sexta-feira, 8 de abril de 2016

Draghi em Belém

Mario Draghi é um funcionário europeu. Deve o lugar que ocupa, na presidência do Banco Central Europeu, à confiança do governo da Alemanha. Sem ela não teria sido nomeado em substituição do ortodoxo Trichet. Sem ela não teria continuado, depois da demissão de um diretor-geral alemão do BCE, em oposição às suas primeiras medidas. E, claro, sem a confiança de Angela Merkel não estaria hoje a praticar o "quantitative easing", que tem dado uma certa estabilidade (embora relativa) à zona euro, depois de sabiamente ter afirmado, para o ouvido dos mercados, que faria "whatever it takes" para proteger a moeda única.

Como funcionário europeu, Draghi não tem estados de alma. Conduz uma política tão bem quanto sabe, não pondo em causa a filosofia de base que também prevalece no eurogrupo, idêntica à que é maioritária no seio do Conselho Europeu. Verdade seja que Draghi, em algumas decisões, testa os limites do seu mandato. Mas fá-lo, sempre e só, porque sabe que tem a Alemanha por detrás - e a voz da Alemanha está para o euro como a voz dos EUA está para a NATO.

O presidente Rebelo de Sousa quis trazer Draghi à primeira reunião do seu renovado Conselho de Estado. A presença deste convidado, na inauguração do novo tempo, não me pareceu excessivamente feliz. Mas compreende-se. O Conselho não reúne com frequência e vive-se um tempo em que as questões financeiras são prementes, nomeadamente as que dependem das decisões das instâncias europeias, isto é, do BCE e da direção-geral da Concorrência da Comissão Europeia. Se estas duas entidades têm hoje, por muito absurdo que isso possa parecer, uma palavra determinante - e isto é um "understatement" - sobre elementos fundamentais da nossa soberania, a moeda e a banca, é mais do que natural que o presidente da República quisesse ouvir Draghi e fazer com que ele também escutasse alguma coisa. Poderia tê-lo feito em privado. Trazê-lo ao Conselho de Estado foi, contudo, uma decisão que combinou com o governo, como é sabido. É minha convicção fundada que a menor oposição deste teria inviabilizado a presença de Draghi naquele órgão.

Imagino que o novo presidente da República esteja tão chocado como a generalidade dos portugueses com o absurdo custo que o recente caso Banif trouxe aos bolsos dos portugueses. E sabe-se que Rebelo de Sousa está longe de ser um leitor acrítico da bondade dos efeitos do programa de ajustamento. Draghi veio dizer sobre a situação portuguesa o que se esperava - não trouxe a menor novidade, isto é, disse o mesmo que quem manda na Europa pensa. E para que não houvesse dúvidas (evitando ser interpretado pelas fugas portuguesas de informação e porque responde perante os "powers that be" em Berlim), publicou logo a seguir que disse, imagino que para conforto dos que por cá tão obedientes foram aos seus conselhos e algum mal-estar de quem hoje dirige o país. Mas tudo bem. O importante é que não saiu da reunião de Belém sem ter percebido que, dentre as destacadas figuras que são conselheiros do chefe do Estado português, se vive um sentimento de escândalo e de injustiça face à política europeia no tocante à nossa banca, valha isso o que valer. Ao que já se sabe, Draghi ter-se-á furtado a responder neste âmbito específico. Mas ouviu e isso foi importante.