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terça-feira, maio 13, 2014

Eu, germanófilo

O meu pai contava a história de um colega que, durante a guerra, se assumia como germanófilo, junto da maioria anglófila dos seus amigos. Passou anos numa solidão orgulhosa, para assim afirmar a firmeza dos seus ideais. Nos dias que correm, e em termos europeus, não me parece que qualquer das duas designações acarrete a menor popularidade.

Sou germanófilo? Não esqueço que devemos muito da Europa que temos à geração política alemã que, no pós-guerra, conseguiu ajudar a constituir as paredes da casa democrática europeia, num tempo de memórias trágicas, de ressaca de fortes traumas e de corajosos compromissos. Como português europeu, sinto-me tributário de um tempo em que contámos com a Alemanha para entender as dificuldades próprias de um Estado inelutavelmente periférico na geografia, recém-saído de uma ditadura que presidira às últimas décadas de um império alimentado contra o tempo. Considero-me para sempre devedor da atenção que um homem como Helmut Kohl dedicou a um país que lhe era distante, talvez porque tivesse entendido que, também nós, lutávamos para derrubar um "muro" que nos separava da esperança na consolidação da liberdade e na construção do bem-estar.

Para Portugal, a Alemanha foi, durante muito tempo, o "bom gigante" com o qual contávamos no seio da Europa, distante da atitude do outro parceiro do novo eixo dominante, da França, onde nos foi difícil superar o cinismo que uma figura como Giscard d'Estaing simbolizou como ninguém, no nosso processo de aproximação às instituições comunitárias. Com a Alemanha, para surpresa de muitos, comungámos no desejo de ver a Europa alargada a Leste, porque cedo entendemos que esse era o inevitável preço que havia que pagar pelo fim da União Soviética, abrindo uma janela de oportunidade para um novo equilíbrio geopolítico, que era também o nosso. Desde logo, pela unificação alemã, um primeiro "alargamento" nunca como tal assumido, por uma espécie de pudor reverencial.

Numa década, a Alemanha mudou imenso. Com o curso da recente crise financeira, alterou drasticamente o seu paradigma de relação intra-europeia e projetou de si própria a imagem de uma potência económica ainda longe da plena maturidade política, com uma atitude à altura do seu efetivo poder. A sua liderança na gestão da crise foi no mínimo patética, sempre arrastada pelos acontecimentos, em lugar de os pilotar. O modo como nela tem controlado as figuras maiores da máquina da União Europeia demonstrou arrogância, insensibilidade e acabou por afetar duradouramente a legitimidade política das suas instituições.

A Europa nunca será um país, pelo que, para ter hipóteses de afirmar-se no seu espaço e na força dos valores que projeta no mundo, necessita de ter no seu seio Estados fortes que tenham, simultaneamente, o sentido de compromisso em torno dos interesses comuns e a grandeza de os pensarem numa lógica que tenha a permanente preocupação de evitar ou diluir as clivagens. O respeito pelos mais fracos é o sinal mais importante dessa grandeza. Sinto cada vez mais saudades da Alemanha que aprendi a admirar e respeitar em Bona. A minha "germanofilia" é, dia após dia, posta em causa pelo que me chega de Berlim.

Artigo que hoje publico no "Diário Económico"

Nuremberga

Ontem, apeteceu-me ver, na televisão, o filme "Nuremberga". Os atores eram de qualidade, o tema era apelativo. O saldo, contudo, n...