Um peculiar sentido do tempo é algo que nos habituámos a ligar à Justiça portuguesa. Ela tanto deixa prescrever processos, como os prolonga por eternidades, como escolhe momentos particulares para os fazer emergir à luz do dia, neste caso através de "fugas" que alguém combina com uma comunicação social ávida de títulos escaldantes.
Vem isto a propósito de Scolari e das suas alegadas dívidas ao fisco português. É no mínimo estranho que o labéu de arguido ao antigo selecionador português, num processo que se reporta a factos ocorridos há largos anos, surja a público precisamente a escassas semanas do início do campeonato do mundo, onde o Brasil, dirigido por Scolari, joga uma aposta que vai muito para além da bola. Para muito cidadão brasileiro a quem esta notícia deve estar a chegar - nada habituado ao consabido rigor, precisão e eficácia da máquina judiciária portuguesa - esta coincidência vai ser lida como um fator oportunista de desestabilização, num torneio onde Portugal é também interessado. E isso vai ajudar a alguma lusofobia sempre recorrente.
Só nós, portugueses, temos a certeza de que nada foi de propósito. Conhecendo-a como conhecemos, todos sabemos que a Justiça portuguesa seria incapaz, de forma deliberada, desta precisão temporal.
