Vai uma "agitação" boa pelo Diário de Notícias. Embora a orientação ideológica do jornal tenha, a meu ver, deslizado um pouco para a direita (em ano de eleições, os "powers that be" não brincam em serviço), com escolhas editoriais de tintas neoliberais que me parece provirem da escola do "Dinheiro Vivo", o jornal ganhou maior vivacidade: os títulos "soltaram-se" (um pouco "à Libé"), o desporto está bem mais criativo, a cultura fez um esforço notório, há mais e mais ágeis entrevistas (mas não exagerem na "ligeireza": há dias, um entrevistador tratava o entrevistado por tu!). Apareceram novos cronistas, alguns da própria casa, tendo sido dado mais e melhor espaço a outros. (Há dois dias, deparei com um texto magnífico da Ana Sousa Dias sobre a diversidade étnica de Lisboa; ontem, Ferreira Fernandes, que segue com a melhor crónica do país, trazia uma página deliciosa sobre a sentença, pateticamente humorística, do Supremo Tribunal de Justiça). Sei lá bem porquê, o jornal dispensou escrita da qualidade de Baptista Bastos e Manuel Maria Carrilho, mas conservou gente muito boa (como João Lopes e o já indispensável Bernardo Pires de Lima, que ensina a ler o mundo internacional como ninguém hoje faz diariamente na nossa imprensa), embora mantenha, estranhamente ou não, certos monos e alguns personagens pios que, tal como os almoços, não devem ser totalmente grátis. Entretanto, o provedor do leitor, Óscar Mascarenhas, já caiu numa página par, o que é sempre um "downgrading" que pode indiciar um destino. A primeira página está mais apelativa e a imagem ganhou por lá força e espaço, mas o grafismo necessita ainda de um imenso golpe de asa. E o site tem de sair rapidamente da pré-história. No geral, o DN está a demonstrar ter estamina interna para conseguir "dar a volta", o que não era muito evidente, até há umas semanas atrás. Ontem, no Twitter, o novo diretor, André Macedo, dizia, "inchado", que o seu jornal desse dia "metia no bolso" o "Público" e o "Expresso". E tinha razão! Eu, que escrevinho "por outra freguesia", não quero deixar de associar-me a quantos se alegram com mais um renascimento do antigo jornal "da Moagem". Até o Augusto de Castro e o Saramago, cada um à sua maneira, devem estar a sorrir.
