quinta-feira, março 03, 2011

Annie Girardot (1931-2011)

Annie Girardot desapareceu há dias. Teve uma carreira irregular, perdendo-se frequentemente por várias obras menores, nas quais, porém, nunca deixou de refletir a sua grande classe. 

Uma amiga lamentava ontem que eu não tivesse referido a sua saída de cena, talvez porque ela é uma das imagens de memória para uma certa geração francófona e francófica a que ambos pertencemos.

Aqui a recordo, no magnífico "Rocco e i suoi fratelli", de Visconti.

Gente de abril

Uma vez por outra, quando as coisas se propiciam, junto-me a um grupo de antigos oficiais milicianos que, com outros amigos "do quadro", se encontra em torno de um bem disposto e solto almoço.  Foi o que ontem aconteceu.

Une-nos a fidelidade ao 25 de abril - em que quase todos, cada um a seu modo, participámos -, embora os nossos caminhos, por essa época, nem sempre tivessem sido exatamente os mesmos, pelo que alguns nos conhecíamos então menos bem. Os anos foram-nos aproximando, diluindo postos e idades, facilitando o entendimento.
 
Será a nostalgia de um tempo de ilusões perdidas que nos volta a juntar, a memória dessa espécie de adolescência política, que agora revisitamos? 

Não sei, nem sequer sei se tem alguma importância descobrir qual a motivação que nos agrega, muitos na "reserva", outros na reforma e uns quantos, por algum tempo mais, no ativo. Apenas fica bem claro, para todos nós, que apreciamos a mútua companhia e que, com cambiantes não necessariamente homogéneas na leitura do presente e do caminho que até aqui nos conduziu, nos continuamos a rever nessa magnífica aventura de 1974.

quarta-feira, março 02, 2011

O meu "spread"

Ao notar, por estes dias, o gozo alarve de alguns blogueiros e afins, que se deliciam com qualquer sinal que indicie a necessidade de Portugal vir a ter de recorrer a ajuda externa, sem cuidar minimamente das profundas consequências negativas que decorreriam para o nosso país de um tal cenário, apenas degustando, por antecipação e com total irresponsabilidade, as decorrências políticas que pudessem satisfazer os seus ódios mesquinhos de estimação, sou levado a constatar que, entre mim e essa gente, existe, na bolsa de valores nacionais, (e para usar, em sentido figurado, um termo que excita esses figurões) um imenso e insanável "spread".

terça-feira, março 01, 2011

A carta da Líbia

Naquela segunda metade da década de 70, as relações entre Portugal e os países árabes iam de vento em popa. Não tardariam, contudo, a ser afetadas (apenas um pouco), por virtude da decisão política de Lisboa de vir a estabelecer relações diplomáticas a nível de embaixada com Israel (embora a nossa representação em Telavive acabasse por só ser aberta em ... 1991!).

Como jovem diplomata, eu era então secretário de um grupo de trabalho com nome pomposo - CICEPMOM (Comissão Interministerial para a Cooperação Económica com os Países do Médio Oriente e do Magrebe) -, criado pelo ministro Melo Antunes, presidido pelo engenheiro Torres Campos e integrado por uma dezena de pessoas, entre as quais o também engenheiro António Guterres. Os mercados árabes, diluídas que estavam as anteriores reticências políticas face a Portugal, no pós 25 de abril, mostravam-se um terreno promissor de negócios, em especial para o setor de construção civil e obras públicas.

A Líbia era um desses novos horizontes de trabalho económico externo, como  já referi aqui. Um dia, algures no segundo semestre de 1978, na velha "EAA" (repartição da África e Ásia da DG dos Negócios Económicos), fui chamado ao telefone ("ó doutor, é um inglês para si!", berrou, lá de dentro, uma das senhoras do "apoio"). Quem me falava, do aeroporto de Lisboa, era um diretor-geral do ministério dos Municípios líbio, que eu havia conhecido, meses antes, em Tripoli. Informou-me que era portador de uma carta do titular daquele ministério para o nosso ministro dos Negócios Estrangeiros, José Medeiros Ferreira: tinha instruções para fazer entrega pessoal da missiva. Ambos se tinham conhecido numa visita a Lisboa e o ministro português havia sido fundamental para o reforço das relações económicas bilaterais entre os dois países.

Contactado o gabinete do ministro, fiquei a saber que este tinha partido, na véspera, para Nova Iorque, a fim de assistir à Assembleia Geral das Nações Unidas. E que - curiosamente! - iria encontrar-se naquela cidade, no dia seguinte, com o MNE líbio. Nestas condições, que significado poderia ter uma carta, enviada por intermédio de um correio personalizado, subscrita por outro ministro líbio - aquele por quem passavam os principais contratos que estávamos prestes a assinar com as autoridades do país? Era urgente clarificar isto.

