Há dois dias, entrei no pátio da universidade onde passarei a dar aulas na área das Relações Internacionais e deparei com um agitado ambiente de praxes académicas. Não gostei, confesso.
Detesto praxes e sinto uma profunda rejeição por estes ritualismos. Admito que, no caso da Universidade de Coimbra, uma história muito antiga e uma cultura académica particular ainda possa justificar a manutenção de alguns desses hábitos, se bem que adaptados às realidades de hoje e sempre numa base assumidamente voluntária e não constrangente. Mas não consigo entender como é que em universidades com algumas escassas dezenas de anos, sem suporte de uma vivência académica usufrutuária de um longo passado, se inventam (e procuram justificar) "tradições" e se estabelecem impunemente práticas de humilhação dos mais novos, com o alibi de serem modelos de "enquadramento" e iniciação na vida das escolas.
Estudei, dos anos 60 para os 70 do século passado, em universidades públicas no Porto e em Lisboa. Nunca por lá vi praxes e, nem por isso, deixei de ter uma feliz integração académica, criei novos amigos e agradáveis conhecimentos, desde a primeira hora. Essa falsa justificação para a imposição das praxes deveria ser denunciada e combatida, mas não vejo vontade suficiente para isso, desde logo por parte das associações académicas (e aqui, sim!, assumo: tenho saudades do espírito das associações académicas do meu tempo!). Por seu lado, muitos professores parece viverem num ambiente acomodado: privadamente confessam que não gostam das praxes mas acabam por considerá-las inevitáveis, para não "comprarem uma guerra" com os alunos, limitando-se, por tibieza, a condenar as mais abusivas.
Esta minha atitude negativa estende-se também ao uso, fora de Coimbra, da capa-e-batina, atulhada de emblemas, bem como para as bizarrias de algumas tunas, quase sempre servidas por escolhas musicais que relevam apenas dos usos espanhóis, em especial galegos, com coreografias femininas feitas de ridículos e inestéticos saltos ginasticados e piruetas pelo chão, cuja graça e elegância nunca me foi dado entender. Se a isto somarmos as bebedeiras "de caixão à cova" nas "festas académicas" e o recrutamento de cantores da escola pimbo-pornográfica para os seus espetáculos musicais fica feito um retrato nada lisonjeiro dessa triste parte da atual geração académica.
Muitas destas palhaçadas, porque é disso que se trata, tiveram os seus extremos em casos como o do Meco - mas os registos de incidentes graves e até fatais são bem frequentes - sem que, até hoje, quiçá sob pressão dessas "escolas" que são as "jotas", tivesse havido coragem legislativa para pôr cobro a estas derivas.
Mas as universidades têm a principal culpa na tolerância destas práticas, quando lhe seria fácil, pura e simplesmente, determinar a proibição das praxes nas suas instalações e atuar e exercer competência disciplinar sobre os seus instigadores, em práticas fora do seu perímetro. Tenho a certeza que a suspensão de meia dúzia de "praxistas" seria um princípio do fim deste medievalismo. Será por cobardia que não atuam?
Mas as universidades têm a principal culpa na tolerância destas práticas, quando lhe seria fácil, pura e simplesmente, determinar a proibição das praxes nas suas instalações e atuar e exercer competência disciplinar sobre os seus instigadores, em práticas fora do seu perímetro. Tenho a certeza que a suspensão de meia dúzia de "praxistas" seria um princípio do fim deste medievalismo. Será por cobardia que não atuam?
Acho que o momento em que inicio atividade docente numa universidade é o momento certo para fazer esta declaração de interesses. Para que não haja quaisquer equívocos.
