Anda por aí uma polémica sobre o lugar da língua inglesa nas universidades portuguesas. Não vou entrar nela - em especial no que toca à questão da designação das escolas de economia e gestão. Neste debate, sinto que há, por vezes, um certo deslumbre provinciano, travestido de elitismo snobe. Mas existe também uma realidade incontornável, da qual me fui apercebendo ao longo dos anos: as universidades portuguesas não conseguem atrair alunos estrangeiros - que em alguns casos são essenciais à sua própria sobrevivência - se não ministrarem grande parte dos cursos em inglês. Tão simples como isto. Tem inconvenientes? Claro. Mas é a vida.
O inglês “ganhou a guerra”, como os orgulhosos franceses acabaram por aprender melhor do que ninguém. Tornou-se o esperanto das relações internacionais, além de ser a verdadeira língua dos negócios. Há por aí tanta coisa escrita sobre o assunto que me dispenso de sublinhar o óbvio. Prefiro contar uma história pessoal.
Desde que me aposentei, em 2013, tenho colaborado com empresas portuguesas que operam no mercado internacional. Com exceção de uma delas - e apenas por alguns anos -, em todas as restantes os documentos de trabalho são redigidos exclusivamente em inglês. É essa a língua comum aos administradores de diversas nacionalidades, e é também essa a língua do léxico técnico partilhado pelas consultoras internacionais com que as empresas inevitavelmente trabalham.
Há termos e expressões da gestão de que naturalmente se conhecem os equivalentes em língua portuguesa, mas que simplesmente deixaram de se usar. Por isso, para um ouvinte exterior, uma conversa empresarial, mesmo entre portugueses, pode muitas vezes estar recheada de expressões britânicas: "Para entregarmos o Ebitda e o Ebit em linha com o guidance ao mercado, temos de manter o Capex disciplinado, assegurar um cash flow robusto, atingir o break-even nos novos projetos, proteger a margem e garantir que o Roic acompanha o crescimento do top line". Construí esta frase com algum excesso de linguagem "cifrada", mas muitas vezes este é registo normal de gente que cruzamos em reuniões de empresas. Embora ande a trabalhar nisto há mais de 13 anos, confesso, aqui entre nós que ninguém nos ouve, que ainda há coisas que às vezes me escapam...
A história que quero aqui deixar é ainda sobre o uso do inglês em ambiente empresarial e passou-se numa reunião da administração de uma das maiores multinacionais portuguesas.
À volta da mesa, em Lisboa, estavam reunidas pouco mais de uma dezena de pessoas. Num videowall, participavam, à distância, alguns em outros continentes, cidadãos de várias nacionalidades - um ou outro seria administrador da empresa, mas eram sobretudo diretores regionais que iam sendo chamados ao debate, conforme os pontos da agenda. Os documentos e gráficos que todos tínhamos nos nossos iPad eram exclusivamente em inglês. As intervenções, sem exceção, também.
A certa altura, por uma rara coincidência, todos os participantes estrangeiros tinham deixado de participar na reunião, mesmo aqueles que estavam à distância. Só ficámos portugueses. Eu era então um dos membros mais recentes e estava ainda com um olhar algo exterior aos hábitos da casa. Talvez por isso, terei sido o único a aperceber-me de que todos continuámos - creio que por mais de uma hora - a intervir exclusivamente em inglês. Podíamos ter mudado para português? Sim, mas iria ser uma imensa e insensata confusão referirmo-nos, em português, a assuntos que estavam em textos escritos apenas em inglês. A menos que todos passássemos àquele linguagem mesclada que caricaturei atrás.
Lembro-me bem do momento em que a pessoa que presidia à reunião quebrou o fluxo da conversa em inglês e disse, em bom português: “Bom, parece que concluímos a nossa agenda. Até à nossa próxima reunião!”
E lá saímos, à conversa, comigo a contar a alguém, imagino, alguma anedota ou historieta divertida no elevador. Daquelas que só têm graça ditas em português.