O chefe (interino) do gabinete do MNE, Carlos Neves Ferreira, cedeu-me um carro para eu ir buscar o diretor-geral líbio ao aeroporto. Trouxe-o às Necessidades, fomos explicando que o nosso ministro estava em Nova Iorque mas prometemos que lhe daríamos conta, de imediato, da mensagem do ministro dos Municípios líbio. Entregou então a carta, em envelope fechado. Acompanhei-o de volta ao aeroporto, de onde partiu para Madrid. Dei o assunto por encerrado, no que me respeitava.

Puro engano. Retornado às Necessidades, sou, de novo, chamado ao gabinete do ministro, onde me foi exposta uma dificuldade, que eu tinha de encontrar maneira de superar: a carta estava escrita em árabe! Era necessário traduzi-la. Eu que me desenvencilhasse, como pudesse.

Com a "criança nos braços", com Nova Iorque à espera de novidades, não sabia bem como proceder. Não conhecia nenhum falante de árabe, em quem pudesse ter confiança, em Lisboa! Tinha alguns amigos em embaixadas de países árabes em Portugal, mas a Líbia era já, à época, um país fora do "mainstream" político do mundo árabe, pelo que não podia correr o risco de colocar em mãos adversas uma informação que, pela urgência e pela forma como nos fora transmitida, teria de ter, seguramente, alguma importância e delicadeza.

Foi então que me lembrei que, nos meus tempos de universidade, havia conhecido um especialista em língua e cultura árabe, o professor Dias Farinha. Descobri-o pela lista telefónica e fui visitá-lo a casa, numa das torres do Restelo. Expliquei-lhe o nosso embaraço e o pedido de urgente ajuda que lhe formulávamos. A resposta foi menos direta do que eu pensava: a especialidade do nosso professor era o árabe clássico, pelo que precisava de algumas horas para, com apoio de dicionários, "trabalhar" o texto.

Ao final dessa tarde, regressei. E foi então que constatei, pela tradução feita, que a carta era, nem mais nem menos, um montão de banalidades e lugares-comuns, de formulação de votos pelo prosseguimento das boas relações que eram mantidas entre os setores técnicos nas áreas onde Portugal se preparava para atuar na Líbia, da grande importância que Tripoli atribuía a um entendimento cada vez mais profundo com o nosso país, etc, etc. Tudo "langue de bois".

Eu estava siderado, e preocupado. Inquiri do professor Dias Farinha se, de facto, ele estava bem seguro de que a carta não era mais do que "aquilo", se não havia alguma mensagem subliminar ou se, afinal, eu podia assegurar ao meu ministro que o texto era, como se constatava, mera "conversa fiada". O especialista garantiu-me que sim.

Lá regressei às Necessidades, informou-se a nossa missão na ONU e o ministro português deve ter concluído, shakespeareanamente, sobre o alarme dos seus colaboradores em Lisboa: "much ado about nothing".

A historieta não acaba aqui. Em 2001, quando fui representar Portugal na ONU, ao cumprimentar o meu colega líbio, julguei nele reconhecer uma cara familiar: era o antigo ministro líbio dos Municípios, de seu nome Abuzaid Dorda. Nada mais nada menos que o subscritor da carta que tanto trabalho me havia dado. Tornámo-nos bons amigos. Nestes dias, tenho-me perguntado: que será feito dele?

Em tempo: infelizmente, as notícias que dele me chegam não são as melhores, como se pode ver aqui.

"Ilhados"

Passageiros "ilhados", segundo a imprensa brasileira.

A língua portuguesa deve muito à criatividade do Brasil.

segunda-feira, fevereiro 28, 2011

Jantar de fim-de-semana

Era sempre assim, lamentava-se o embaixador. Os nacionais do país em que estava acreditado só convidavam para as suas casas durante os fins-de-semana. Quando muito, na sexta-feira à noite. Isso destruía-lhe o sossego do sábado e do domingo, que tanto prezava, utilizado para passeios pelos arredores da capital. Mas, que se havia de fazer?!, era quase sempre assim...

Pelo menos, naquele sábado, os anfitriões seriam um casal simpático, com o qual os embaixadores se haviam cruzado diversas vezes e que tinham já ido jantar à embaixada. A informalidade do convite levava a que não tivessem recebido sequer um cartão escrito, mas uma simples indicação do endereço, surgida numa conversa no meio de uma receção. Sendo assim, seria adequada a hora escolhida para aparecerem? Que tipo de vestuário seria mais próprio? Era uma pena não terem esclarecido isso, a tempo. Pelo sim pelo não, o embaixador levava um "blazer" com gravata. Se a informalidade fosse muita, logo poderia tirar o adereço do pescoço... ficando com o traje a que os brasileiros chamam "esporte fino".

