quinta-feira, maio 28, 2009

Coreia do Norte

O ensaio nuclear norte-coreano, na sua trágica irresponsabilidade, tem a colateral virtualidade de ajudar a acordar a China e a Rússia para a emergência, na sua vizinhança, de um poder dotado da arma mais poderosa, com um forte potencial desestabilizador. E esse poder é tanto mais imponderável quanto resulta de um Estado onde as atitudes não procedem de um processo decisório com base democrática.

À Coreia do Norte parece poder hoje aplicar-se o que alguns dizem das lideranças palestinianas: "They never miss an opportunity to miss an opportunity". Ao seu governo foram dadas várias hipóteses e soluções, com estímulos financeiros e de outra ordem, por diversos sectores da comunidade internacional. Moscovo e Pequim tomaram em atenção o que consideraram serem os legítimos interesses norte-coreanos no âmbito das "six parties talks", perante o compreensível alarme do Japão e a errática agenda dos EUA - que muitos, de forma simplista, identificam com a da Coreia do Sul. Resta-lhes avaliar o saldo dessa táctica.

Importará agora saber se esta nova intranquilidade criada em Moscovo e em Pequim tem possibilidade de vir a consagrar-se em termos de uma efectiva coerção sobre Pyongyang, através da mobilização eficaz de todos os meios diplomáticos disponíveis. Se isso viesse a acontecer, com resultados práticos, talvez abrisse portas para a sequente ponderação de medidas de contenção, com idêntico objectivo, noutros cenários de instabilidade e risco nuclear. E, quem sabe, talvez também pudesse servir de base à exploração da viabilidade das propostas feita pelo presidente Obama, no seu discurso em Praga, no tocante a uma ambiciosa agenda global de desarmamento nuclear. Mas isso seria jogar com a sorte e, infelizmente, a História prova que raramente tudo corre bem.

quarta-feira, maio 27, 2009

Eleitos


Já está! Tal como ficou sugerido aquando da reunião que organizei com eleitos de origem portuguesa em Bordéus, há pouco mais de uma semana, foi criada pela Embaixada de Portugal em França a plataforma informática que permitirá aos eleitos de origem portuguesa em França corresponderem-se e interagirem entre si, apresentando os seus textos, ideias, iniciativas, propostas e tudo o resto que muito bem entenderem.

Com o endereço electrónico de www.france-portugal.blogspot.com, este espaço, para além de poder ser lido pela generalidade das pessoas que tenham acesso à internet, é de livre utilização por todos os cidadãos de origem portuguesa que tenham sido eleitos em órgãos locais, regionais ou nacionais em França. O objectivo é proporcionar um local de debate sobre assuntos de interesse comum, de apresentação de iniciativas e formulação de propostas.

Os eleitos de origem portuguesa que desejem ter acesso à plataforma informática necessitam apenas de dirigir um e-mail para o endereço fraporelus@gmail.com, após o que receberão de volta uma senha que lhes permitirá participar no espaço de discussão, nela podendo utilizar a língua portuguesa ou francesa indiferentemente.

E, contrariamente à asserção bíblica, segundo a qual "muitos são os eleitos, poucos são os escolhidos", todos os eleitos podem fazer parte deste novo mundo de diálogo...

Piano

Dezenas de amigos de Portugal estiveram ontem, ao final da tarde, na nossa Embaixada em Paris para ouvir a música trazida por Adriano Jordão, num intervalo das suas funções de Conselheiro Cultural em Brasília.

Depois do jazz ouvido há semanas e antes da guitarra clássica portuguesa, que aí virá em Junho, foi agora a vez do piano. A música é também uma forma de se fazer diplomacia.

terça-feira, maio 26, 2009

Vinho do Porto

Há semanas, estive na apresentação em Paris de um vinho do Porto rosé! É verdade, o "marketing" imaginativo do Porto já vai por esses caminhos, embora presuma que isso possa incomodar alguns puristas.

Confesso que não me preocupa nada que se possam descobrir novas fórmulas que nos permitam vender o nosso vinho, desde que se tenha sempre a qualidade como permanente referencial.

