Um dos efeitos mais vulgares dos algoritmos é a experiência que todos já tivemos de nos ser sugerida a aquisição de produtos ou serviços, à luz daquilo que adquirimos no passado. Tenho essa prática, com regularidade, nas compras de livros que faço na Amazon, onde "eles" já sabem das minhas tendências e procuram mostrar-me aquilo em que presumem que eu possa estar interessado. E algumas vezes estou.
Mas há "algoritmos humanos". Eu explico. Um dia, no Brasil, entrei numa livraria Saraiva, um cadeia que desapareceu já há uns anos. Como acontece no comércio naquele país, quando entramos numa loja "cola-se-nos" frequentemente um empregado, que procura saber o nosso nome e tenta ser útil, embora em regra só consiga ser chato. A ideia parece ser de que uma eventual compra da nossa parte lhe possa vir a ser atribuída, para seu crédito profissional. Nada de novo. No meu caso, por regra, enxoto-os com a possível delicadeza.
Nesse dia, como é meu hábito, cirandei por todo o espaço da loja, até que me fixei numa mesa ou numa estante, da qual fui avaliando alguns livros. A certo passo, o meu "seguidor" aproximou-se com um livro na mão e perguntou: "Já viu este livro?" Já não sei que obra era, mas disse-lhe que não estava interessado. Minutos depois, apareceu-me com outro livro, que também não me despertava a atenção. Comecei a ficar intrigado e perguntei: "Por que é que me está a mostrar esses livros?"
Aquele homem, recordo bem, era uma pessoa muito simples, que manifestamente não fazia a menor ideia do conteúdo dos livros que por ali estavam. O belo tempo dos livreiros conhecedores, que nos ajudam a descobrir obras que nos interessam, já não abençoava aquelas lojas de massificação de papel.
E foi então que me explicou, em voz baixa, que fora instruído a seguir o cliente, a observar as mesas em que este mais se concentrava e, a partir daí, a propor-lhe os últimos livros dessas áreas temáticas que tivessem chegado à livraria.
Eu imagino que devia andar pelos "current issues", pelas memórias, pela política e pela história - é esse o meu habitual "fond de commerce" - e o homem tinha tentado impingir-me coisas que achava deverem corresponder ao meu perfil de comprador. Não teve sorte.
O algoritmo da Amazon é bom, bem melhor do que aquele empregado da Saraiva, mas eu continuo a preferir os bons livreiros.
