas de onde se opera. Pelo contrário, a originalidade do que nos propõe no DOC só ganha com a chamada à mesa desses mesmos elementos.
Num circo, trabalhar sem rede é um risco que enobrece a arte. Num restaurante, ousar um menu sem o recurso ao complemento de vinhos será talvez a prova mais provada de que a grande gastronomia também se constrói na autoconfiança e na certeza de que a qualidade se imporá sempre por si própria. Quando exista no trabalho de um grande Chefe, como é o caso de Rui Paula.
A boa disposição com que saí deste exercício – que, a bem dizer, deveria ter o “mecenato” da Brigada de Trânsito da GNR – leva-me a ecoar a já célebre frase de um velho oficial de Marinha, pouco navegado nas especificidades da gramática, que a nossa História acolheu como uma patética anedota política, quando um dia quis qualificar uma sua qualquer alegria pública: “só tenho um ‘adjectivo’ para expressar o que hoje aqui senti: gostei!”.
domingo, março 08, 2020
Chega de virus!
Sei que, a alguns, isto pode parecer algo estranho, mas, desde há dias, deixei praticamente de ver, ouvir ou ler notícias sobre o coronovirus. Não assisto às reportagens na televisão sobre o surto, não leio artigos de jornais sobre o tema, não abro links na net, resisto à avalanche de estatísticas sobre doentes e mortos e coisas assim. Recuso, em absoluto, deixar-me tomar por este ambiente monotemático.
Assim, adoto as medidas básicas de higiene, evito contactos físicos desnecessários e restrinjo ao mínimo a ida a lugares com grande público. E logo se verá!
Andar de manhã à noite a falar do assunto não resolve rigorosamente nada e só aumenta a paranóia. As pessoas que me são próximas já sabem: comigo, não contam para conversas sobre o coronovirus!
Diálogo, precisa-se
Vou dizer isto da forma mais simpática que consigo: ou o discurso oficial do PS é capaz de encontrar um registo dialogante,sem laivos de arrogância e isento de conversa “de cátedra”, ou o seu governo, a prazo curto, vai passar a ter mais problemas. E mais não digo, está bem?
Mulheres
Não quero diluir o charme social que se tornou hábito na comemoração do dia internacional da mulher, com flores e brindes, mas lembro que a data radica numa coragem extraordinária, contra discriminações e preconceitos, que, muitas décadas depois, estão longe de erradicados.
Responsabilidade
É uma obrigação de cada cidadão português responsável não apenas respeitar, mas igualmente apoiar e propagar de forma empenhada as restrições que a atual situação sanitária justifica, nomeadamente em matéria de visitas a unidades públicas e observância de regimes de quarentena.
A nova semiologia
Tem alguma (relativa) graça o variado modo como as pessoas se saúdam socialmente, nos dias que correm: há os que gesticulam à distância, os que tocam punhos ou cotovelos, os que abraçam sem beijar até aos afetuosos crónicos impenitentes. A semiologia tem aqui um novo capítulo.
João Vieira
A casa-museu é pequena, mas muito digna. João Vieira, um pintor de que gosto muito, merece bem a homenagem que a sua terra natal, Vidago, há poucos meses lhe fez, criando um espaço em sua memória, graças à pertinácia do seu filho, Manuel João Vieira.
Em setembro, por insuperável impedimento pessoal, não pude aceitar o simpático convite do Manuel João para estar na inauguração deste museu. Ontem, tive imenso gosto em passar por lá.
