Não sei há quantos anos me habituei a ver surgir, nervosa e rápida, aquela figura magra, com um sorriso desdenhoso, que, aí pela uma hora da tarde, irrompe pelo perímetro do cruzamento entre o boulevard Saint Germain e a rue de Rennes, aqui em Paris. Dizem-me que anda também por outras paragens, mas nunca vi.
Quem, pela primeira vez me chamou a atenção para ele foi José Paulouro das Neves, ao tempo em que era embaixador em Paris, quando me trazia a almoçar ao Lipp. Nunca mais o perdi de vista, sempre que almoço por lá.
No braço, o Ali traz invariavelmente o "Le Monde" acabado de sair, mas igualmente, nos dias de saída, o "Le Canard Enchainé", o "Charlie Hebdo" e o "Le Parisien". Nunca o vi com o "Le Figaro", sei lá bem porquê.
Ali é paquistanês de origem. É um "ardina", como se diria na Lisboa de outros tempos. A peculiaridade que assume no modo como vende jornais - o que faz no Flore, no Lipp, no Deux Magots ou nos "nouveaux territoires" (Armani, etc) - está nas "bocas" que manda, sempre "mentiras" preparadas e ditas em alta voz, como se o jornal que vende as trouxesse.
Ouvi-lhe imensas coisas notáveis, como "Le Pen va chanter à L'Eurovision", "Sarkozy était dans la même chambre avec Strauss-Khan" e, há meses, quando também passei por aqui, "le Pape a été arreté". Hoje, mudou de estilo, havia uma notícia pessoal: "Aidez moi! Ils ont fermé mon offshore au Panama", além de outra, como sempre, política: "Hollande est candidat. Juppé vote pour lui"...
Só para comprar o "Le Monde" ao Ali, vale a pena vir a Paris.