Em França, o vinho do Porto continua como um forte emblema de Portugal, com a curiosidade de ser servido Porto "doce" antes das refeições, ao contrário da maioria dos países, onde o Porto "seco" abre os repastos.

Deixo-lhes um som sobre o vinho do Porto, da autoria de Carlos Paião, pelos Donna Maria, para além de uma foto do Douro, região que, no segundo semestre, a Embaixada de Portugal em Paris vai promover com algumas iniciativas.

À Espera de Godinho

"Três portugueses e um belga de origem portuguesa, nascidos nos anos 40 do século XX e cujos caminhos se cruzam em Bruxelas, reúnem-se em quatro jantares à espera de um quinto conviva que se faz rogado" - é assim que um livro de conversas de memórias se apresenta, com o "beckettiano" título de "À espera de Godinho", editado pela Bizâncio.

O livro foi-me enviado por um dos autores conversantes, o Amadeu Lopes Sabino - aliás, para quem não saiba e na minha opinião, uma das melhores escritas em língua portuguesa surgida nas últimas décadas. Nele se espelham-se os vários percursos pessoais, diferentes mas idênticos aos de muitos que andaram por esses tempos de Bruxelas, de Paris ou Londres, feitos de exílio ou de recusa da guerra colonial, com a Europa a servir-lhes hoje de sereno traço comum de vida.

Como ilustração, deixo a lembrança de um curto e curioso poema de Pessoa, chamado ao livro:

"António de Oliveira SalazarTrês nomes em sequência regular...António é AntónioOliveira é uma árvoreSalazar é só apelido.O que não faz sentido
É o sentido que tudo isso tem".

Simone

Simone Veil é uma das personalidades cujo percurso talvez melhor traduza o destino da Europa contemporânea. Sobrevivente à barbárie nazi que a levou para um campo de concentração, foi a ministra da Saúde que abriu as portas da França à modernidade da lei do aborto, tendo-se tornado na primeira mulher eleita para presidir ao Parlamento Europeu. É uma figura serena, quase discreta, com um olhar vivo e atento, onde o leve sorriso não apaga por completo alguma melancolia que a História lhe pode ter tornado inevitável.

Ontem, aqui em Paris, juntou-se ao prémio Nobel da Economia Amartya Sen e a outras figuras cimeiras da vida académica mundial graças ao convite da Fundação António Champalimaud, dirigida por Leonor Beleza, uma bela instituição que nos traz um Portugal mais solidário e voltado para o mundo.

segunda-feira, maio 25, 2009

Frase

"Se entendemos que Chipre é na Europa, embora se trate de uma ilha ao largo da Síria, é difícil não considerar que a Turquia se não situa na Europa".

Carl Bildt, ministro dos Negócios Estrangeiros da Suécia, no "Figaro", hoje.

Peso

Há umas semanas, na qualidade de embaixador de Portugal em França, fui simpaticamente convidado a integrar uma prestigiada confraria gastronómica francesa, a "Académie des Psychologues du Goût", instituição de reuniões aperiódicas, cuja fundação data de 1923, e que integra essa sumidade nacional das coisas da mesa que é José Bento dos Santos - sendo nós dois, aliás, os únicos estrangeiros "em exercício".

No final de semana passado, e como reconhecimento pelo facto de terem sido os judeus portugueses, perseguidos pela Inquisição, a trazerem para França a tradição do chocolate, Portugal foi o país convidado de honra das "Jornadas do Chocolate" de Bayonne, e o embaixador de Portugal foi então entronizado como novo membro da Academia do Chocolate, função cujo conteúdo operacional terá ainda que ser aquilatado.

Também por estas razões, começo a entender melhor que este posto de Paris constitui uma responsabilidade com consequências de peso...

domingo, maio 24, 2009

Arte Equestre

Há dias - neste caso, noites - em que sentimos que uma certa imagem de Portugal se projecta, com um impacto de especial prestígio, sobre a sociedade francesa. Foi o que aconteceu na última 6ª feira.

