Um contido espirro de um amigo, na tarde de ontem, trouxe-me à memória uma história antiga "de espirros", que marcou algumas viagens diplomáticas em que participei, no final dos anos 80.
Era um colega mais velho, homem muito agradável, excelente companheiro, com um ar sempre sorridente. Tinha um "problema". Por uma qualquer razão, espirrava com grande frequência. Nada de grave, estarão a pensar... De facto, isso não teria a menor importância não fosse o facto de o seu espirro ser, como alguém dizia, imenso, fragoroso e "de leque", quase a 180º, com uma incontrolada projeção de perdigotos por quem tinha o azar de se situar no seu vasto horizonte de "ação". O ato nele era tão súbito que nunca tinha sequer tempo para procurar um lenço, pelo que a explosão liquefeita saía sempre em frente, com uma força de projeção muito assinalável. Um espetáculo para quem assistia, um horror para quem o sofria!
A experiência havia-nos mostrado que a mudança de temperaturas tinha como consequência originar uma maior frequência desse fenómeno. Por essa razão, sempre que ele nos acompanhava, em viagens aéreas ao estrangeiro, os mais experientes, alguns dos quais suas anteriores "vítimas", procurávamos garantir lugares bem longe dele, onde pudéssemos estar a salvo desse temível e quase inevitável "chuveiro". Fazíamos isso com real pena, porque ele era uma ótima companhia.
Um dia, numa viagem na Europa, havíamos tido o especial e discreto cuidado de garantir-lhe um lugar numa ala lateral do avião. A seu lado, ia benjamim da delegação, cuja falta de antiguidade justificava o risco a que o submetíamos... O resto dos nossos viajantes, que incluía um membro do governo (já não recordo se alertado ou não), sentava-se prudentemente na zona central do avião. A viagem começou. Minutos depois, o nosso colega levantou-se e, de pé, começou a conversar conosco, que continuávamos sentados. Deu-se então conta que toda a fila à frente da nossa estava vazia. Com naturalidade, veio colocar-se de joelhos, num assento à nossa frente, a muito curta distância.
Pressenti de imediato o "perigo". Como ia junto à coxia, levantei-me e coloquei-me ao seu lado. Os restantes colegas da delegação, menos avisados ou encurralados, permaneceram no seu "raio" potencial de "bombardeamento". O ar condicionado, alguma poeira ou outra qualquer razão levaram, minutos depois, ao inevitável "grande espirro". Que, como nele era habitual, não foi nada contido. Pelo contrário, foi "generoso", com um efeito visível no vestuário (e até na cara!) dos colegas. E não foram duas ou três gotas... Assistiu-se então a uma debandada geral, na busca da casa de banho. A reação foi tal que nem o membro do governo teve prioridade na busca da lavagem redentora. Só visto!
Ainda tens esses terríveis espirros, Manel?