Olhando em perspetiva, há que convir que o resultado do
referendo grego constitui o mais importante desafio com que a União Europeia se
confronta, nas suas décadas de existência. O alargamento a Leste, outro desses
grandes desafios, resolveu-se formalmente, não obstante o choque de diversidade
que induziu. Este desafio tem, porém, uma natureza muito diferente.
Foi importante que a votação grega fosse inequívoca. Um
resultado equilibrado daria a sensação de que a vontade nacional estava
dividida. As coisas ficaram muito claras: a Grécia recusa receitas de
austeridade e quer soluções que rompam com os modelos tradicionais. À mesa de
Bruxelas estará um parceiro que, mais do que no passado, irá dizer,
alto-e-bom-som, que não aceita, não apenas aquilo que pelos outros lhe é
proposto que faça, se quiser continuar a ser financiado, mas, essencialmente,
que não se revê na filosofia subjacente ao funcionamento do “eurogrupo”. E, legitimada
agora por um expressivo voto popular, a Grécia quer mudar as regras do jogo,
propondo abrir outros tabuleiros paralelos, como o da reestruturação da dívida.
A Grécia tem um novo problema. Como ontem aqui escrevi, o
governo grego tem o dever de defender, sem desiludir quem agora o reforçou, um novo
e mais imperativo mandato de recusa da austeridade. Nos últimos cinco meses,
andou num vai-e-vem de propostas. O referendo deu-lhe agora a possibilidade de transferir
para os parceiros europeus o ónus da resolução do problema. Como? Aceitando estes
as soluções que a Grécia apresenta, as quais, tendo até uma relativa sensatez,
se confrontam com a dificuldade de fugirem por completo à lógica dos restantes
parceiros. Podem dizer que estou a simplificar o problema. Não estou, é só isto.
Mas os parceiros europeus da Grécia também têm um novo problema.
No passado, tiveram consigo o fator tempo: embora crescentemente irritados,
foram deixando prolongar a tramitação negocial, na errónea esperança de que a
chegada das “deadlines” temporais para a liquidação dos empréstimos pudesse
vergar a vontade grega. Enganaram-se.
Ao impor a votação de domingo, o governo da Grécia conseguiu
a dramatização que pretendia. Se as torneiras do financiamento se fecharem, se
a miséria se tornar evidente no dia-a-dia, Atenas dirá, agora mais do que nunca,
que tal se deve à obstinada intransigência dos credores. E isso não demorará
semanas a acontecer, será dentro de dias.
Vamos agora ser testemunhas de um inédito braço-de-ferro,
num cenário mais emocional do que nunca. Se, com esta sua atitude, por um golpe
de mágica, a Grécia conseguir vir a alterar as políticas financeiras da Europa,
“chapeau”! E todos ganharemos, claro, desde logo, Portugal. Se assim não
acontecer, se um compromisso de qualquer natureza não vier a estabelecer-se, se
a catástrofe financeira for o destino trágico desta aventura, poderemos estar a
assistir ao princípio do fim do projeto europeu.
(Artigo que hoje publico no "Diário Económico")