A Escola Portuguesa de Arte Equestre esteve em Saumur, no vale do Loire, a fazer uma apresentação conjunta com o "Cadre Noir", da École Nationale d'Équitation de França, perante cerca de dois mil espectadores, numa cerimónia a que tive a honra de co-presidir. Foi um espectáculo memorável, no termo do qual, Filipe Figueiredo, seu director, recebeu a Légion d'Honneur, a mais prestigiada condecoração da República francesa, como reconhecimento pelo seu excepcional trabalho de cooperação com a escola francesa.

A nossa escola conserva uma tradição secular de notável arte equestre, sublinhada por trajes clássicos que são uma referência de tempos idos, cultivados com empenho pelos seus integrantes, cuja qualidade e técnica só têm paralelo, à escala mundial, nas suas homólogas francesa, austríaca e espanhola. Por isso, esta é uma imagem da nossa História que nos compete preservar e promover.

Espero que a escola equestre portuguesa possa continuar a voltar muitas vezes a França e bem gostaria que a nossa comunidade tivesse ocasião de apreciá-la e de constatar como a França a acarinha. Para os portugueses e luso-descendentes que aqui vivem, é muito importante ver a França a reconhecer o que temos de melhor.

Belenenses

Alguns clubes de futebol, por razões nem sempre evidentes para muitos, tendem a concitar uma simpatia bastante maior do que aquilo que os seus resultados poderiam justificar. O Belenenses, o eterno "quarto grande" das lides futebolísticas portuguesas, é, em Portugal, um desses grupos. É que a história do futebol português não esquece Matateu (na imagem), Vicente, José Pereira, Capela, Feliciano e outros distintos portadores da histórica camisola azul do Restelo.

Num ano em que o Porto confirmou a sua imensa superioridade a nível nacional, a descida de divisão do Belenenses acaba por constituir um momento de alguma tristeza para quantos, como é o meu caso, não tendo o Belenenses como seu clube de estimação, não deixam de o estimar. Mas o passado já provou que o Belenenses sabe dar a volta ao azar e aí estará, daqui a uns tempos, de novo no campeonato de topo.

Arena

Foi hoje, em Cannes, aqui em França, que o realizador português João Salaviza ganhou, com o seu filme "Arena", o prémio para a melhor curta-metragem.

Um nome português no mais prestigiado festival cinematográfico da Europa. Uma excelente notícia.

"Et pourtant"

O meu jovem colega Charles Aznavour fez, no passado sábado, 85 anos. Escrevo "jovem colega" porque Aznavour acaba de ser designado pelo governo da Arménia como seu embaixador junto das instituições multilaterais em Genebra, na Suíça. Sabia-se da sua ascendência arménia, mas não se supunha que ela o viesse a conduzir ao ingresso na carreira diplomática com uma idade superior, em duas décadas, àquela em que os diplomatas portugueses deixam de poder exercer funções no estrangeiro. "Et pourtant"...

Aznavour está para a canção francesa como Sinatra o está para a americana - que me desculpem outros tantos, como Montand, Bécaud, Ferré ou Brassens. Julgo que tal é sentido dessa forma em Portugal, por onde espalhou, em décadas passadas, o seu romantismo e a sua voz inconfundível.

Por isso, como homenagem, aqui fica, naturalmente, o seu intemporal "Et pourtant".

sábado, maio 23, 2009

Ataúro, Timor, 1975

Morreu Lemos Pires, o último governador da província ultramarina de Timor.

Sei que esta opinião tem muito de controverso, mas é minha firme convicção que a imagem de Lemos Pires na história da descolonização portuguesa sofre de uma profunda distorção, fruto da necessidade de se encontrarem bodes expiatórios para um tempo de irresponsabilidade colectiva.