O embaixador e a sua mulher tocaram à porta. Tiveram esperar alguns minutos. (Ora bolas! Parece que chegámos demasiado cedo). Seria o dono da casa, ele próprio, a vir abrir a porta, conduzindo-os para a sala. Estava de "jeans" e "pullover" (Que chatice! Viémos um pouco 'overdressed'). Foi muito simpático e, rapidamente, ofereceu bebidas. A dona da casa demorou um pouco mais a aparecer e, quando surgiu, denotava ter-se arranjado um tanto à pressa. (É isso! Chegámos muito cedo. Das próximas vezes, temos de saber a hora exata). A embaixatriz tinha-lhe trazido flores, que a senhora agradeceu muito.

A conversa fluiu, durante as horas seguintes. Os anfitriões eram gente interessante e culta. E muito mais simples do que os embaixadores supunham. A dona da casa, a certo passo, deslocou-se para a cozinha. Afinal, seria ela própria quem faria o jantar. (Que casal encantador!). A embaixatriz ofereceu-se para ajudar e o embaixador acabou também por ir abrir o vinho, selecionado na pequena adega, numa incursão feita com o dono da casa. O jantar, muito simples mas saboroso, acabou por ser bastante tardio, num ambiente verdadeiramente familiar. (Gente muito agradável e simples! Mas, claramente, esperavam-nos mais tarde).

E a noite chegava ao fim. Os embaixadores agradeceram a simpatia do jantar, sublinhando, com sinceridade, o caráter intimista do acolhimento, dizendo as tradicionais amabilidades sobre as capacidades culinárias da dona-da-casa e sublinhando, com sinceridade, o excelente ambiente que haviam partilhado.

Foi então, à saída, que o anfitrião comentou: "Amanhã, domingo, teremos cá os embaixadores franceses e também um casal de médicos, nossos amigos". (Por que diabo se lembrou agora de nos revelar quem serão os hóspedes de amanhã?). "E, como lhe disse na semana passada, cá os esperamos também. Oito e meia é uma boa hora?"

O meu Óscar

Geoffrey Rush, em "The king's speech"

domingo, fevereiro 27, 2011

Hierarquia

Entrava sempre para o tarde. Era uma figura de recorte antiquado, com o cabelo oleado, puxado para trás, risca bem marcada. Dizia-se que não "regulava" bem e, de facto, a sua cara não convidava a grandes familiaridades. O olhar era fixo, mas logo fugidio, não sorria muito e falava ainda menos. Sabia-se que tinha tido uma carreira sofrível, povoada de incidentes de comportamento, marcada por um crescente destrambelhamento, fruto ou razão de crises familares. A sua ascensão à categoria de conselheiro, que à época permitia chefiar missões diplomáticas, era mais do que improvável.

E, dessa forma, por ali estava ele, "velho primeiro secretário" (como então se dizia de outros em idênticas circunstâncias), naquela repartição secundária do MNE, sem grandes tarefas atribuídas, até porque a experiência provara que, para além da irregularidade da sua prestação, dava mais trabalho corrigir o que fazia do que fazer as coisas por ele. 

Desde o início, recebera com indisfarçada incomodidade a nova colega que integrara o serviço, do grupo das primeiras mulheres diplomatas que haviam sido admitidas no ministério. Não se dera sequer ao trabalho de ser simpático com ela, como que reagindo ao convívio de géneros que, pela primeira vez, a profissão lhe impunha. E apenas grunhia um som indecifrável, quando esta, pacientemente, lhe dava os bons-dias, remetendo-se depois a um silêncio que a prudência geral do pessoal da sala não ousava quebrar.

Por tradição, à época, cada repartição tinha direito a um "Diário de Noticias", que o contínuo religiosamente levava ao chefe, no gabinete ao lado. Quando, por uma qualquer razão, este não estava ao serviço, o jornal era trazido para a sala, onde a sua leitura era partilhada.

Um dia, a recém-admitida "adida de embaixada", ao entrar na sala comum dos funcionários, viu o "Notícias" sobre uma mesa e, sentando-se no único sofá existente, decidiu passar uma vista de olhos pelo jornal. Estava ela a meio da leitura quando irrompeu na sala o nosso bizarro diplomata. Ao passar em frente à colega, agarrou o jornal e arrancou-lhe das mãos, exclamando, com ar grave: "Eu sou o primeiro secretário!", como que sublinhando o facto de, formalmente, estar a assumir a  direção, em lugar do ausente chefe da repartição. E sentou-se, refastelado, na cadeira de braços da sua secretária, abrindo o jornal sobre a mesa.

O estupor apossou-se da jovem colega, que não esperava tal indelicadeza e que, num assomo de coragem, se preparava para reagir à grosseria. Quedou-se, porém, pela intenção, ao ver o "velho primeiro secretário" tirar do bolso do casaco nada mais nada menos que uma pistola, que colocou, displicente, ao lado do jornal.

