terça-feira, outubro 06, 2026

Archer


Da mesma forma que às vezes consigo ficar satisfeito com uma bifana gordurosa metida num pão, acompanhada de um vinho assim-assim, ao balcão de uma tasca reles, habituei-me ao longo da vida ao singular prazer de consumir literatura de segunda classe. Em férias, adoro comprar um policial qualquer — isso mesmo: qualquer — numa tabacaria de província e lê-lo numa esplanada ou num banco de jardim. Não precisa de ser um Hammet ou um Simenon: basta-me que tenha uma trama aceitável, que me divirta os minutos e me faça passar o tempo.

Serve isto para dizer que, ao saber há minutos da morte de Jeffrey Archer, que sempre passou bem ao largo da grande literatura, não posso deixar de lhe agradecer as muitas horas que tive na companhia da sua escrita: simples, escorreita, fácil e divertida. Acompanhei também, com discreta curiosidade, as atribulações da sua existência, da comédia política às agruras da prisão. Não sendo entusiasta da figura do bom malandro— o romantismo da marginalidade nunca me seduziu —, não me desperta simpatia quem mente à justiça, a qual acabou por lhe cobrar a conta. Nada disso me impediu de ser, e continuar a ser, consumidor da sua obra. Há livros que não aspiram a ser literatura e que cumprem, ainda assim, muito bem a sua função. Jeffrey Archer foi, para mim, um desses casos. Uma espécie de bifana literária. Que, às vezes, sabe muito bem.

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