Como militar, recordo-me bem da "importância" que era dada ao dossiê Timor nas reuniões da Assembleia do MFA e, já funcionário do Ministério dos Negócios Estrangeiros, acompanhei de muito perto as peripécias que envolveram a atitude de Lisboa face à frágil administração portuguesa em Timor, apanhada entre dois fogos, com alguns a fazerem jogos que não ficarão nas páginas mais gloriosas da nossa História. Essa era uma época em que era muito fácil, e politicamente rentável, falar com ironia da saída para Ataúro e da "cobardia" das tropas portuguesas.

Um dia, na Noruega, há precisamente 30 anos, tive a oportunidade de falar longamente com Lemos Pires sobre esses acontecimentos, na base do que eu sabia e no que então dele pude colher. Confirmei, nesse dia, a impressão que já tinha e que conservei até hoje, até à sua morte: Lemos Pires era um homem de bem e, na tragédia de Timor, comportou-se de uma forma que não deslustra a sua imagem de militar português.

sexta-feira, maio 22, 2009

Coincidências (3)

No mesmo dia em que Dick Cheney justifica os interrogatórios violentos aos detidos de Guantánamo, com base em razões de segurança americana, um juíz constata que Leonor Cipriano, a mãe da desaparecida Joana, terá sido sujeita a torturas.

Bénard da Costa (1935 -2009)

A partir da carta escrita pelo Bispo do Porto a Salazar, no final dos anos 50, a vida política política portuguesa passou a contar, de forma cada vez mais interveniente, com a presença de personalidades católicas no seio do campo democrático que se opunha ao salazarismo. Ficou então claro que o Estado Novo não tinha o monopólio do apoio dos católicos portugueses, que parecia incontestado desde o início da ditadura.

João Bénard da Costa, que acaba de falecer, foi uma das figuras que esteve no centro desse novo tipo de actividade cívica dos católicos, o qual acabou por ter significativa expressão política - desde diversos manifestos à organização da Revolta da Sé (1959), de uma participação activa nas listas da Oposição democrática, uma década depois, às movimentações em torno do caso do padre Felicidade Alves ou dos incidentes da Capela do Rato (1971). Pelo meio, chegaria mesmo a ser criado um efémero movimento radical, com forte presença de alguns desses católicos, o MAR (Movimento de Acção Revolucionária).

Mas seria no terreno intelectual, em torno da propagação em Portugal das ideias do Concílio Vaticano II e das reflexões de Emmanuel Mounier e de Teilhard de Chardin, que os então chamados "católicos progressistas", no seio dos quais Bénard da Costa viria a ter um papel decisivo, iriam representar um tempo novo na vida portuguesa. A Moraes Editora e a revista "O Tempo e o Modo" constituíram o eixo prático dessa movimentação, como o próprio Bénard da Costa bem relata, num pequeno mas importante livro chamado "Nós, os Vencidos do Catolicismo".

Este perfil cívico não deve fazer esquecer que Bénard da Costa foi, também, uma figura maior da memória do cinema em Portugal, como crítico de escrita inigualável e, mais tarde, como director da Cinemateca Nacional. Foi uma personalidade de grande valor, das mais importantes da sua geração, que muita falta fará à cultura portuguesa. Ver mais aqui.

quinta-feira, maio 21, 2009

Alexandria

Há dias, num jantar em Paris, fiquei ao lado de um cavalheiro, que se apresentou, mas cujo nome e ocupação, no momento, acabei por não fixar. Na conversa que se seguiu, verifiquei que era um homem muito culto e interessante, com uma visão alargada da vida e das coisas, que conhecia bem a literatura portuguesa, tendo-me também falado com entusiamo de Jorge Sampaio e da sua Aliança de Civilizações, à qual estava também ligado. A certa altura, dei-me conta de uma coisa incómoda: tinha-se já passado uma boa meia hora de charla, ele sabia quem eu era mas, a mim, continuava a escapar-me quem ele era e o que, no essencial, fazia na vida. A conversa divagava por temas diversos e, de certo modo, já começava a ser delicado eu inquirir essa coisa tão básica, a que eu deveria ter tomado atenção, desde o início. Com alguma técnica que a profissão ensina, acabei por chegar lá, sem perguntar directamente: era o director da nova biblioteca de Alexandria, no Egipto. Chama-se Ismail Serageldin e foi vice-presidente do Banco Mundial.