Tempos depois, o homem desapareceu da circulação. Nunca houve notícias concretas sobre o tipo de tratamento a que veio a ser sujeito no Júlio de Matos. Por estas e por poucas outras, o seu nome ficou para sempre na memória da casa.    

sábado, fevereiro 26, 2011

Portugueses

Ela era lindíssima, muito bem “desenhada”, bielorussa, com vinte e poucos anos, funcionária da missão da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), em Bishkek, no Quirguistão. Chamava a atenção de toda a gente. 

Estávamos num jantar oferecido pelo chefe da missão a cinco embaixadores, idos de Viena, numa viagem de duas semanas que fazíamos por todos os países da Ásia Central. (Para que não fiquem dúvidas: fiz essa deslocação à minha custa).

O ambiente era descontraído, numa espécie de taverna típica, um pouco fora do centro da cidade, creio que perto de uma estância de ski. Não havia protocolo, a ocupação das mesas era informal, "free seating".

A bela bielorussa sentou-se ao meu lado, anunciando, alto: "Eu fico aqui, para falar com o embaixador de Portugal". Desfiz-me num deliciado sorriso, perante a onda de ironia invejosa da esmagadora maioria dos parceiros (pelo menos) masculinos do repasto. A bielorussa logo esclareceu, contudo, as suas castas intenções: "Tenho a maior admiração por um grande escritor português e quero falar sobre a sua obra. Tenho a certeza que o embaixador o conhece bem".

Preparei-me, intimamente, para lhe explicar a grandeza dos sinos ou os encantos da biblioteca de Mafra, a pretexto do "Memorial do Convento", de José Saramago. Ou, no caso de ser Lobo Antunes, tentaria contextualizar uma literatura angustiada, nascida nos traumas da guerra colonial, como em "Os cus de Judas”, embora o significado de um título como esse levasse mais algum tempo a detalhar. Não estava a ver que outro escritor português pudesse mobilizar o interesse de beldades de Minsk e arredores. Embora longe de ser um alargado conhecedor daqueles autores, o que sabia dava-me para garantir uma dose mais do que suficiente para uma agradável conversa.

Foi então que a jovem me lançou um desafio impossível: "Conhece bem a obra do Paulo Coelho, com certeza! É o maior escritor português, não é? Li tantos livros dele...” Passaram muitos anos e, daquele jantar pelas terras da Rota da Seda, só me ficaram memórias vagas. De uma coisa tenho a absoluta certeza: Paulo Coelho, durante esse repasto, foi um português dos sete costados.

O "Expresso" e eu

Hoje, o "Expresso" publica o seu nº  2000 (2000 sábados! Mais de 38 anos!). Ao constatar isso, dou-me conta de uma outra realidade: nunca deixei de ler nenhum dos números do jornal, desde o seu célebre nº 1 até ao que hoje me chega às mãos. Não falhei um único número. Tenho disso absoluta certeza.

Em 1973, quando foi criado, o "Expresso" representou um choque de modernidade sem par na imprensa portuguesa (como o "Público" o seria, anos mais tarde, para a imprensa diária). Para além de ter introduzido, entre nós, a "moda" dos jornais semanários (até então, só havia revistas), ao jeito britânico do "Observer" ou do "Sunday Times", o jornal significava então a abertura de um espaço crítico que passava as margens formais do regime, estimulando os que, dentro dele, punham em causa o seu percurso e, simultaneamente, abrindo os espaços possíveis a quem a ele se opunha. O 25 de abril deve alguma coisa ao "Expresso".

Com a Revolução, o jornal passou a ser uma tribuna determinante, por onde passava - e onde se "fazia" - muita da política portuguesa da época. Tudo o que era opinião relevante teve acolhimento do "Expresso" e muitas das grandes notícias que fizeram sensação foram anunciadas pelo jornal. Navegando sempre num espaço político que, de forma simplificada, poderemos designar como de "bloco central", o "Expresso" cuidou sempre em nunca calar, sectariamente, outros setores. Bem pelo contrário, por vezes deu-lhes uma voz bem superior àquilo que eles representavam ou representam.  

Como disse, li todos os números do "Expresso", embora com desigual atenção. Em Lisboa, porque o compro sempre tarde e sem lugar certo, chego a correr seca-e-meca para encontrar um exemplar. No estrangeiro, chegou-me muitas vezes por "mala diplomática" a Oslo, a Luanda, a Londres, a Nova Iorque, a Viena ou a Brasília. Mas procurei-o também em Bruxelas ou em Genebra, em estadas mais prolongadas por essas cidades. Em Paris, compro-o, ainda no próprio sábado, num quiosque perto da Étoile. Se acaso me falha um jornal, movo mundos-e-fundos (e até meto "cunhas", junto de amigos) para arranjar o número que está em atraso. E que leio sempre, nem que seja duas ou três semanas depois.

