Ficará para a ciência política, com a distância do tempo, refletir um dia sobre as razões pelas quais um eleitorado que tinha dado uma maioria absoluta ao Partido Socialista alterou, num prazo que foi curto, o sentido do seu voto e veio a entregar o poder a uma direita sem um especial carisma.
Pelo meio, claro, ficaram algumas trapalhadas, bastantes erros e o dedo não inocente de certas instituições. Mas isso não justifica tudo e são contas de outro rosário.
Para o que aqui nos interessa, a reversão radical da vontade popular foi profunda. E foi assim que, embora sem uma força expressiva, a direita chegou a S. Bento.
O Partido Socialista ficou isolado, tanto mais que as forças à sua esquerda acentuaram a sua própria irrelevância. Também a nova liderança do PSD logo cuidou em marcar distância, entendendo qualquer aproximação ao PS como tóxica para a nova correlação de forças. Com a extrema-direita e a direita radical-liberal a ajudarem à festa, os socialistas perceberam que estavam em pousio político. E, claro, vão confiando, como Camões dizia, que "atrás dos tempos vêm tempos e outros tempos hão-de vir".
Entretanto, o país virou à direita. Para esse hemisfério político, ajudado por alguma comunicação social complacente, que cavalga as audiências, as perceções e o culto do escândalo, a culpa do estado das coisas é, claro, o "socialismo".
O "socialismo" é tudo: é Sócrates e os cifrões, é Costa e o lugar europeu, é Pedro Nuno Santos e as viúvas da Geringonça, até chegar a José Luís Carneiro, sobre o qual o dossiê de culpas ainda é magro, mas, com tempo, lá iremos. Pelo meio, surge ainda a memória de Mário Soares, o tal que "entregou o Ultramar", e de Sampaio, culpado por ter enviado Santana Lopes a banhos para o areal da Figueira. E outros, vivos ou mortos, porque "se não foste tu foi o teu pai".
Acuados pelo crescente horror público ao conceito, alguns socialistas logo se refugiaram no rótulo de sociais-democratas, último abrigo semântico até que a tempestade passe. (É o equivalente ao centro-direita, do outro lado do espetro). Mas isso não os livra de continuarem encharcados pela tempestade diabolizante. Hoje existe mesmo um grande país contra o "socialismo", não vale a pena esconder - e só o facto de eu ter usado aspas é a prova de que muita coisa mudou.
O caminho para Belém
Estas presidenciais vão ser um belo barómetro.
Perante o óbvio "embarras du choix" dentro do Partido Socialista, António José Seguro avançou. Muitos socialistas de carteirinha franziram o sobrolho. Outros suspiraram de alívio: graças a Seguro, e só a ele, o PS, sem precisar de avançar com ninguém, tinha na liça um seu nome.
Curiosamente, era alguém que nada tinha ver com a liderança da última década, muito menos com o socratismo, cujo grupo parlamentar, que herdara em 2011, quando lhe caiu nos braços um partido em frangalhos, lhe infernizara a chefia. Seguro foi acusado, por alguns setores do PS, de ter sido complacente com a direita que se tinha coligado com a Troika. Como se acaso tivesse sido ele quem assinou o "memorando de entendimento", que recebera como presente envenenado. (Não, não me venham com o PEC IV!).
No mundo dos socialistas sem aspas, Seguro é um social-democrata. Muita direita decente percebeu isso, no instante após a primeira volta presidencial, não hesitando em nele recomendar o voto. Só uma direita trauliteira e mentirosa, que parte do princípio de que vivemos num país de imbecis, é que tem o desplante e a falta de decoro de o acusar de radicalismo, de estar preso a rabos de palha ideológicos, de ser uma espécie de "cavalo de Tróia" dos "socialistas" - e aqui voltam as aspas.
E o Brasil?
Por esta altura, o leitor deve estar a estranhar o título que dei a este texto. A explicação é simples.
No Brasil de hoje, o ministro das Finanças chama-se Fernando Haddad. Tinha sido um excelente ministro da Educação de Lula, depois de uma carreira académica prestigiada. Em 2018, Haddad foi escolhido pelo PT para seu candidato presidencial. Lula estava preso, o Brasil vivia em polarização política extrema.
A direita brasileira não tinha conseguido produzir um candidato que, simultaneamente, tivesse uma "ficha limpa" no plano ético e fosse mobilizador. E foi então que, das catacumbas dos saudosos da sinistra ditadura militar, surgiu uma figura primária, com um discurso populista, uma caricatura do pior que a direita brasileira conseguira decantar.
E, de um dia para o outro, mais de metade do Brasil se entregou nas mãos de um demagogo incompetente, negacionista face à pandemia, que se aliou a setores militares para um golpe que lhe assegurasse o poder, depois de Lula o ter recuperado nas urnas. O mundo riu-se do ridículo da escolha do Brasil, mas foram os brasileiros quem a teve de suportar.
Nem Ventura é Bolsonaro, nem Seguro é Haddad. Contudo, e uma vez mais, com alguns a colocarem-se numa "neutralidade colaborante", a acusar o "socialismo" (voltam as aspas) e o perigo do seu regresso montado nessa perigosa figura que é Seguro, subsiste o risco da insanidade poder levar o país a uma tragédia.
Em tempos de chumbo, Chico Buarque pedia "um cheirinho de alecrim", levado de Portugal. O dias de hoje são menos sombrios, mas nunca fiando. Por isso, do Brasil que, pelo voto, conseguiu esconjurar a ameaça da extrema-direita, apetece-me receber um cheirinho de goiabada.
(Artigo hoje publicado na edição on-line do jornal "Expresso")