A bibliteca de Alexandria é uma daquelas referências quase mitológicas na História do mundo e, por isso, quis saber como ele sentia o peso dessa responsabilidade. Pareceu-me muito calmo ao abordar, com realismo, a dimensão da magnífica tarefa que lhe compete, para estar à altura da ideia que a sua biblioteca tem no imaginário mundial. E acrescentou: "Confesso que tenho um problema: não me posso queixar do meu antecessor. Deixou o cargo há quase dois mil anos..."

Nações Unidas

Em menos de uma semana, segundo o Flag Counter (que pode ser consultado na coluna ao lado), este blogue foi visitado por leitores de 35 países. Uau!

quarta-feira, maio 20, 2009

Comuns

A crise que actualmente abala o Parlamento britânico trouxe-nos imagens da Câmara dos Comuns, apinhada como um ovo. E com muita gente de pé. O que algumas pessoas desconhecem é que, na "mãe de todos os Parlamentos", para usar uma expressão bebida da imagem criada por Saddam Hussein, não há lugares sentados para todos os seus membros. Assim, quando se regista uma grande afluência, em dia de debates importantes, muitos têm de ficar de pé.

Tive o ensejo de assistir presencialmente a várias sessões nos Comuns, ao tempo em que trabalhava na Embaixada em Londres. Recordo, em especial, o famoso discurso de despedida de Margareth Thatcher, um dia depois do seu afastamento do poder, em fins de Novembro de 1990. Apesar do abalo sofrido, a senhora Thatcher fez uma notável prestação, num ambiente que acabou por gerar uma quase simpatia colectiva, que a levou a proferir uma exclamação que ficou para a História: "I'm enjoying this!".

Apesar da informalidade que parece marcar os debates, o cerimonial e o corpo de regras da Câmara é imenso e, quase sempre, estritamente respeitado. Até pelos próprios visitantes, sujeitos a determinações muito rígidas, como a impossibilidade de levarem consigo jornais para a tribuna e a total proibição de se tirar notas escritas.

Em 1993, durante a sua visita de Estado ao Reino Unido, o então presidente Mário Soares fez uma visita informal à Câmara dos Comuns, numa hora em que esta não estava em sessão, passeando-se com a comitiva por toda a sala. A certo passo, notei que o acompanhante oficial que o Palácio de Buckingham tinha designado para estar com o presidente português, um aristrocrata, membro da Câmara dos Lordes, demonstrava um inusitado e quase turístico interesse pelos pormenores do mobiliário e pelo conjunto de símbolos que ocupam a mesa central, em frente aos quais governo e oposição se degladiam. A certa altura, aproximou-se de mim e disse-me: "Sabe, estou um pouco emocionado!". No instante, não percebi bem a razão dessa emoção. "É que, como membro da Câmara dos Lordes, estou impedido de visitar a Câmara dos Comuns e, em toda a minha vida, esta é a primeira vez que consigo entrar aqui." Peculiaridades do sistema político britânico.

Ser português

Isto de se ser português tem muito que se lhe diga.

Hoje, acordei com a notícia, repescada do Independent pelos sites franceses, de que as "galères portugaises" (em inglês, "Portuguese men-of-war", vá-se lá saber porquê), que são das medusas mais venenosas do mundo, estão a invadir as praias do Mediterrâneo. (Aqui entre nós: nunca tinha ouvido falar delas...). Uma "má notícia", portanto.

Durante um almoço, também hoje, recheado de temas europeus, as virtualidades da Estratégia de Lisboa e a urgência da aprovação do Tratado de Lisboa ligaram, na conversa, o nome da capital portuguesa a passos importantes na vida comunitária. Logo, uma "boa notícia".

