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sexta-feira, abril 21, 2017

Em perspetiva


O mundo entretem-se, por estes dias, a listar as reversões com que Trump confirma a natureza errática da sua política externa, agora entregue, ao que tudo indica, aos militares e àqueles que fabricam aquilo com que estes exercem a sua atividade. Há, porém uma “promessa” que Trump parece determinado a cumprir, em absoluto: pôr de lado qualquer consideração pelas instituições multilaterais, como a ONU, e assumir em pleno que a força é o fator da sua legitimidade, como decorre da arrogância jingoísta com que brinca com o fogo da segurança de todos nós.

Assim, em contagem decrescente para a próxima bomba do império de Mar-a-Lago, dedicamo-nos também a olhar o açambarcamento do poder por Erdogan, que desenha na Turquia, dia após dia, uma evidente “democratura” (ditadura travestida de ditadura), à qual ninguém parece saber como reagir.

Finalmente, as eleições francesa de domingo, mesmo que não conduzam Le Pen ao Eliseu, trazem-nos a trágica perspetiva da extrema-direita poder vir a condicionar fortemente  o futuro de um país sem o qual - diga-se isto com grande clareza - a Europa comunitária deixará de existir como a conhecemos, a curto prazo.

Distraído com estes cenários, o mundo parece estar a esquecer, contudo, a gravidade daquilo que se passa no Brasil.

Ora os últimos dias, nesse lado do Atlântico, trouxeram por ali ao de cima - como nomes, números e datas - aquilo que era um verdadeiro "segredo de Polichinelo": que, desde há décadas, a vida partidária e muitas das grandes figuras do Estado brasileiro eram financiadas ilegalmente pelas grandes empresas. A denúncia titulada pelos principais responsáveis da Odebrecht, a maior construtura do país, abrange quase toda a classe política - de presidentes da República a autarcas, passando por ministros, governadores e deputados. Estamos perante um escândalo de consequências por ora inimagináveis para o futuro do sistema político do país. A menos que o processo venha a ser travado através daquilo que no Brasil se designa sugestivamente por um "acordão", não fica muito claro como é que vai ser possível desatar este nó cego. Alguns pensam mesmo que, perante o descrédito acrescido que estas novas revelações trazem para a classe política, o ambiente começa a estar propício para a emergência de alguém, surgido de fora do sistema, que possa visar a eleição presidencial de 2018, tal como aconteceu no caso de Trump. Como amigo do Brasil (e da sua democracia) preocupa-me que algumas pessoas sensatas que por lá conheço se sintam cada vez mais tentadas a colocar também nos trilhos do futuro poder político algumas figuras militares, tidas como parte da solução. As tragédias podem ter várias roupagens, mas as tragédias fardadas costumam ser mais dolorosas.

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