Não sei se tem ainda a ver com efeitos do 25 de abril, mas, contrariamente à esquerda, que se afirma abertamente, a direita portuguesa esconde-se quase sempre por detrás de alguns heterónimos - como "conservador", "liberal" (este, quase sempre a medo, porque "neo-liberal" surge com carga negativa) ou, no máximo das ousadias, sob o conceito de "centro-direita" (durante muito tempo ser "do centro" era a mesma coisa). Muitos comentadores desse setor (Marcelo Rebelo de Sousa dizia ontem na TVI que 2/3 dos comentadores são ligados ao PSD) ou procuram neutralizar-se ou usam um curioso eufemismo - "não são de esquerda".
Porque as sociedades só ganham em ser transparentes, gostaria de ver a direita portuguesa assumir-se como tal. Temos hoje, por exemplo, talvez o governo mais à direita da nossa História democrática, mas não vejo nenhum dos seus membros dizer isso mesmo, sem sofismas - "somos de direita". Pelo contrário, quando alguém afirma que se trata de um governo de direita sente-se que ficam ofendidos, como se isso fosse um insulto, como se tivessem vergonha de não ser de esquerda.
Alguns dirão: mas se nos afirmamos como "de direita", a esquerda atira-nos isso à cara, chama-nos "fascistas", liga-nos ao tempo da ditadura. Sabem por que é que isso acontece? Porque muita direita se sente na permanente obrigação de relativizar a gravidade dos tempos salazomarcelistas, porque deixa cair, a espaços, alguns elogios ínvios a parte desse passado, porque não soube criar um "firewall" entre um pensamento contemporâneo de direita e as brumas sinistras da ditadura. Vê-se isso muito nos blogues ditos "liberais". Muitas das pessoas de direita em Portugal não fizeram ainda o "exorcismo" do que se passou antes do 25 de abril. Quando o fizerem, quando conseguirem assumir uma denúncia aberta desse passado, a esquerda mais agressiva deixará de ter espaço para os atacar por isso, fazendo-o apenas no terreno das ideias atuais. Enquanto a direita democrática continuar envolvida num conúbio com a direita cavernícola, com o caceteirismo miguelista, isso não será possível.
Por isso, no dia em que nasce o jornal informático "Observador", marcado por uma linha claramente de direita, aliás muito consentânea com os apoios financeiros de que dispõem e com os objetivos de sociedade que pretende, sinto pena em não ver isso mesmo assumido com clareza pelos seus responsáveis. Mas não: o máximo que surgiu, nos textos que acompanharam o lançamento do seu "site", foi a nota de ser de orientação "liberal". Ora bolas!
Já é tempo da direita portuguesa, a direita democrática que não tem realmente "esqueletos no armário" do tempo do Estado Novo, afirmar com orgulho o que é, defender as suas ideias e os seus projetos, ir à luta, sem disfarces. Embora, nem por um momento, alguma direita nisso acredite, foi também para isso que se fez o 25 de abril.
Em tempo: porque o "esbatimento" entre esquerda e direita faz parte do debate, aqui deixo o clássico pensamento do filósofo francês Alain: "Lorsqu'on me demande si la coupure entre partis de droite et partis de gauche, hommes de droite et hommes de gauche, a encore un sens, la première idée qui me vient est que l'homme qui pose cette question n'est certainement pas un homme de gauche".
Em tempo: porque o "esbatimento" entre esquerda e direita faz parte do debate, aqui deixo o clássico pensamento do filósofo francês Alain: "Lorsqu'on me demande si la coupure entre partis de droite et partis de gauche, hommes de droite et hommes de gauche, a encore un sens, la première idée qui me vient est que l'homme qui pose cette question n'est certainement pas un homme de gauche".