Escrevi, fui entrevistado e fui criticado no "Expresso". Nele tive e tenho amigas e amigos, pessoas que muito respeito profissionalmente. Desde logo, o seu fundador Francisco Pinto Balsemão, uma das figuras fundacionais da nossa democracia. Durante muitos anos, a leitura do "Expresso" foi-me fundamental e até "urgente". Depois, com o tempo e a concorrência, acho que o "Expresso" deixou, cada vez mais, de ter muitas "caixas" apelativas; pior, passou a criar (não foi o único) algum sensacionalismo artificial. E passou a ser lido com mais rapidez, com o que isso significa de menor atenção.

Com todos os seus defeitos - e, de certo modo, eles têm vindo a aumentar*, diga-se em abono da verdade -, continua a ser um jornal necessário. Eu, pelo menos, com maior ou menor gosto,  talvez já por mero vício, não passo sem ler o "Expresso".


*em tempo: desde o momento em que escrevi este texto, tenho a sensação de que o jornal melhorou substancialmente.

sexta-feira, fevereiro 25, 2011

Abébias

- "Não dou abébias, prontos!"

Confesso que não percebi, à primeira, a frase-exclamação do taxista, que havia "fechado" ostensivamente a entrada de um carro na fila onde íamos, na Fontes Pereira de Melo, à chegada ao Marquês. O homem mantivera-se calado desde o aeroporto, naquele silêncio ofendido com que essa inenarrável espécie que são os "taxistas das chegadas" por vezes nos presenteia, como retribuição pelo facto de lhes termos tirado da sorte um turista incauto, com quem faria um involuntário "sightseeing" por Odivelas, num percurso até ao Rossio. 

Em fundo sonoro, André Vilas-Boas explicava, em tom catedrático, do tipo "sucedâneo de Mourinho", as subtilezas da passagem da eliminatória. Como vingança pelo facto de eu o ter obrigado, por duas vezes, a baixar o som da conferência de imprensa (que durou todo o tempo da viagem), o motorista tinha aberto a sua janela, por onde expelia o produto da sua tosse, deixando entrar o frio desse fim de tarde de Lisboa.

- "Nunca mais dou abébias! Aqui há uns dias, deixei entrar uma fulana na minha fila e um gajo arrebentou-me logo a traseira. Tenho o outro carro na oficina vai para vinte dias. Foi em Santa Iria da Azóia. Agora, eles que se amanhem. Não dou mais abébias..." 

E com este discurso reiterado à saciedade, em versões diversas em que a inabalável recusa das "abébias" sempre figurava, a que se somaram comentários impublicáveis sobre polícias e outros sobre o ódio aos peões ("nas passadeiras, comigo, estão lixados! Se esperam que eu seja bonzão, bem podem tirar o cavalo da chuva! Levam com um farolim no olho, ai isso é o mais certo!"), lá consegui chegar a casa. Uhf!

O que é o problema do défice, comparado com isto?

quinta-feira, fevereiro 24, 2011

Crónicas do inesperado

Da minha passagem pelo Brasil trouxe a certeza de que é por lá que existem os melhores cronistas da língua portuguesa. De Nelson Rodrigues a Ruben Braga, de Fernando Sabino a Carlos Heitor Cony, de Millôr Fernandes a Luiz Fernando Veríssimo - o Brasil detem alguns dos grandes mestres na arte de contar uma boa história, com espírito sintético, com adjetivação q.b., com riqueza lexical, sentido de ritmo e "crescendo" de densidade narrativa, tudo servido por um sábia subordinação ao respeito pela oralidade.

Há dois dias, por amável e inesperada oferta do autor, chegou-me às mãos "Crónicas do inesperado", de Renato Prado Guimarães, que me conheceu através deste blogue. Trata-se de um volume editado pela Imprensa Oficial do Estado de S. Paulo, em 2009, ilustrado por belas fotografias de Marcos Vilas Boas, onde são reunidas mais de 40 deliciosas crónicas, espelho de uma vida rica e atenta, em que a experiência diplomática tem um papel maior. É que o autor, com um "background" de jornalismo profissional na "nata" da imprensa paulistana, é embaixador aposentado do serviço diplomático brasileiro, residindo atualmente na Alemanha. E, tal como alguns dos grandes mestres que atrás referi, é possuidor de uma escrita ágil, fluente e culta, através da qual desenha, a traço fino, vivências riquíssimas, que conosco partilha, com grande elegância estilística.