Meses antes da sua morte, em 2009, João Vieira tinha tido a amabilidade de me desafiar para comissário internacional da iniciativa “Sinais Douro”, um projecto que há muito acalentava, destinado a dar projecção a algumas belíssimas ermidas da zona duriense, associando-lhes trabalhos pictóricos de artistas estrangeiros convidados.
sábado, março 07, 2020
Um ponto final
Como já deve ter dado conta quem por aqui me lê, sou um “viciado” em restaurantes. Numa certa cidade do país, cujo nome não interessa, existe, desde há uns anos, não muitos, um restaurante, não excessivamente simpático como espaço mas com ambiente e serviço aceitáveis, num lugar conveniente, porque muito bem situado. Sem exceção, todos os meus amigos e conhecidos que são frequentadores do local me dizem bem dele. Fui lá, julgo ter a conta bem feita, umas cinco vezes, a primeira já aí há uns seis anos. No final das refeições, nunca de lá saí plenamente satisfeito. Às vezes, foi assim-assim, outras vezes, foi mesmo mau. Por que continuei a teimar? Não porque seja masoquista, mas porque esses amigos e conhecidos me iam dizendo, de cada vez que referia essa nova má experiência, que devia ter sido um “azar”. E assim fui dando o benefício da dúvida ao restaurante. Agora, acabou! Eu e quantos me acompanhavam numa refeição muito recente comemos francamente mal. Portanto, ponto final. Qual é o restaurante? Sei lá! Já o esqueci, de vez...
O remédio
Quando, como frequentemente me acontece, me “passo” com a nossa televisão, tenho um remédio quase infalível: mudar para a RTP 2. Obrigado, Teresa Paixão!
À escolha
A propósito de um artigo que ontem publiquei no “Jornal de Negócios”, onde critiquei a política de Israel, já houve quem me acusasse de anti-semitismo. Confesso que já estava à espera...
Quem não sabe distinguir a diferença entre anti-sionismo e anti-semitismo só tem três hipóteses: ou é parvo ou é ignorante ou está de má fé. Esses, façam o favor de escolher!
Casa de Sezim
Passei ontem por lá para recordar aquele espaço magnífico e para degustar o excelente verde branco que ali se adquire.
A quem tiver uns minutos livres, aconselho vivamente que vejam o “Visita Guiada” que Paula Moura Pinheiro lhe dedicou: ver aqui.
Alibi
O argumento de que o deputado mais notório da extrema-direita parlamentar não pode ser deixado a falar “à solta”, sem escrutínio nem contraditório, está a ser um excelente alibi para, cada vez mais, alguns lhe darem um generoso tempo de antena. Os amigos são para as ocasiões...
Sem coronovirus
Numa certa altura de 2019, a Sky News criou uma serviço noticioso “Brexit free”, em que poupava os seus utentes à constante avalanche de notícias sobre o Brexit. Esse noticiário foi um êxito.
Por estes dias, e porque não tenho uma curiosidade sobre toda a especulação em torno da doença, apetecia-me imenso ver telejornais “coronovirus free”.
Política senior
Tenho idade suficiente para poder dizer isto sem suscitar suspeitas de ”jeunisme”: é um pouco estranho que, num tempo em que as carreiras se fazem cada vez mais cedo na vida, em que pessoas na casa dos 30 e 40 anos assumem imensas responsabilidades, o cenário político americano esteja “nas mãos” de gente bem acima dos 70 anos.
sexta-feira, março 06, 2020
Gestão de crises
Acaba de ser publicada uma obra coletiva, que envolve os (então) 28 países da União Europeia, sobre o modo como a Europa se organiza, no tocante à sua intervenção na gestão de crises internacionais, focando, em especial, as mais notórias insuficiências que é possível detetar nessa ação.
A convite da Fundação Bertelsmann e do Center for European Policy Studies, tive o gosto de ser o representante português no grupo de trabalho, que, durante o ano de 2019, em Bruxelas, organizou reuniões sobre o tema, das quais resultaram os trabalhos agora publicados.
A contribuição portuguesa para este volume muito deve à Dra. Patrícia Magalhães Ferreira, uma reputada especialista que convidei para esta tarefa e que comigo figura como co-autora deste trabalho.
