O João era o mais velho de três irmãos, três primos que já partiram deste mundo. Pertencia ao ramo de Chaves da família da minha avó materna. Uns anos mais velho do que eu, a geografia das nossas vidas acabou por nos privar de convívio regular depois da infância, pelo que só nos encontrávamos de quando em vez.
Era de uma simpatia extrema, caloroso, com um modo de falar muito tributário dos tempos flavienses, tique que lhe ficou para toda a vida. Belo e loiro, dizia-se ser um sortudo junto do sexo a que, equivocamente, alguns chamam oposto. E, ao que constava, ele soube aproveitar bem essa condição.
Da sua vida, e de algumas das voltas que ela dava, eu ia tendo notícias quando, em Chaves, passávamos de visita à sua avó, a tia Tininha, que fazia sempre questão de nos dar relatos grandiloquentes do percurso do neto. Alguma instabilidade nas relações sentimentais e o carácter um pouco errático dos seus sucessivos empregos - creio que ligados à hotelaria num certo período - criou em mim uma ideia de inconstância na vida do João, que eu um dia soube estar a tentar fazer futuro no Brasil.
E, um dia, o Brasil saiu-me na rifa diplomática. Como é natural, procurei saber de quem, da família, por ali andava. O João era uma dessas pessoas e acabou por ser ele a procurar-me. O destino tinha-lhe trazido algumas más surpresas e a situação profissional em que se encontrava não era brilhante. Alguma coisa foi possível fazer para melhorar o que não ia bem.
Num fim de semana passado no Rio, decidi convidar o João para almoçar. Pensei que acharia graça em ir ao Copacabana Palace, um lugar luxuoso e sempre na moda. Eu tinha o ensejo de lho proporcionar; ele teria assim a oportunidade de viver essa experiência. Constatei que o João nunca lá tinha entrado.
Foram duas ou três horas muito bem passadas, em que “demos a volta” à nossa família comum, relembrámos os tempos de infância nas Pedras Salgadas, a “casa das tias”, com historietas cruzadas. Fez-me muito bem ter estado com o João, nesse que viria a ser o nosso último encontro. Saí meses depois do Brasil e a saúde não tardaria a pregar ao João uma derradeira partida, como mais tarde vim a saber.
A razão por que hoje me lembrei do João foi ter acabado de ver a notícia da morte do estilista Valentino.
Nesse final de manhã no Copacabana Palace, na sala de refeições do Pérgula, o João disse-me, a certa altura:
- Olha lá! Aquele não é o Valentino?
Olhei e, de facto, numa mesa não muito distante, lá estava o costureiro italiano, que ambos só conhecíamos das revistas sociais. Aquela cara e aquele cabelo eram inconfundíveis. Estava numa mesa de quatro pessoas, com o ar grave de sempre e uma camisa que recordo escura.
O João olhou e reolhou e deixou cair, para minha surpresa:
- Sabes, no fundo, tenho pena dele.
Que estranho! Perguntei-lhe porquê. A resposta desarmou-me:
- Um tipo como ele, que passou uma vida rodeado de mulheres lindas, e é “veado”. Não achas que é de ter pena?
Não sei se o Valentino ouviu a minha gargalhada. Era o João, politicamente incorreto como era vulgar na nossa geração, ele, o “conquistador” da família - como o meu pai carinhosamente sempre lhe chamou -, no seu melhor.
A morte de Valentino fez-me hoje ter saudades do meu primo João.

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