Sem o menor exagero, quero dizer que foi dos livros que mais prazer me deu ler, nos últimos meses. Com a devida vénia, a necessária e completa citação da fonte  e a indulgência do autor, vou-me permitir, daqui a uns dias, transcrever aqui alguns extratos deste excelente livro.

quarta-feira, fevereiro 23, 2011

Pseudónimos

Ontem, no "Le Monde" um grupo de diplomatas, sob o pseudónimo de "Groupe Marly", expressou uma violenta crítica contra a política externa francesa. É muito raro os profissionais da diplomacia virem a terreiro desta forma. Mas não é inédito, quer em França, quer noutros países.

Portugal não tem essa tradição, até porque, por uma regra com escassas (e lamentáveis) exceções, as grandes orientações assumidas, em democracia, em matéria de política externa tendem a corresponder a um alargado consenso político.

No final dos anos 80, alguns diplomatas no ativo sentiram, contudo, a necessidade de se expressarem coletivamente, sob pseudónimo, em artigos de imprensa - neste caso por motivos que relevavam da defesa de importantes interesses profissionais. O pseudónimo utilizado por esse grupo foi "Luiz da Cunha", nome de uma figura tutelar da carreira diplomática portuguesa, que acabou a sua carreira como embaixador em Paris.

23 de fevereiro

Faz hoje 30 anos que a recém-restaurada democracia espanhola passou pelo seu maior teste. Um setor das Forças Armadas, esperando poder contar com a complacência conjuntural de diversas áreas partidárias e, essencialmente, com o beneplácito real, pretendeu instituir um governo com chefia militar, que responderia ao que entendia ser a incapacidade do executivo (aliás, demissionário) de Adolfo Suarez. As coisas, felizmente, não correram bem para os golpistas e a Espanha pôde prosseguir na construção da sua magnífica democracia.

Nesse tempo, eu vivia na Noruega. Por esses dias, em casa do meu colega espanhol em Oslo estava, de visita, uma sobrinha do promotor militar da revolta, o general Milans del Bosch. Recordo a noite de 23 de fevereiro, em que as incessantes repetições televisivas do "todo el mundo al suelo!", do "carabinero" Tejero eram interrompidas por chamadas telefónicas angustiadas de e para Madrid, na tentativa de saber mais pormenores sobre o evoluir da crise - com os presentes a disfarçarem, delicada e educadamente, o radical contraste das suas posições. E comigo a fazer brindes íntimos, a comemorar a derrota dos golpistas.

Hoje sabemos bastante mais sobre a "tejerada", sobre o papel central do general Armada em todo o golpe, sobre o tempo e o modo do rei nessas horas e, também, sobre a atitude - não tão clara quanto seria de esperar - de alguns partidos políticos, que viriam a revelar-se centrais na nova democracia espanhola. Para a história do momento, ficou o gesto valente de Adolfo Suárez, de Gutiérrez Mellado e de Santiago Carrillo, as três únicas pessoas nas bancadas das Cortes espanholas, entre algumas centenas, que revelaram coragem física e dignidade cívica, ao recusarem esconder-se sob as mesas, como lhes era ordenado pelos invasores do parlamento.

Nestas três décadas, li muita coisa sobre a transição espanhola e, em especial, sobre esse dia decisivo, as mais das vezes através de relatos de personalidades políticas da época. Há uns meses, um amigo espanhol, num congresso em Badajoz, recomendou-me a obra "Anatomia de un instante", de Javier Cercas. Não tendo conseguido então a versão original espanhola, comprei, há meses, uma tradução francesa e não dei por mal empregue o tempo da sua leitura. O autor não é um historiador e, ao que parece, tinha inicialmente a intenção de escrever um romance baseado no evento. Talvez por essa razão, o seu texto tem um ritmo muito diferente do tradicional, ao utilizar um método pouco comum de abordagem do fenómeno "23 de fevereiro", enveredando por uma segmentação do papel de cada uma das três personagens políticas acima referidas, tratando-as na sua contextualização própria, recortando-as psicologicamente, no seu brilho e nas suas sombras, sem, porém, perder o cenário global de fundo. E, não sendo, na base, um historiador, Cercas não esquece nunca os factos.

Aprendi imenso com este livro, o que significou dessacralizar algumas figuras, assumir as suas fraquezas mas, ao mesmo tempo, descortinar outros atores que só são secundários para a má historiografia. Não é um livro fácil, em especial para quem não seja iniciado na história contemporânea espanhola e, em especial, na trama do 23-F, mas, para mim, foi uma obra fascinante.

Pastoral

Nunca tinha pensado que poderia vir a ter o ensejo de ler uma Pastoral sobre o Sporting.

Com o devido respeito, aqui deixo o piedoso e oportuno pronunciamento.

Em tempo - Alguém notou que "Mubarak se demitiu antes de Paulo Sérgio, embora do ponto de vista humanitário os pretextos para as respectivas demissões sejam equivalentes."

segunda-feira, fevereiro 21, 2011

Líbia

Os acontecimentos na Líbia recordam-me, inapelavelmente, outros tempos.