Em todas estas referência ao nome de Portugal pelo mundo - e, até nos dias que correm, há algumas outras por aí, umas mais prestigiantes que outras - em que categoria de ressonância subliminar devemos encaixar o cão-de-água do presidente Obama?

terça-feira, maio 19, 2009

Médio Oriente

O actual momento do diálogo entre Washington e Tel-Aviv, simbolizado pelo encontro entre o presidente Obama e o primeiro-ministro Netanyahu, pode vir a ser, porventura, o acontecimento mais importante no quadro da acção externa desenvolvida pelos EUA, desde a entrada em funções da sua nova administração, embora outros possam ter tido uma expressão mediática mais forte.

Todos estamos muito longe de conhecer o que se terá passado nessa conversa e nas que paralelamente a prepararam, mas, a crer nos sinais que nos chegam, há alguns indícios de poderemos estar a assistir a um significativo tempo de viragem por parte do Governo americano, face de um dossiê que, desde há décadas, tem condicionado sobremaneira a sua política internacional.

Uma relação tão intensa como a que tem ligado, embora com importantes "nuances", sucessivas administrações americanas aos diversos governos israelitas não se justifica apenas, como alguns simplisticamente têm sustentado, pelo peso do lóbi judaico dentro dos EUA. Israel era, igualmente, uma peça importante no complexo jogo de interesses americanos na região - interesses esses a que, aliás, estão ligados outros parceiros ocidentais, a começar pela União Europeia.

O que poderá ter mudado - "poderá", porque não é, em absoluto, certo que isso tenha ocorrido - é a avaliação americana sobre o papel que Israel pode desempenhar, no seu quadro actual de interesses na região. Washington nunca "deixará cair" Israel, nem seria aceitável que tal acontecesse: o Estado israelita é um dado da História e qualquer solução de futuro terá sempre que passar pela sua preservação e pelo direito da sua população a viver em paz, dentro de fronteiras estáveis e seguras.

Mas é óbvio que o quadro global de insegurança que se vive em toda a região, que vai de Israel ao Paquistão, sob um espectro de fortes tensões globais de natureza cultural e interétnica, poderá ter levado Washington a, por uma vez, decidir não permanecer tão permeável, como era seu hábito, à leitura das "soluções" de segurança que Tel-Aviv ciclicamente testava nas suas relações de proximidade. Até por uma razão bem simples: porque todas elas falharam.

O que os EUA poderão ter aprendido é que, não apenas se revelaram erradas as estratégias de defesa/agressão aplicadas por Israel, em particular no quadro da sua relação com os palestinianos, como esse mesmo curso de tensões, sucessivo e crescente, se transformou num factor indutor de outras dinâmicas de instabilidade, muitas das quais têm já hoje uma quase completa autonomia face ao próprio quadro israelo-palestiniano. E se constituíram, elas próprias, em preocupações com projecção à escala global.

Além disso, Israel poderá estar a ser, aos olhos da nova administração americana, o pior inimigo de si mesmo. Com efeito, algumas declarações e tomadas de posição oriundas de Tel-Aviv relevam já do que parece ser a adopção de uma estratégia de "quanto pior, melhor", reveladora de algum desnorte e de uma política de "navegação à vista" que não prenuncia nada de sustentável.

As coisas, porém, não se esgotam por aí. Nesta complexa equação insere-se, necessariamente, a questão nuclear na região e, muito em particular, o problema iraniano. E todos sabemos que, quando se trabalha no quadro de expressões políticas assentes em radicalismos, a racionalidade quase sempre não é a filosofia prevalecente.

Tudo o que atrás se escreveu parte do princípio de que há condições para que alguma coisa mude na política americana face a Israel. Já muitas vezes se pensou isso, no passado, e tal não aconteceu. O que nos faz pensar que, desta vez, algo poderá ser diferente é a percepção de que Washington estará a entender - depois do Afeganistão, do Iraque, do Paquistão - que há um quadro novo, no qual se projectam os interesses que entende dever defender, em cujo âmbito o factor Israel tem já um peso inferior na equação final.

A ver vamos.

Lembrar

Seria importante que os parceiros do G7 aproveitassem para lembrar publicamente a Trump que os palestinos de Gaza e da Cisjordânia não podem...