Há uns meses, fui convidado por um amigo estrangeiro a jantar na sua casa na rua António Maria Cardoso, em Lisboa. Sabia que era um apartamento novo e, durante alguns dias, andei um pouco angustiado, não fosse dar-se o caso de ser no edifício onde estivera instalada a PIDE. Não era, era em frente.
Não faço parte dos muitos cidadãos que foram perseguidos pela polícia política da ditadura, pelo que a minha relação com aquele sinistro edifício é apenas emocional. Só por uma vez lá entrei, como já aqui contei. Nem por isso, porém, um jantar por ali deixaria de ser incómodo para mim.
Hoje, estive na nova Pousada que o grupo Pestana instalou no edifício que, até há anos, foi o Ministério da Administração Interna, na rua do Arsenal, esquina com a rua do Ouro. Mesmo em frente, em 1908, o rei dom Carlos e o príncipe Luís Filipe morreram sob as balas de Alfredo Costa e Manuel Buíça, que também dali saíriam cadáveres.
O edifício, antes de ser do MAI, foi do Ministério do Interior da ditadura, por onde passou, durante décadas, a tutela da repressão e do arbítrio. Ao passear no seu interior, não tive a mesma sensação que as salas do que foi da PIDE me provocariam. Mas nem por isso deixei de pensar que por ali circularam, em busca de instruções para as suas patifarias, Silva Pais ou Barbieri Cardoso, recebidos por Santos Júnior ou Gonçalves Rapazote.
Ter muita memória, o que é diferente de ter boa memória, não deixa de ser um peso.