Num final de tarde de 1977, à chegada a Tripoli, tudo começou a tornar-se-nos estranho, logo à saída do avião. O funcionário líbio que aguardava a delegação portuguesa, com uma cara de poucos amigos, acompanhou-nos, sem um gesto de menor simpatia, para a longa fila que antecedia a verificação dos passaportes. E aí nos deixou, indo colocar-se do lado de fora da infernal alfândega. Por lá nos aguardava, passada que foi uma boa meia-hora de trapalhadas burocráticas. Bela ajuda!

A delegação técnica portuguesa, que eu integrava, era composta por três elementos. Vínhamos mandatados para colocar as assinaturas finais nos protocolos para obras de construção civil e obras públicas que, desde há uns meses, estavam a ser negociados entre entidades portuguesas e a administração líbia.

Tudo começara no ano anterior, em 1976. Uma missão oficial líbia, que se deslocara a Lisboa para um congresso partidário, fora recebida protocolarmente no Ministério dos Negócios Estrangeiros, pelo secretário de Estado, João Lima. As relações entre Lisboa e Tripoli eram mínimas. A Líbia tinha uma embaixada em Lisboa, chefiada por um encarregado de negócios, mas Portugal não tinha qualquer representação na Líbia. E foi com alguma surpresa que vimos então entrar alguns membros da delegação líbia, sobraçando uns estranhos tubos de cartão (lembro-me de um comentário: "serão tapetes?"). O mistério iria esclarecer-se, minutos depois: os visitantes traziam projetos de obras públicas, para a construção das quais pretendiam contratar empresas portuguesas. Era a forma como queriam demonstrar o interesse em reforçar as relações bilaterais.

A capacidade lusa de improviso torna-nos, embora raramente, capazes de ações expeditas e eficazes. Foi o que aconteceu. Em poucas horas, montámos um programa para a delegação, com a tradicional visita ao LNEC e a algumas empresas. E, também com uma incomum prestreza, cerca de um mês e pouco depois, por decisão do ministro José Medeiros Ferreira, uma delegação portuguesa, creio que composta por 8 pessoas, de diversos setores técnicos (engenharia, banca, obras públicas) partiu para a Líbia.

Fui encarregado de representar o MNE nessa delegação. Eu era então um jovem diplomata, com pouco mais de um ano de casa. E logo constatei, com o orgulho dos novatos, que iria ser o primeiro funcionário diplomático português a visitar, em representação do MNE, esse país do Magreb.

Essa visita de 1976 durou quase 20 dias e os seus resultados não podiam ser melhores. Conseguíramos lançar as bases para uma futura presença empresarial portuguesa na Líbia. Recordo que fomos então recebidos com "tapete vermelho", desde a chegada ao aeroporto até à nossa partida, rodeados de todas as atenções.

Precisamente pelo contraste com esse precedente, os três integrantes desta nova missão, que haviam feito parte da delegação anterior, estavam muito surpreendidos com a frieza com que, menos de um ano depois, estavam a ser tratados. E mais admirados ficámos quando, em lugar do razoável hotel onde antes nos haviam colocado (Tripoli não tinha, à época, boas instalações hoteleiras), nos enviaram para um subúrbio, bastante distante do centro, onde nos foi proporcionado um alojamento bem medíocre. 

Durante três dias, fomos sujeitos a um completo isolamento, agravado pela retenção dos passaportes e dos bilhetes de avião. Além disso, não havia então telemóveis e as comunicações telefónicas com Lisboa revelaram-se impossíveis. A nossa perplexidade era imensa. Estávamos totalmente sem contactos, num país de língua estranha, havíamos perdido já as reservas de voos e, acima de tudo, ninguém nos dizia nada. Restava-nos ir testando as diferenças entre o "couscous" do almoço com o "couscous" do jantar e medir a muito discutível qualidade dos refrigerantes que nos serviam, constatada, como é óbvio,  a rigorosa impossibilidade de acesso a qualquer álcool.

Até que, ao final do quarto dia, apareceu para me ver o antigo encarregado de negócios líbio em Lisboa. Em termos veementes, manifestei-lhe o nosso desagrado e a nossa surpresa com o acolhimento que nos estava a ser dado, em completo contraste com o do ano anterior. E perguntei-lhe, de forma um pouco brutal, se, como parecia, estávamos a ser "reféns" e de quê. 

Senti que o homem ficou um tanto tocado com a minha forte reação, a qual, aliás, tinha por objetivo evitar que ele fosse confrontado com o estado de bem maior exasperação do chefe da delegação, que tencionava fazer um "casus belli" da situação bizarra em que nos encontrávamos.

E foi então, na conversa com esse colega líbio, que percebi, a razão de tudo.

