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sábado, fevereiro 21, 2026

A doutrina da subordinação preventiva


Donald Trump inventou um dia aquilo a que chamou o Conselho da Paz, inicialmente centrado na sua proposta para uma solução final da questão palestina. Para tal, juntou uns quantos parceiros, cada um dos quais passou um gordo cheque para ganhar a sua boa vontade. E logo anunciou ao mundo ter feito mais uma "paz", a caminho de um futuro Nobel. O grupo tinha gente pouco recomendável, mas não seria isso que o iria distinguir do nível ético do seu promotor.

O projeto era transformar uma área deliberadamente arrasada numa Riviera de águas tépidas, a leste do Mediterrâneo. Como projeto turístico, era uma excelente ideia. Tinha, porém, um irritante, como agora se diz: havia por lá uma população que habitava aquela terra, desde há séculos. A densidade populacional da área era mesmo das maiores do mundo. Verdade seja que Israel, com uma meticulosa política de liquidação intensiva dos palestinos, por ali e na Cisjordânia, como retribuição desproporcionada pelo ataque terrorista que sofrera, vinha ajudando a atenuar o tarefa. 

A chegada de Trump 2.0 atordoou o mundo, desde logo a Europa, cuja atitude face ao conflito israelo-palestino era, desde há muito, uma montra de impotência e cobardia. Assumindo como se fosse sua a culpa da genocida extrema-direita nazi, os europeus haviam adotado a tibieza de não ousar enfrentar Israel, temerosos do labéu do anti-semitismo, ferrete usado contra quem questiona a excecionalidade do Estado judaico. Com as administrações americanas, de qualquer cor política, de mãos atadas face à pressão do seu lóbi interno, a Europa cedo optou por se subordinar a Washington. 

O Conselho da Paz evoluiu entretanto, na dinâmica retórica de Washington, para uma instituição vocacionada para operar o milagre da paz pelo mundo, sob a liderança auto-nomeada do próprio Donald Trump - de quem havia de ser? À margem do encontro de Davos, o presidente americano montou um show diplomático para o qual procurou carrear os parceiros mais complacentes. 

Por uma vez, a Europa hesitou. Com a agressão das taxas alfandegárias e o desplante das ambições sobre a Gronelândia, a União Europeia, um tanto ofendida, distanciou-se inicialmente do projeto de Trump. Mas o que tem de ser tem muita força e, com o tempo, num lógica clássica da flexibilidade da vontade perante os poderes fáticos, a ética foi colocada na gaveta. Discretamente, a União informou ir ser "observadora" do Conselho da Paz. 

O Conselho da Paz, para quem tenha um mínimo de literacia em relações internacionais, é nada mais nada menos do que um órgão com a intenção óbvia de vir a substituir-se, no plano dos factos, às Nações Unidas. Trump pretende impor a sua estrutura ao mundo e desqualificar uma organização global que, sem tutelas imperiais, tem servido de plataforma de representação útil para 193 países. A ONU atravessa um impasse, é certo, desde logo quando os membros permanentes do seu Conselho de Segurança, a começar pelos Estados Unidos e a Rússia, a utilizam à la carte. Mas é o que temos e importa notar que há muito mais Nações Unidas para além do seu Conselho de Segurança. 

Em tudo isto, por onde anda Portugal? Há um padrão que se repete. O nosso país, seja a América o que ela for, vive subordinado a uma postura simples: nunca se colocar numa posição que suspeite poder desagradar a Washington. Não é sequer afrontar os EUA; é tentar adivinhar como reagiria a América, se acaso suspeitasse que existimos, caso ousássemos pensar pela nossa própria cabeça, de forma minimamente dissonante com o “amigo americano”. É o que se pode chamar a doutrina da subordinação preventiva. 

Não é de hoje. Em 2003, Portugal acolheu nas Lajes a cimeira que selou a invasão do Iraque, numa conferência de imprensa que ficou para a história infamous da subserviência ocidental. O anfitrião era o governo português de então. A ONU tinha sido ultrapassada, o direito internacional ignorado. E Portugal, orgulhosamente, ofereceu palco a esse atropelo, na ilusão de que a visibilidade diplomática compensaria a abdicação de princípios. A História não foi generosa nessa apreciação. 

Passados mais de vinte anos, Portugal anunciou agora que, tal como alguns escassos países europeus, vai ser "observador" do Conselho da Paz de Trump. Por um segundo, tinha tido a ingénua esperança de que, por um mínimo de dignidade, Lisboa se tivesse lembrado de que é português o secretário-geral da ONU - a organização que Trump abertamente diaboliza. Mas não. A cerviz dobrou de novo e, depois do vexame que foi a atitude portuguesa no caso da Venezuela, a política externa portuguesa revelou, com este governo, o que é - ou melhor, que não existe, que se resume a um fugir por entre as pingas e a um seguidismo subserviente face a Washington. 

Nas Lajes, pelo menos, havia a desculpa da ingenuidade. Hoje, não há.

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