O período desses anos 90 era fértil em viagens. Eu acompanhava, com grande frequência, António Guterres nos contactos internacionais com os seus pares, nesse tempo de grande atividade e iniciativa de Portugal no plano europeu. A política interna, porém, não parava e algumas tensões resultavam em crises.
Um dia, em Paris, Guterres recebeu a notícia da demissão de Jorge Lacão, creio que de líder do grupo parlamentar. Telefonemas e mais telefonemas. Passaram umas semanas e, creio que estávamos em Londres, Manuela Arcanjo demitiu-se de secretária de Estado. Nova crise. Durante uma outra viagem, pouco tempo depois, um outro abandono de alguém, de um qualquer cargo que já não recordo. Mais problemas.
Passaram umas semanas. Numa outra viagem, no "Falcon" oficial, o primeiro-ministro recordou as três demissões e gracejou que parecia que não podia sair do país: demitia-se logo alguém! Acrescentou, sorrindo: "espero que, durante esta viagem, ninguém se demita!".
No percurso entre o aeroporto e a cidade, levei no meu carro um funcionário do MNE que tinha ouvido o comentário de António Guterres e que sublinhou a curiosa coincidência das ocorrências descritas pelo chefe do governo. A certo passo, recebi uma chamada por telemóvel. Porque o meu companheiro de viagem era um homem em cuja discrição eu confiava muito pouco, respondi por monossílabos e expressões vagas àquilo que me estavam a dizer, para não se perceber o assunto. Notei a curiosidade imensa do pendura, pelo que achei que tinha uma bela oportunidade para testá-lo. À saída do carro, sem mais pormenores, disse-lhe: "O primeiro-ministro ainda não sabe uma demissão de que acabo de ter conhecimento". E referi o nome de um político socialista medianamente conhecido, acrescentando em voz baixa: "Mas não se pode dizer rigorosamente nada! É secreto!".
No percurso entre o aeroporto e a cidade, levei no meu carro um funcionário do MNE que tinha ouvido o comentário de António Guterres e que sublinhou a curiosa coincidência das ocorrências descritas pelo chefe do governo. A certo passo, recebi uma chamada por telemóvel. Porque o meu companheiro de viagem era um homem em cuja discrição eu confiava muito pouco, respondi por monossílabos e expressões vagas àquilo que me estavam a dizer, para não se perceber o assunto. Notei a curiosidade imensa do pendura, pelo que achei que tinha uma bela oportunidade para testá-lo. À saída do carro, sem mais pormenores, disse-lhe: "O primeiro-ministro ainda não sabe uma demissão de que acabo de ter conhecimento". E referi o nome de um político socialista medianamente conhecido, acrescentando em voz baixa: "Mas não se pode dizer rigorosamente nada! É secreto!".
Chegámos ao hotel. Uma hora depois, no hall, um membro do gabinete de Guterres aproxima-se de mim: "Você quer saber que aquele tipo do MNE referiu por aí a alguém que "Fulano" se demitiu. Tem sido imensamente gozado, porque, como se sabe, "Fulano" não ocupa nenhum cargo! Não podia ter-se demitido!". Verifiquei a eficácia do teste e tomei nota do sentido de discrição do diplomata. Que nunca me falou do assunto. Até hoje.
Lembrei-me disto ontem, quando vi que Jorge Lacão se demitiu.