- Você deve compreender que, depois das declarações portuguesas em Copenhaga, tenha havido uma reação da nossa parte, disse-me o diplomata.

- Declarações em Copenhaga? A que é que se está a referir?

- Então não sabe?! O seu primeiro-ministro anunciou, durante uma reunião da Internacional Socialista, na Dinamarca, que Portugal ia estabelecer relações a nível de embaixada com Israel. O mundo árabe e o meu governo ficaram ofendidos, claro!...

Assim fora, de facto. O Dr. Mário Soares decidira o início de uma mudança de política face a Israel, a qual, aliás, não deixaria de ter algumas consequências políticas internas, levando (entre outras razões, ao que parece) à demissão do ministro Medeiros Ferreira (ver aqui). Mas a última coisa com que o Dr. Mário Soares sonharia é que, no dia seguinte àquela sua declaração, uma delegação portuguesa ia aterrar no maior adversário norte-africano de Israel!

Fiz ver ao meu colega líbio a insensatez da nossa "quarentena" - a qual, repeti, a nossa delegação quase era obrigada a interpretar como um "rapto", dado que, sem bilhetes nem passaportes, estávamos tecnicamente impedidos de sair do país. Assim, para além das consequências práticas para aquilo que nos tinha levado à Líbia, adverti de que estavam criadas as bases para um "sério incidente diplomático".

Creio que o diplomata líbio mediu bem a situação e disse ir fazer o possível para a resolver de forma expedita. E fez. Para a história (com "h" pequeno), acabámos por ser recebidos logo no dia seguinte, assinámos os acordos, embora com alguns curiosos incidentes de percurso à mistura, que não vêm para o caso. 

Depois dessa visita, muitas obras públicas foram construídas na Líbia por mãos portuguesas, naquele que foi um excelente exemplo de "diplomacia económica", embora com alguns quase "reféns" à mistura...

Como disse, os tempos são hoje outros, lá pela Líbia. Eu recordei os meus.

domingo, fevereiro 20, 2011

Euro

Há quatro anos, quando vivia no Brasil, fui convidado para fazer uma palestra na universidade de Harvard, nos Estados Unidos. Antes do evento, foi-me oferecido um almoço, por responsáveis e professores. A certo passo da refeição, um docente canadiano, atirou-me, de chofre:

- A vossa zona euro está a dar sinais de degradação. A Alemanha e a França começam a não conseguir cumprir os critérios de convergência. Quantos anos mais Portugal conseguirá resistir, antes de ser forçado a abandonar a moeda única?

Confesso que fiquei aturdido. Até então, nunca ninguém me tinha colocado semelhante questão, que, à época, me parecia sem o menor sentido.

Recordo-me bem do que respondi:

- O custo que poderá representar, para Portugal, a tomada de medidas que venham a revelar-se necessárias para se manter na zona euro será sempre muito inferior àquele que o país teria de suportar se acaso viesse a ter de sobreviver fora dessa mesma zona, de regresso a uma moeda nacional.

O mundo deu, entretanto, muitas voltas e a discussão sobre a nossa posição face à "eurozona" anda agora por aí. Mas continuo a acreditar piamente na resposta que então dei.

Mísia

... e, regressando ao fado, noto que Mísia voltou a Paris, para um espetáculo em que deu voz a textos escritos por mulheres portuguesas, que intitulou "Senhora da noite". Por lá se encontram versos de Agustina, Hélia Correia, Lídia Jorge, Adriana Calcanhoto, Amália e da própria Mísia.

Ontem, como me dizem que aconteceu nos restantes dias, o magnífico teatro Bouffes du Nord estava a abarrotar, com o fiel público que Mísia soube por aqui criar e que lhe correspondeu em pleno. À sua cuidada presença em palco, servida por um bom apoio instrumental, Mísia soma uma capacidade muito rara de comunicação com a plateia, onde sempre se insere uma atenção particular aos portugueses presentes.

Surpreende-me sempre a ousadia da cantora, que teima em seguir um caminho exigente e inovador em matéria de poemas e, frequentemente, na própria seleção das músicas, embora seja cada vez mais constante o recurso a temas tradicionais, em detrimento do "outro fado" que ensaiou em alguns dos seus primeiros discos. O que, para o meu gosto, é uma boa notícia.

Em tempo: a pedido, aqui fica um belo fado de Mísia.

Resignação II

"Estivemos no limite da banca rota", escreveu a agência estatal Lusa, julgando citar Pacheco Pereira.

Manifesto a minha solidariedade pessoal com a opção do jornalista: sempre é preferível ter a "banca rota" do que cair na "bancarrota".

Não se pode... ensiná-los? Ou será já irremediavelmente tarde?

Lembrar

Seria importante que os parceiros do G7 aproveitassem para lembrar publicamente a Trump que os palestinos de Gaza e da Cisjordânia não podem...