A questão surgiu, há dias, num ambiente onde pontuavam algumas figuras das artes: quem será o eleito para pintar o retrato de Cavaco Silva, que integrará a galeria onde, em Belém, se acolhem os óleos que consagram a imagem dos antigos presidente?
Não podendo dizer-se que os presidentes se medem pelos retratos, a escolha do pintor tem frequentemente algum significado. Por isso, a pergunta, no tocante a Cavaco Silva, é pertinente: que artista emprestará o seu pincel à figura do ocupante que sairá de Belém em 2016?
Columbano Bordalo Pinheiro imortalizou Manuel de Arriaga, Teófilo Braga e Manuel Teixeira Gomes, figuras da cultura de quem era amigo. O retratismo da ditadura deu tempo a que Henrique Medina pintasse Carmona e Américo Tomaz, mas também que regredisse até à Primeira República e fizesse o retrato de Canto e Castro e Sidónio Pais - curiosamente, um chefe de Estado com tendências autoritárias e um presidente da República... monárquico. Mas também pintou António José de Almeida. Ainda na mesma escola, Malta foi responsável por Craveiro Lopes. Um nome menos sonante pintou Bernardino Machado (Martinho da Fonseca).
Com a Revolução de abril, Spínola escolheu Jacinto Luis, um amigo da casa. Costa Gomes escolheu Joaquim Rebocho e não foi feliz. Eanes optou por Luís Pinto Coelho, num estilo artístico social abastado, que ia bem com o ar do tempo e angulou ainda mais a rigidez do general. Soares rompeu o rigor figurativo e escolheu a heterodoxia alegre de Pomar. Sampaio colocou-se nas mãos prestigiadas e imaginativas de Paula Rego e deu no que deu.
E Cavaco? Quem o imortalizará?
ps - a obra que ilustra este texto é de Magaly Gouveia. Não é a pintura oficial.
