O meu pai contava a história de um colega que, durante a guerra, se assumia como germanófilo, junto da maioria anglófila dos seus amigos. Passou anos numa solidão orgulhosa, para assim afirmar a firmeza dos seus ideais. Nos dias que correm, e em termos europeus, não me parece que qualquer das duas designações acarrete a menor popularidade.
Sou germanófilo? Não esqueço que devemos muito da Europa que temos à geração política alemã que, no pós-guerra, conseguiu ajudar a constituir as paredes da casa democrática europeia, num tempo de memórias trágicas, de ressaca de fortes traumas e de corajosos compromissos. Como português europeu, sinto-me tributário de um tempo em que contámos com a Alemanha para entender as dificuldades próprias de um Estado inelutavelmente periférico na geografia, recém-saído de uma ditadura que presidira às últimas décadas de um império alimentado contra o tempo. Considero-me para sempre devedor da atenção que um homem como Helmut Kohl dedicou a um país que lhe era distante, talvez porque tivesse entendido que, também nós, lutávamos para derrubar um "muro" que nos separava da esperança na consolidação da liberdade e na construção do bem-estar.
Para Portugal, a Alemanha foi, durante muito tempo, o "bom gigante" com o qual contávamos no seio da Europa, distante da atitude do outro parceiro do novo eixo dominante, da França, onde nos foi difícil superar o cinismo que uma figura como Giscard d'Estaing simbolizou como ninguém, no nosso processo de aproximação às instituições comunitárias. Com a Alemanha, para surpresa de muitos, comungámos no desejo de ver a Europa alargada a Leste, porque cedo entendemos que esse era o inevitável preço que havia que pagar pelo fim da União Soviética, abrindo uma janela de oportunidade para um novo equilíbrio geopolítico, que era também o nosso. Desde logo, pela unificação alemã, um primeiro "alargamento" nunca como tal assumido, por uma espécie de pudor reverencial.
Numa década, a Alemanha mudou imenso. Com o curso da recente crise financeira, alterou drasticamente o seu paradigma de relação intra-europeia e projetou de si própria a imagem de uma potência económica ainda longe da plena maturidade política, com uma atitude à altura do seu efetivo poder. A sua liderança na gestão da crise foi no mínimo patética, sempre arrastada pelos acontecimentos, em lugar de os pilotar. O modo como nela tem controlado as figuras maiores da máquina da União Europeia demonstrou arrogância, insensibilidade e acabou por afetar duradouramente a legitimidade política das suas instituições.
A Europa nunca será um país, pelo que, para ter hipóteses de afirmar-se no seu espaço e na força dos valores que projeta no mundo, necessita de ter no seu seio Estados fortes que tenham, simultaneamente, o sentido de compromisso em torno dos interesses comuns e a grandeza de os pensarem numa lógica que tenha a permanente preocupação de evitar ou diluir as clivagens. O respeito pelos mais fracos é o sinal mais importante dessa grandeza. Sinto cada vez mais saudades da Alemanha que aprendi a admirar e respeitar em Bona. A minha "germanofilia" é, dia após dia, posta em causa pelo que me chega de Berlim.
Artigo que hoje publico no "Diário Económico"
Sou germanófilo? Não esqueço que devemos muito da Europa que temos à geração política alemã que, no pós-guerra, conseguiu ajudar a constituir as paredes da casa democrática europeia, num tempo de memórias trágicas, de ressaca de fortes traumas e de corajosos compromissos. Como português europeu, sinto-me tributário de um tempo em que contámos com a Alemanha para entender as dificuldades próprias de um Estado inelutavelmente periférico na geografia, recém-saído de uma ditadura que presidira às últimas décadas de um império alimentado contra o tempo. Considero-me para sempre devedor da atenção que um homem como Helmut Kohl dedicou a um país que lhe era distante, talvez porque tivesse entendido que, também nós, lutávamos para derrubar um "muro" que nos separava da esperança na consolidação da liberdade e na construção do bem-estar.
Para Portugal, a Alemanha foi, durante muito tempo, o "bom gigante" com o qual contávamos no seio da Europa, distante da atitude do outro parceiro do novo eixo dominante, da França, onde nos foi difícil superar o cinismo que uma figura como Giscard d'Estaing simbolizou como ninguém, no nosso processo de aproximação às instituições comunitárias. Com a Alemanha, para surpresa de muitos, comungámos no desejo de ver a Europa alargada a Leste, porque cedo entendemos que esse era o inevitável preço que havia que pagar pelo fim da União Soviética, abrindo uma janela de oportunidade para um novo equilíbrio geopolítico, que era também o nosso. Desde logo, pela unificação alemã, um primeiro "alargamento" nunca como tal assumido, por uma espécie de pudor reverencial.
Numa década, a Alemanha mudou imenso. Com o curso da recente crise financeira, alterou drasticamente o seu paradigma de relação intra-europeia e projetou de si própria a imagem de uma potência económica ainda longe da plena maturidade política, com uma atitude à altura do seu efetivo poder. A sua liderança na gestão da crise foi no mínimo patética, sempre arrastada pelos acontecimentos, em lugar de os pilotar. O modo como nela tem controlado as figuras maiores da máquina da União Europeia demonstrou arrogância, insensibilidade e acabou por afetar duradouramente a legitimidade política das suas instituições.
A Europa nunca será um país, pelo que, para ter hipóteses de afirmar-se no seu espaço e na força dos valores que projeta no mundo, necessita de ter no seu seio Estados fortes que tenham, simultaneamente, o sentido de compromisso em torno dos interesses comuns e a grandeza de os pensarem numa lógica que tenha a permanente preocupação de evitar ou diluir as clivagens. O respeito pelos mais fracos é o sinal mais importante dessa grandeza. Sinto cada vez mais saudades da Alemanha que aprendi a admirar e respeitar em Bona. A minha "germanofilia" é, dia após dia, posta em causa pelo que me chega de Berlim.
Artigo que hoje publico no "Diário Económico"
