Um dia de julho de 1993, na embaixada de Portugal em Londres, recebi um telefonema de António José Seguro. Não o conhecia pessoalmente, apenas sabia que era o líder da Juventude Socialista.
Seguro queria falar com o embaixador António Vaz Pereira. Expliquei-lhe que, estando ele em férias, era eu, como ministro conselheiro, que chefiava a embaixada.
Explicou-me estava a organizar a vinda a Portugal de Salmon Rushdie, o escritor que, ao publicar o livro "Versos Satânicos", provocara, anos antes, a ira do fundamentalismo religioso iraniano, que sobre ele decretara uma "fatwa", uma decisão que estimulava os muçulmanos shiitas radicais a ajudarem à sua liquidação, onde quer que ele estivesse. Vivia sob ameaças constantes de morte, sob proteção policial, viajando frequentemente sob nome falso.
Seguro disse-me que a Juventude Socialista estava a organizar, no Porto, um congresso mundial das Juventudes Socialistas, sendo Rushdie o seu convidado principal. A temática da liberdade de expressão e criação estaria no centro do congresso. O próprio presidente da República, Mário Soares, ir-se-ia encontrar aí com Rushdie.
O acolhimento e a segurança de Rushdie em Portugal estavam totalmente assegurados. Ele próprio estava a articular o assunto com o comandante-geral da PSP, general Monteiro Pereira. Era uma operação com alguma delicadeza, atendendo às ameaças que impendiam sobre o escritor. O futuro veio a provar o bom fundamento dessas preocupações.
Por que me estava a telefonar? Porque a viagem de Rushdie, que viajaria sob um outro nome, como era sabido pelas autoridades britânicas que o protegiam, estava a encontrar algumas dificuldades no balcão da TAP, em Londres, como lhe fora comunicado por parte das pessoas que ajudavam o escritor. A organização pretendia assim obter um contacto com alguém responsável no escritório da companhia, com quem pudessem tratar diretamente o assunto, de forma personalizada e discreta. Seria possível obter-lhes esse contacto?
Claro que era. Falei com o delegado da TAP em Londres, expliquei em linhas gerais o assunto e perguntei se podia dar o seu contacto a Seguro. Não meti nenhuma "cunha", nem pedi que fizessem nada de especial. Nem eu sabia se aquilo que os amigos de Rushdie pretendiam da TAP era possível ou não. A companhia que ajuizasse, depois da conversa. E, com a anuência deste, passei o número de telefone do delegado da TAP ao líder da JS.
E esqueci o assunto. Pelos jornais, dias depois, vi que Rushdie tinha ido ao tal encontro no Porto, de cuja notícia encontrei agora esta curiosa imagem.
Pensava eu que o assunto estava encerrado até que, dias depois, de Lisboa, sou informado que tinha sido ordenado, contra mim, a pedido do gabinete do primeiro-ministro, um inquérito por alegada "pressão" feita junto da TAP, num caso que tinha contornos de afetar a "segurança nacional". Liguei de imediato ao homem da TAP, que me deu a sua palavra de honra de que nada nesse sentido tinha dito a Lisboa. Aliás, como é sabido, as embaixadas não têm a menor autoridade sobre as delegações da companhia, com as quais apenas o bom senso manda que haja as melhores relações.
O tom de Lisboa era "grave e sério", como o Rui Veloso cantava no "Porto Sentido". E o MNE da época, numa subserviência face àquilo que emanasse de S. Bento, ali estava, a "tirar-me satisfações". Que devo ter dado, ao meu estilo, que costumava ser algo irónico e não muito suave, como pelas Necessidades era sabido. E o assunto terá morrido, no vazio da sua óbvia irrelevância. Ah! "For the record": o primeiro-ministro de então chamava-se Cavaco Silva.
Menos de dois anos e meio depois, vim finalmente a conhecer, em pessoa, António José Seguro. Foi na nossa comum tomada de posse como secretários de Estado do governo de António Guterres.
Já passaram mais de vinte anos e não me lembro se alguma vez, nas muitas conversas que tive entretanto com António José Seguro, lhe referi este incidente. Agora, esse ensejo é cada vez mais improvável. É que se o país tiver um módico de senso, ele vai ter mais que fazer nos próximos anos. Com Cavaco Silva e eu a votar nele, claro.

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