Essa gente
Há muitos anos, em Israel, visitei um “kibutz”. Na ocasião, a primeira impressão que tive foi a de devia haver poucas coisas mais parecidas com o “ideal” da sociedade comunista do que essas comunidades onde os bens materiais tinham uma importância muito limitada, em que o dinheiro físico era de um valor quase instrumental, onde a partilha de tudo, até a educação coletiva dos filhos, era a regra. Tratava-se de uma economia de mera subsistência, suportada por uma forte cultura religiosa, com as técnicas requintadas de preservação da água a dar o toque de contemporaneidade àquele vida de recorte quase primário.
A visita era “política” e tinha muito a ver com a propaganda israelita ao seu modelo de sociedade, de que os “kibutz” eram símbolos exemplares. O grupo de portugueses envolvido na visita, onde não havia nenhum crente no judaísmo, achou graça ao exercício mas, ao que pressenti, permaneceu sempre um pouco descrente na capacidade de sustentacão futura daquele tipo de “engenharia” social. Consta-me, aliás, que o mundo dos “kibutz”, nos dias de hoje, é já muito diferente, sendo pouco apelativo para as novas gerações, mobilizadas por agendas de interesses bem diversas.
Mas voltemos à nossa visita. Para chegar ao “kibutz”, verdejante e erigido como um bem guardado oásis em terra inóspita, tínhamos atravessado zonas que, vim a saber, em resposta à minha curiosidade, eram pequenos aldeamentos árabes, com um grau de visível pobreza. Fixei a cara dessas pessoas, que olhavam, com um ar tenso, as viaturas israelitas que nos transportavam.
No “kibutz”, para nossa surpresa, também se falava português. Eram alguns judeus que tinham migrado do Brasil para a “terra prometida”, ali misturados com outras nacionalidades. O nosso principal interlocutor, simpático e falador, fez-nos uma descrição verdadeiramente entusiástica das virtualidades do modelo: da troca de produtos que faziam com outros “kibutz”, da venda dos frutos da exploração nos mercados de Tel-Aviv, utilizando depois o resultado coletivo dessas vendas para compra de outros bens essenciais, nas raras saídas para fora do “kibutz”. “Se não fosse uma heresia dizê-lo, eu afirmaria que vivemos no paraíso, onde nada nos falta”, disse-nos, com um largo sorriso.
Acho que nenhum dos visitantes ficou seduzido pela hipótese de algum dia vir a viver num “falanstério” similar, mas por todos perpassou uma imensa admiração por quem o fazia, desprendido dos bens materiais. A similitude com um convento terá surgido de imediato na nossa cabeça.
Confesso que, sem o menor sentido provocatório, fiz então uma pergunta, num tom neutro, mais para encher conversa do que por real interesse: “Também trocam produtos com as aldeias árabes por que passámos, que vimos no caminho para cá?”
Num segundo, o ambiente mudou por completo. Os acompanhantes israelitas olharam para mim como se eu tivesse dito um insulto. O judeu brasileiro “fechou” a cara e nunca mais esqueci a frase simples, mas bem sintomática, com que me respondeu: “Essa gente, para nós, não existe!” E mudou de conversa.
As pessoas com quem eu ia creio que ficaram tão chocadas como eu. Acho que os próprios funcionários israelitas se surpreenderam com a crueldade do comentário do habitante do “kibutz”. E, naquele instante, grande parte da simpatia genuína que, nos minutos anteriores, se tinha gerado, desvaneceu-se. A visita terminou com alguma rapidez.
Quando, há dias, vi que o mandato de Benjamin Netanyahu foi renovado, que o seu projeto de um “grande Israel” tem hoje o apoio claro da maior potência internacional, à revelia de resoluções do Conselho de Segurança da ONU que os próprios EUA aprovaram, que o caminho do Estado israelita vai no sentido evidente de um sistema de “apartheid”, dei comigo a pensar que o judeu brasileiro com quem me cruzei, há umas décadas, nesse “kibutz” perdido no “West Bank”, se acaso ainda for vivo, deve estar hoje feliz. Mas lembrei-me muito “dessa gente”.
quinta-feira, março 05, 2020
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