O presidente da República fez, há dois dias, uma proclamação
de europeísmo em Estrasburgo. Fez bem. Portugal continua a ser um dos Estado da
União onde se mantém acesa, na opinião pública, alguma chama europeia. Contudo,
não serão necessárias sondagens de opinião para se constatar que a desilusão
face à Europa já marca hoje muitos cidadãos portugueses, que se revelam
desencantados com as virtualidades do processo de integração. Tenho a certeza de
que esses cidadãos estão equivocados quanto ao sentido do saldo real destes 30
anos, mas, na vida de um país democrático, as convicções profundas de alguns
não valem mais do que as perceções impressionistas de outros.
A Europa comunitária mudou imenso desde a nossa adesão.
Tornou-se mais ambiciosa em matéria de políticas comuns e alargou-se
geograficamente. A pretexto destas alterações, os seus tratados foram revistos
e a relação interna de poder foi drasticamente afetada. Com a entrada de novos
“sócios”, o clube também mudou de natureza, integrando novas sensibilidades,
bem como as questões decorrentes das novas vizinhanças. A Europa está, assim, em
tudo, diferente. Na crise do euro, a divisão Norte-Sul foi evidente. Na adesão
diferenciada às políticas, o caso britânico é exemplar. Na questão dos refugiados,
fica a sensação de que os países europeus vêm de civilizações diferentes, nos valores
e dimensões humanistas. A tudo isso, soma-se um crescente desrespeito pela
proteção das minorias, pela liberdade dos media,
pela separação de poderes, tudo sob o olhar neutro de Bruxelas. Que Europa é
esta?
Perante um projeto que se transmutou, o que fez Portugal? Refletiu
a sua estratégia de integração, questionou caminhos, ponderou opções que eventualmente
estivesse ao seu alcance fazer? Nada disso. Numa espécie de fé inabalável nas
virtualidades intrínsecas do modelo integrador, Portugal, qual Maria, “foi com
as outras”, seguindo um destino tido por inexorável. Manteve, desde o primeiro
momento, com todas as colorações políticas, uma dependência indefectível a
Berlim, que começa a afirmar-se como o sucessor natural do tropismo
pró-britânico que nos marcou por séculos. E, no restante, limitou-se a escolhas
pontuais que nunca colocassem em causa esse vínculo essencial.
É possível outro caminho? É desejável? Há mais vida para
além da relação preferencial com a Alemanha? Não sei, mas é preciso discutir.
Há que questionar o até agora “pensamento único” dominante em matéria de
estratégia europeia. A ideia é muito simples: se a Europa mudou tanto, se hoje alguns
a querem mais flexível, pondo em causa os seus equilíbrios, não seria tempo de,
entre nós, pararmos um pouco para pensar a nossa posição nela à luz dos nossos
interesses?
