Percebo que haja pessoas que tenham razões para não gostar do Acordo Ortográfico que, desde há bem mais de uma década, é utilizado, já com normalidade, nas publicações oficiais e em todos os níveis de ensino em Portugal.
Contudo, tenho dificuldade em entender por que razão muitas dessas pessoas, em lugar de manifestarem essa sua discordância com serena urbanidade, adotam, com grande frequência, uma linguagem agressiva e às vezes insultuosa, seja para com os defensores do Acordo, seja na qualificação do próprio diploma normativo, adjetivando-o de forma ácida.
Será que isso revela o seu desespero, por terem percebido que já perderam a parada?
Curiosamente, o contrário não parece acontecer: não vejo, em regra, os defensores do Acordo dizerem coisas desagradáveis dos detratores da norma. Por que será?
Francisco, quando se diz que são retrógrados, sem discutir uma linha das alterações...
ResponderEliminarRetrógrados, caturras, preguiçosos, nacionalistas, avessos à mudança, velhos do Restelo, bafientos, etc. Tem estado desatento, Francisco. É isto que se vê por aí, em vez de se discutir as normas alteradas. Disso os defensores fogem a sete pés.
ResponderEliminarOs detractores ão agressivos porque não gostam da nova norma e consideram difícil que ela seja abandonada.
ResponderEliminarOs defensores estão tranquilos porque acham que a nova norma não corre perigo de ser abandonada.
Creio que isso resulta de não haver do outro lado interlocutores capazes de defender o acordo (não respeitado, sublinhe-se) de forma articulada. Havia de ser interessante ler Eça ou Voltaire suprimidas as farpas.
ResponderEliminarDe qualquer modo, vivendo o quotidiano em Francês e Inglês, 5/6 dos meus livros em Português estão na ortografia anterior a 1990, e são sobretudo esses que o meu filho lê. Digo-lhe que, quando hesitar, se socorra do Francês e do Inglês para escolher a ortografia mais pertinente. Tenho muita pena, mas: para quem é, bacalhau não basta.
Eça era o sujeito que clamava contra tirarem-lhe o "Y".
EliminarEça, o que se escrevia Queiroz e agora se grafa Queirós...
A traição!!!
O que é mais curioso é que nem o Valéry nem os Monty Python tiveram de se incomodar com picuinhices destas. Povos retrógrados que têm, pelos vistos, outras prioridades. Essa é que é essa.
EliminarSó na “ortografia anterior”? Isso é um bocado limitado. Eu tenho em casa livros de dois ou três acordos ortográficos atrás, ou sem acordo. Estive, por acaso, há uns dias a reler o Assassinos da Beira, do Joaquim Martins de Carvalho, numa edição de finais do Século XIX. Ler as cantigas de Amigo do Afonso X, no original, é que já me cansa um bocado... Enfim, não tenho um fetichismo especial por qualquer um dos acordos ortográficos e consegui perfeitamente adaptar-me à última. Nunca me deu para, ao ler uma obra, começar a pensar “Olha, falta aqui uma consoante habitual. Estou muito zangado. Vou deixar o livro”. É um desperdício de tempo e de recursos.
EliminarAo anónimo: a bem da verdade, não era Eça, era Teixeira de Pascoaes.
EliminarCom todo o respeito, permito-me discordar.
ResponderEliminarO AO/90 foi aprovado em Portugal pela Resolução da Assembleia da República n.º 26/91 que o ratificou, e posteriormente implementado no país por actos legislativos, como a Resolução do Conselho de Ministros n.º 8/2011, que determinou a sua aplicação geral na administração pública e a Resolução da Assembleia da República n.º 35/2008, para a aplicação no sistema educativo.
As Resoluções (CM ou AR) vinculam apenas os membros do Governo e os órgãos da Administração Pública, mas não têm o mesmo peso que um diploma legislativo, não são Leis e Decretos-Lei que têm força legislativa para criar ou alterar leis que afectam directamente os cidadãos de forma geral.
Realço ainda que o AO/90 deveria ter entrando em vigor a 1 de Janeiro de 1994, mas, nessa altura, só Portugal, Brasil e Cabo Verde o tinham ratificado, pelo que foi necessário aprovar dois protocolos de alteração, o segundo dos quais, de 2004, que prescindia da aplicação unânime e reconhecia a entrada em vigor a partir de três ratificações, contrariando o disposto no acordo inicial que exigia a ratificação por todos os estados membros para a sua plena entrada em vigor.
Angola e Moçambique continuam sem ratificar o AO/90 e os restantes São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau e Timor leste, embora já o tenham ratificado, continuam sem definir datas para a sua aplicação.
Acordo?
ResponderEliminarTal como no acordeão cada um toca nas teclas que sabe ou que lhe dão mais jeito!
Acrescento, se me é permitido, que por causa de o AO/90 não ter sido aprovado nos termos que estão constitucionalmente previstos para a aprovação de acordos internacionais, mas simples Resoluções não vinculativas para a generalidade dos cidadãos, houve magistrados como o conhecido juiz Rui Teixeira a obrigar os intervenientes num julgamento a escrever no português pré-acordo ortográfico, como antes dele, um magistrado de Viana do Castelo obrigou um advogado a corrigir um texto escrito em “português AO/90”.
ResponderEliminarOs episódios motivaram queixas no Conselho Superior da Magistratura, que acabou por decidir que os juízes não podem, por um lado, ser obrigados a escrever segundo as regras do acordo ortográfico, mas também não podem, por outro lado, obrigar os restantes intervenientes a escrever segundo a antiga ortografia.
Toda esta confusão, uns a seguir o AO/90, outros a escrever segundo a antiga ortografia, teria sido evitada se as normas da aprovação dos acordos internacionais tivessem sido cumpridas.