sábado, julho 11, 2015

Tulipas, moinhos & cheques

O primeiro-ministro holandês deu mostras, há dois dias, de grande relutância em aceitar um acordo sobre a questão grega. Os Países Baixos, em matéria de dinheiros, não brincam em serviço e, manifestamente, corre-lhes nas veias um sangue de cifrões. Sei o que é discutir questões financeiras com os colegas holandeses, aliás gente sempre muito bem preparada, altamente qualificada e que sabe como levar a água ao seu moinho - água e moinhos, como é sabido, não faltam na Holanda...

Algures no primeiro semestre de 1996, durante a presidência italiana da União Europeia, os quatro responsáveis governamentais pelos Assuntos Europeus que, simultaneamente, eram os negociadores-chefes dos seus países no trabalho de negociação do Tratado de Amesterdão, foram convidados pelo ministro francês Michel Barnier para um jantar no esplendoroso Palazzo Farnese, onde está instalada a embaixada francesa em Roma. Era na véspera de uma reunião da Conferência intergovernamental para a discussão do novo tratado.

(Uma curiosidade: a França paga à Itália o equivalente a um franco antigo pelo aluguer do palácio romano Farnese e, em compensação, o Estado italiano "despende" o equivalente a uma lira, pela utilização, como embaixada em Paris, do deslumbrante Hôtel de la Rochefoucauld-Doudeauville, com a mais bela escadaria de mármore que alguma vez vi. Já ouvi franceses a dizerem que foi um "mau negócio", porque a lira se desvalorizou muito face ao franco...)

Além do anfitrião, o ministro francês para os Assuntos europeus, estiveram no jantar os secretários de Estado dos Assuntos europeus da Suécia e dos Países Baixos, respetivamente Gunnar Lund e Michiel Patijn, e eu próprio. Todos havíamos estado presentes nas reuniões do "grupo de reflexão" que, durante 1995, fez sugestões para a revisão do Tratado de Maastricht, o que havia criado entre nós uma certa cumplicidade pessoal.

O jantar, além de algum "small talk", era de trabalho, pelo que cada um suscitou as prioridades do seu país para a discussão que então se iniciava. Para o que aqui nos interessa, gostava de dizer que, entre vários outros pontos, insisti bastante na necessidade de uma Carta da Cidadania Europeia, a ser apensa ao tratado, a fim de destacar o valor acrescentado que, para cada cidadão, a pertença à União representava, a somar à sua própria cidadania nacional. O meu colega holandês foi aquele que me pareceu o menos entusiasmado com a ideia.

Acabado o jantar, eu e ele regressámos ao hotel onde, casualmente, ambos nos alojávamos, perto da Piazza Navone - o Raphael, coberto de exótica vegetação. Tomámos uma cerveja e eu, insistente, tentei convencê-lo da bondade da minha ideia sobre a Carta de Cidadania. Michiel Patijn, numa frase curta, sintetizou então as "prioridades" do seu país para o novo tratado: "Francisco, para nós, a Europa significa dinheiro!" Não podia ser mais esclarecedor.

Agora, ao ouvir o chefe do governo holandês, veio-me à memória a frase.

11 comentários:

  1. Atónita!05:17

    Só para a Holanda? Cadê os outros ...??
    E que me diz da Grécia? Ou todo este aviltante espectáculo desempenhado pelo governo grego, a que o mundo assistiu atónito (na verdade ainda assiste) não teve nada a ver com o dinheiro da Europa??? Ora faça-me o favor ...

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  2. como dizia o outro: "Elementar, meu caro Watson"!

    às vezes não percebo como é que há países que conseguem ter a fama de ter cultura humanitária, solidária, fraterna, evoluída, e ao mesmo tempo o proveito ?!

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  3. Anónimo10:39

    Com a sua permissão, Embaixador:

    https://www.youtube.com/watch?v=rkRIbUT6u7Q

    Cumprimentos,

    A.S.

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  4. ~~~
    Gostei de o ler, como é habitual, e de tomar conhecimento
    desse interesse, ávido de vantagens, do país dos diques,
    que luta teimosamente contra o mar...

    Terá sido a sua posição pre-definida de puros interesses económicos, mas na verdade, Tsipras deixou meia Europa bem
    confusa quando apareceu na passada segunda-feira na UE e em
    Estrasburgo, com um sorriso muito rasgado, um ar de regozijo
    não compatível com a penúria que despoletou a onda de pia
    solidariedade...

    O sorriso perturbador escondia um propósito algo sinistro:
    Tsipras aproveitou-se do voto grego para apresentar medidas
    ainda mais duras das que lhe haviam sido propostas...

    Então, que OXI foi aquele?!!

    Poderá ser um grande jogo económico
    visando a Grécia cansar-se, de vez, da união monetária -
    mas o facto é que deixei de confiar no SIRIZA e lamento.
    ~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

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  5. Anónimo12:50

    Uma coisa que se deve lembrar, os holandeses gostam de aforrar para melhor enfrentar os tempos de crise. Chegaram a publicar nos jornais que são os campeões da poupança na Europa. Eles poupam e têm um país muito desenvolvido e sempre com mais dinheiro. Seria útil que os gregos mandassem os seus políticos para lá estagiar periodicamente. Podia ser que assim aprendessem a poupar e não a gastar o que não têm.

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  6. Os ingleses também são mal compreendidos por darem prioridade ao deve e haver com a UE.
    Felizmente para eles que têm tido bons negociadores

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  7. Anónimo18:48

    Subscrevo inteiramente o anónimo das 12:50. Os senhores das "esquerdas" é que não! Pois eles estão habituados a gastar aquilo que os outros pouparam...

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  8. Anónimo02:05

    Caro Chico

    Estava uma vez (há uns tempos...) em Amesterdão com o adido de Imprensa do ministro das Finanças holandês. O homem só falava em dinheiro. Ora a língua holandesa para mim é uma doença de garganta. E que os países do Sul eram uns gastadores e só tocavam viola- Farto, fartíssimo de lhe aturar o paleio, perguntei-lhe se sabia de onde viera o famoso dinheiro.

    Não sabia. Foi quando lhe falei nos judeus sefarditas que tinham sido expulsos de Portugal, um país sulista. O homem engoliu em seco, deu-me as boas noites e foi-se em marcha acelerada. Acelerada? Quase em passo de corrida... Não sei se caiu nalgum canal, mas os jornais do dia seguinte não traziam nada...

    Abç

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  9. Anónimo00:08

    Já há cerca de 500 anos que os dutch nos têm sacado dinheiro. Adoptam as técnicas possíveis em cada contexto histórico: ou assaltam ou conspiram!

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  10. Anónimo07:15

    "Seria útil que os gregos mandassem os seus políticos para lá estagiar periodicamente. Podia ser que assim aprendessem a poupar e não a gastar o que não têm."

    meu caro mande tambem para o curso a maria luis a tal dos swaps!

    cumprimentos

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  11. Anónimo11:44


    Adoro o hotel Raphael, cheio de caráter e charme e com uma localização estupenda. Foi lá que, quase 19 anos atrás, teve lugar o copo d´água que se seguiu ao batizado do meu sobrinho mais velho (na Igreja de São Luís dos Franceses). Na altura, a minha irmã e o meu cunhado (francês) viviam em Roma.

    Cumprimentos,

    Luís Quartin Graça

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